A fragata D. Maria II foi um navio mercante inglês que Portugal adquiriu à Inglaterra em 1831. D. Maria II, a sua patrona e 29.o soberano de Portugal, nasceu no Rio de Janeiro a 4 de Abril de 1819 e morreu em Lisboa, a 15 de Novembro de 1853. Casou em primeiras núpcias com o príncipe Augusto Leuchtenberg, a 28 de Janeiro de 1835, e em segundas núpcias com o príncipe D. Fernando de Saxe-Coburgo Gota, a 9 de Abril de 1836. Personalidade forte, mulher de grande coragem, D. Maria II liderou a Coroa portuguesa num período de grandes convulsões políticas: Portugal lutava pela liberdade e a Constituição, que a Rainha defendeu e respeitou, era o garante dessa liberdade. Foram muitos e historicamente notáveis os movimentos e acções a que esta fragata esteve associada. A fragata D. Maria II esteve presente, em Março de 1832, na expedição liberal à ilha da Madeira, aquando da restituição do arquipélago a D. Pedro IV. Em 1832, integrou a expedição, também liberal, que desembarcou próximo da praia do Mindelo, quando D. Pedro IV, partindo da ilha Terceira, nos Açores, vinha ao Reino para restituir a Coroa a sua filha, D. Maria. Participou nos bloqueios do Tejo em Julho e Agosto de 1832, e regressou ao Porto com a esquadra. Em 21 de Junho de 1833 largou do Porto, inregrada na esquadra liberal, rumo ao Algarve, juntamente com as fragatas Rainha de Portugal e D. Pedro, a corveta Portuense e o brigue Vila Flor. Bateu-se então com a fragata miguelista Princesa Real que tomou, junto ao Cabo de S. Vicente. Em Julho de 1833 participou no bloqueio liberal a Lisboa. A cidade rendeu-se e, a partir deste momento, a causa absolutista – de D. Miguel- ficou sem futuro. Em Setembro de 1833 estava em Sines, para dar protecção a terra. Ainda em Setembro, o capitão-de-mar-e-guerra inglês Charles Napier, que em Junho de 1833 assumira as funções de major-general da armada e de comandante-em-chefe da esquadra liberal, com o posto de vice-almirante, mandou a fragata D. Maria II para Setúbal, sob o comando de Frederick Henry, dada a importância deste porto no desenvolvimento das lutas liberais. O Forte de S. Filipe foi então ocupado. Para além desta presença constante nas movimentações da esquadra liberal, a fragata D. Maria II fez percursos regulares para o Oriente. A 4 de Junho de 1838 largou para a Índia como nau de viagem. Quando regressou ao Tejo, em Setembro de 1839, transportava passageiros e carga de pimenta, rotim, café, cairo, e tamarindo, entre outros produtos. A 7 de Junho de 1842, largou novamente para a Índia como nau de viagem. Levava passageiros para Moçambique e Índia, e ainda armamento e fardamento para o batalhão expedicionário. Chegou a Goa a 23 de Novembro de 1842 e regressou ao Tejo a 2 de Agosto de 1843. A 7 de Maio de 1844 saiu mais uma vez para a Índia e voltou ao Tejo a 25 de Maio de 1845. Trouxe passageiros para Moçambique e carga para Lisboa. A 13 de Junho de 1849, fez mais uma viagem para a Índia, com escala em Moçambique, transportando passageiros e degredados. Entretanto, no intervalo destas duas últimas viagens, mais precisamente em Outubro de 1846, a fragata D. Maria II chefiou o bloqueio à cidade do Porto, com o objectivo de impedir a saída dos navios da Junta Revolucionária. A 5 de Junho de 1847 estava novamente no Tejo. É no Oriente que a fragata D. Maria II termina a sua história, em circunstâncias dramáticas associadas à morte violenta de João Maria Ferreira do Amaral, governador de Macau. Ferreira do Amaral, que tomou posse a 21 de Abril de 1846, determinou imediatamente algumas medidas radicais, como foram a declaração de Macau como porto franco, o estabelecimento de um imposto predial e industrial, que também se aplicava aos chineses, e a determinação do registo dos barcos de transporte. Promoveu a abertura de vias no Território cujo traçado implicou a destruição do cemitério chinês. Desagradados com tais medidas, os chineses levaram a cabo uma revolta em Outubro de 1846, revolta dominada pelo governador, que, em 1847, ocupou militarmente a ilha da Taipae no mesmo ano, mandou edificar o Forte da Taipa. Algumas dificuldades rodearam a construção do forte, nomeadamente decorrentes da oposição manifestada pelos mandarins do Sul. O vice-rei de Cantão chegou mesmo a pedir a suspensão da obra, mas Ferreira doAmaral acabou por convencê-lo da oportunidade e necessidade do forte para a segurança das pessoas e da actividade comercial, quer de portugueses quer de chineses. A bandeira portuguesa foi hasteada pela primeira vez no Forte da Taipa em Setembro de 1847, como corolário da ocupação militar da ilha. A partir de então, o Forte da Taipa tornou-se 'um pequeno baluarte de protecção contra os ataques de piratas que ameaçavam constantemente a vida da população'. Outras determinações de Ferreira do Amaral, como o arrolamento de todos os chineses residentes em Macau, a extinção das alfândegas chinesas (hopu), e a proibição de os mandarins entrarem no território tocando bátega - o que significava a afirmação da soberania chinesa-, criaram ao governador um clima de hostilidade que havia de lhe ser fatal. A 22 de Agosto de 1849 é assassinado por um grupo de chineses, em cuja retaguarda estaria a organização secreta Sociedade dos Rios e dos Lagos. Esta organização representava o movimento chinês de oposição aos projectos de alargamento da soberania portuguesa. Em Setembro de 1849, o vice-rei de Cantão comunicou formalmente ao governo de Macau que o assassino de Ferreira do Amaral havia sido preso e executado. Simbolicamente, em Janeiro de 1850, eram enviadas a mão e a cabeça do governador assassinado. Mas o clima não estava definitivamente pacificado. A fragata D. Maria II, que se encontrava na Índia, entrou em Macau a 3 de Junho de 1850 e fundeou no ancoradouro da Taipa a 24 do mesmo mês. Quando, em Outubro, se preparava para largar, é surpreendida pela violenta explosão do paiol. Era o dia 29 de Outubro de 1850. De manhã embandeirou em arco, porque se celebrava o aniversário do rei D. Fernando. À tarde, a explosão. Ficava assim comprometida a expansão da influência portuguesa por via militar. Junto a um dos muros do Forte, foi erigido em 1851 um monumento evocador das vítimas da explosão da fragata D. Maria II. Perderam a vida 188 dos 224 tripulantes, e cerca de 40 chineses que estavam a bordo ou em embarcações próximas. [M.T.O.]
Bibliografia: ESPARTEIRO, António Marques, Três Séculos no Mar (1640-1910), vol. 13, (Lisboa, 1974).

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Data de atualização: 2023/05/16