
Informações relevantes
Data de atualização: 2020/09/03
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515
CABRAL, FRANCISCO (1553?-?). Nasceu em São Miguel, Açores, Portugal, por volta de 1533, filho de Aires Pires Cabral, Juíz do Reino, e de Francisca Nunes de Proença, de família fidalga francesa. Aprendeu as primeiras letras em Lisboa e estudou Humanidades em Coimbra. Em 1550 alistou-se como soldado na expedição de Afonso de Noronha, vice-rei da Índia, e em Outubro de 1552 lutou contra Pisbeg, general turco que sitiava o enclave de Ormuz. Por António Vaz conheceu a vida e as actividades dos Jesuítas. Em Dezembro de 1554 abandonou as armas e entrou para a Companhia de Jesus. Antes de se ordenar sacerdote (1558-1559) foi nomeado mestre dos noviços, passando, em 1561, a ocupar a cátedra de teologia. Em Fevereiro de 1562 foi nomeado reitor do colégio de Baçaim, por quatro anos, mas depressa regressou à cátedra de teologia moral. Em 1567 foi reitor do colégio de Cochim, mas depressa regressa a Goa, de cujo colégio foi também reitor por pouco tempo. Nomeado superior de Macau e da missão do Japão, como sucessor de Cosme de Torres, chegou a Macau em Agosto de 1568. Aqui teve algumas contendas com Organtino Soldo, que chegou no ano seguinte, e foi com ele que chegou ao Japão a 18 de Junho de 1570. Sem experiência do ambiente japonês, convocou o conselho da missão para adoptar certas reformas ordenadas pelo provincial da Índia, António Quadros: o retorno da sotaina negra de algodão, em vez de uma vestimenta parecida à dos bonzos budistas, adoptada pelos Jesuítas do Japão durante três lustros. A segunda reforma foi o envio do modesto capital da missão do Japão para a Índia, para adquirir rendas fixas e conciliar os desvios encomendados a comerciantes portugueses. Pouco tempo depois, Cabral reconheceu que o sistema não passava de uma utopia e, como o anterior provincial Melchior Nunes Barreto na sua breve visita, em 1556, fez marcha atrás. Cabral, ao contrário, reformou o método evangelizador do seu antecessor Cosme de Torres, em prol de uma sistematização do trabalho, no estilo dos Jesuítas da Índia. Cabral dedicou o seu primeiro ano a visitar as igrejas da ilha de Kiushu, tendo Luís de Almeida como intérprete, e, no ano seguinte, empreendeu uma viagem à capital Kyoto, “levando comsigo somente, por lingua e companheiro, o irmão João de Torres, que o padre Cosme de Torres baptizou em Yamaguchi nascido de oito dias”, (como escreveu Luís Fróis) ambos vestidos de sotaina e manto. No porto de Sakai foram recebidos por Organtino e pelo irmão meio cego Lourenço, de cabeça rapada à maneira dos bonzos e vestidos com quimonos de seda. Organtino recusou-se a vestir a sotaina preta. Para Cabral era urgente ver o estado da cristandade na capital e marcar presença no meio da nobreza, com visitas de cortesia ao imperador Ashikaga e ao Daimio Oda Nobunaga, entre outros. De regresso à zona de Kiushu dedicou-se a cumprir o seu ofício de superior, até que, em 1578, o Daimio Otomo Yoshishige de Bungo tentou reconquistar o senhorio de Hyuga (Miyazaki) – usurpado pelo dáimio de Satsuma – com o plano de instituir uma república cristã no estilo dos reinos da Europa, prevista para cristianizar todo o Japão. A campanha terminou com um fracasso rotundo, na batalha de Mimikawa. Em 1579, o visitador Alessandro Valignano chegou ao Japão com plenos poderes e Cabral retirou-se para segundo plano. Em 1581, com a desculpa, verdadeira, da sua pouca saúde, mas na realidade para evitar atritos, pediu o relevo como superior da missão. Valignano acedeu, nomeando-o superior da comarca de Bungo, com residência em Usuki, mas em Fevereiro de 1583 chamou-o a Macau para o encarregar dos Jesuítas desse porto, enquanto Valignano realizava a viagem à Europa com os jovens legados japoneses. Cabral apoiou o desenvolvimento da missão chinesa preparada por Michelle Ruggieri, desde 1579, entrando pouco depois no império para visitar os Jesuítas de Zhaoqing. Em 1586, Valignano propô-lo para a Casa Professa de Goa (1587-1592), e a continuação provincial da província goesa (1592-1597). Terminando em Setembro o seu provincialato, Cabral continuou como predicador e confessor até ser nomeado novamente proposto (c. 1605), prefeito espiritual e consultor da província. Morreu em Goa, numa quinta-feira Santa, a 16 de Abril de 1609. Cabral foi uma figura controversa, com evidentes defeitos, ou melhor, excessos, mas pela sua rectidