Logo após a conquista da Índia, Afonso de Albuquerque não só ampliou os arsenais e estaleiros que encontrara, em Goa, como ainda aproveitou o material bélico, que os seus adversários deixaram como despojos, para dele enviar amostras a el-Rei, acompanhadas de alguns operários, que o fabricavam, e, com larga visão, a um tempo prática e diplomática, determinou que os fundidores nativos continuassem a trabalhar no arsenal daquela Cidade. Também, em Cochim, onde, no 'almazem' aí existente se acumulou, anos mais tarde, grande soma de peças de artilharia fundidas nessa Cidade, ficou Afonso de Albuquerque de posse de idênticos estabelecimentos que foram ampliados, por Nuno da Cunha, durante cujo governo a arte de fundição alcançou, na Índia, o zénite do seu desenvolvimento. Aí, bem como em Goa, durante largos anos, deu prova da sua perícia, uma plêiade brilhante de fundidores, a cujo labor se devem curiosos exemplares, que permitem avaliar do grau de desenvolvimento que a arte de fundição atingiu, no Oriente Português, nos séculos XVI e XVII. A abrir esta galeria, de famosos fundidores, surge JOÃO LUIS, condestável-mor dos bombardeiros que, provavelmente, no tempo de Afonso de Albuquerque, iniciou a sua carreira na Índia, onde depois laborou longos anos, até, pelo menos, a 1546. Aí, pôs à prova a sua vasta aptidão, não só de fundidor de bocas de fogo e de moeda de cobre, com que eram pagos os operários que trabalhavam no cerco de Goa como, ainda, reparava as carretas de artilharia e superentendia no apetrechamento das armas e fortalezas sendo, a ele, igualmente, devida a invenção de um engenho para, mais aperfeiçoadamente, se fabricar a pólvora. Contemporâneo de João Luis é FRANCISCO ANES, que fundiu, igualmenre, muita artilharia, como se deduz da seguinte referência às existências, em 1525, no armazém de Cochim. Outro célebre artista que laborou, na Índia, e do qual existe uma carta para El-Rei, datada de Goa, a 16 de Outubro de 1539, foi, como nessa mesma carta o seu autor afirma, ao fazer a sua autobiografia: 'JOÃO VICENTE, fundidor que agora está em Goa por mestre da fundição, faz saber a Vossa Alteza em como vim a estas partes em tempo de Diogo Lopez de Sequeira e achei nos armazéns e feitorias muitos fumdidores da terra em casa de João Luis comdestabre mor'. Contemporâneo de João Vicente é o célebre REIMÃO, do qual embora não existam documentos oficiais que se lhe refiram, ficaram as suas obras a atestar a sua perícia como fundidor. Ouuos nomes ilustram esta lista de fundidores, que vimos apresentando, tais como, FERNANDO ANES ou FANES, do qual se conhece uma bombarda de aduelas de ferro, que se pode admirar no Museu Militar e que, juntamente com a já citada do célebre Reimão, fora embarcada, em Diu, onde se encontrava. A par destes ilustres fundidores, distingue-se, na segunda metade do século XVI, a celebre família BOCARRO, cujo elemento é FRANCISCO DIAS que, em 1589, devido a estar doente e velho, é substituido por dois fundidores, mais jovens, para tal fim, propositadamente enviados do reino ao governador da Índia, D. Duarte de Menezes, como consta de uma carta de El-Rei, datada de 6 de Fevereiro daquele ano dirigida ao referido governador e, na qual ainda se recomenda que, apesar da muita artilharia já fundida, continue fundindo mais. Por morte de Francisco Dias passa o cargo de mestre de fundição de artilharia, do Estado da Índia para seu filho, PERO DIAS BOCARRO, nomeado pelo governador D. Duarte de Menezes e confirmado no cargo por Filipe I, a 12 de Outubro de 1590. A este fundidor se devem, também, duas colubrinas de bronze que, em 1837, existiam em Goa, uma das quais, em 1841, foi transformada em moeda, em 1841. Com o mesmo apelido e pertencente, muito provavelmente, à mesma família, temos notícia de JERÓNIMO TAVARES BOCARRO, que sendo nomeado para o cargo de mestre de fundição de artilharia do Estado da Índia pelo vice-rei Luis de Mendonça Furtado e Albuquerque, Conde de Lavradio, foi confirmado no mesmo cargo, por carta régia de 21 de Novembro de 1674, sendo, com este apelido, o último fundidor de que há notícia naquele estado. Não foi, apenas, na Índia, que, nos séculos XVI e XVII, floresceu a arte de fundição, como atrás ficou referido. Também na Cidade de Macau e de uma forma talvez até mais brilhante do que na Índia, essa arte se desenvolveu, durante quase meio século, mercê dos incontestáveis méritos de dois membros da famosa família BOCARRO. O artilhamento das fortalezas da cidade foi, desde logo, um dos problemas que mais o interessou, tendo, para o resolver, instalado, nesse mesmo ano de 1623, com o patrocínio do vice-rei da Índia, Conde de Linhares, próximo da fortaleza do Bomparto, no local conhecido por Chunambeiro (nomederivado do facto de, aí, se fabricar cal de ostra, produto este que se designa por chunambo ou chunamo), uma fundição de bronze e ferro, de que, ainda no século passado, se notavam vestígios. Instalada devido às necessidades provenientes do perigo latente da ameaça estrangeira, em especial holandesa, ameaça que a distância de Goa ainda tornava maior por dificilmente poder, daquela Cidade, vir rápido e eficaz auxílio militar. A fundição do Chunambeiro, que se destinou, inicialmente, a prover de bocas de fogo as fortalezas de Macau, em breves anos teve uma mais vasta projecção, ao tornar-se o principal centro abastecedor das naus e praças de guerra portuguesas, não só da Índia, como de todo o Extremo Oriente, tendo ainda daqui sido enviadas peças ao Continente e, não poucas, à própria China, as quais, ao mesmo tempo que serviram de auxílio militar, foram um precioso instrumento diplomático para a consolidação do prestígio do nome português na rica e enigmática Corte de Pequim. Foi devido ao auxílio militar, várias vezes prestado por Macau à famosa dinastia Ming 明, no século XVII, em que a parte preponderante coube à artilharia, não apenas em homens, como em material, grande maioria dele assinado com o nome BOCARRO, que a então opulenta e invejada Cidade do Nome de Deus, venceu graves crises da sua existência. Desde o seu estabelecimento até 1625, a fabrica do Chunambeiro foi dirigida por Pera Dias Bocarra que, para tal fim, em 1623 se transferira da Índia para esta Cidade, e, desde aquela data, por seu filho, o célebre MANUEL TAVARES BOCARRO, natural de Goa, o qual como fundidor trabalhou em Macau desde 1625 até 1656 e, desde o ano seguinte até 1664, desempenhou o cargo de Capitão Geral da Cidade, ignorandose se morreu aqui, nesse ano, ou se regressou a Goa, a fim de internar as filhas no Convento de Santa Mónica, como era seu desejo. A máxima produtividade da fundição de Macau, que se sobrepôs, em importância, às suas congeneres da Índia, foi atingida sob a égide deste famoso fundidor e, embora não tenhamos conhecimento que bocas de fogo hajam sido fabricadas, nesta Cidade, após 1656, altura em que Manuel Tavares Bocarro deixou de exercer as funções de chefe da fundição, é de admitir que, pelo menos até 1664, haja ela laborado, por até essa data ele ter estado à frente dos destinos da Cidade, sendo, assim, talvez nesse ano, que para sempre se extinguiu o intenso labor da famosa fábrica do Chunambeiro. Poucos anos volvidos, o vice-rei da Índia, em carta datada de 2 de Setembro de 1630, comunica para o Reino, que voltara a pedir ao Capitão-Geral de Macau, D. Jerónimo da Silveira, que fossem enviados, desta Cidade para Goa, mais alguns daqueles artistas e, em 1632, é Lisboa que recomenda que, devido ao facto de na capital da Índia se poder lavrar artilharia de ferro coado, fossem para lá imediatamente enviados os artífices chinas necessários para tal fim. Ao mesmo tempo que se diligenciava para obter fundidores em Macau, para servirem em Goa, encarou-se o problema da fundição do ponto de vista económico, como se deduz de uma carta, de 15 deMarço de 1630, com instruções de El-Rei sobre as amostras de ferro enviadas da China e de duas outras, respectivamenre de 9 de Janeiro de 1632 e de 14 de Março do mesmo ano, dirigidas ao vice-rei da Índia, em que lhe é pedido o resulrado dos exames das referidas amostras. Mas tais análises houvessem provado não ser o referido ferro de boa qualidade, havendo, na Índia, grande falta dessa matéria-prima, que com dificuldade se obtinha para outros fins, e, ainda, devido ao facto de ser mais barato o fabrico de peças nas fundições de Biscaia, foi em 8 de Março de 1634 ordenado, ao vice-rei da Índia, que informasse o Reino dos calibres mais necessários e da artilharia de que aquele Estado mais necessitava, a fim de que as fundições biscainhas fossem feiras as encomendas julgadas convenientes. Não obstante, porém, todas estas circunstâncias, continuou a fundição do Chunambeiro, durante vários anos, a prover a todas as necessidades, não só da Índia, como do Extremo Oriente Português, como o provam as constantes instruções, sobre tal assunto, dadas por Lisboa ao vice-rei da Índia. Assim, em carta datada de 23 de Fevereiro de 1633, El-Rei recomenda ao Conde de Linhares que, em Macau, se continue a fundir artilharia para guarnecer as fortalezas daquele Estado, mas como certamente estas ordens não foram integralmente cumpridas, volta, em 28 de Março de 1635, a insistir na necessidade de se aproveitar a fundição do Chunambeiro. Anos mais tarde, em 1636, novamente é ordenado ao vice-rei da Índia, Pedro da Silva, que procurasse com todo o cuidado que em Macau se fizessea fundição de artilharia de ferro coado e, como, 'ao fundidor Portuguez que lá assistia (Manuel Tavares Bocarra) se lhe hauia concedido liçença para vir a Goa em consideração do que sucedesse ao Mestre da fundiçaõ seu pay (Pedro Dias Bocarro)'. EI-Rei em carta de 1640 recomenda que 'trateis com particular cuidado de que se continue a fundiçaõ de Artelharia no tempo de vosso Gouerno, pois hé taó neçessaria como se reprezenta para as Armadas desse Estado, enão dareis Liçença aos fundidores ... pella grande falta que faraó nessas partes naó os hauendo nellas'. Embora a fundição de Macau pudesse, devido à sua intensa produtividade, prover as necessidades da Índia, o bloqueio permanente do estreito de Singapura, pelas esquadras holandesas, tornou impossível, a partir de 1634, o transporte para Goa das peças produzidas na fábrica do Chunambeiro. Para obstar, porém, a esta dificuldade, os portugueses passaram, a partir daquela data, a fretar navios ingleses para o transporte para a Índia, das peças produzidas em Macau, quer de bronze, quer de ferro, assim iludindo a vigilância dos holandeses. O London foi o primeiro da série dos navios que, durante anos, escoaram desta Cidade os produtos da sua fundição, até que, porém, em 1643, o Bona Speranza, empregado com o mesmo fim, foi capturado no estreito de Malaca o que, representando a descoberta do estratagema, anulou a possibilidade de ser exportado o material de artilharia aqui fabricado. situação, porém, não tardou a modificar-se pois, por carta de 24 de Março de 1643, o vice-rei da Índia recebe instruções de Lisboa, para, devido ao facto de entre Portugal e Holanda se ter celebrado uma trégua de dez anos, aproveitar essa circunstância a fim de seguir, para Goa, as peças fundidas e acumuladas em Macau. Assim, em 1654, foram enviadas para a Índia e para Portugal, algumas centenas de peças de artilharia, grande número das quais seguiu no galeão São Pedro enviado, especialmente para esse fim, de Goa a Macau. Os anos decorreram e da arte de fundição, que atingiu alto nível no Oriente Português nos séculos XVII e XVIII, hoje restam, apenas, alguns poucos exemplares que lograram escapar à fúria destruidora dos Homens. O desmembramento do Império Português do Oriente, levou à gradual diminuição, até total extinção, da capacidade produtora, não só na Índia, onde a arte balística foi, brilhantemenre cultivada, como também em Macau, onde ela decaiu, após cerca de meio século de fecundo labor da famosa fábrica do Chunambeiro. A incúria e a ignorância dos homens, aliada à acção destruidora do tempo, permitiram o desaparecimento de muitos dos preciosos exemplares de peças de anilharia atrás referidos, mas outros ainda hoje são conservados como relíquias. [F.S.A.]
Bibliografia: AMARO, Fernando da Silva, 'Fundição e Fundidores de Artilharia' in Revista de Artilharia, n.os 413-414, 329-346, (Jan.-Fev. 1960).

Informações relevantes

Data de atualização: 2023/05/17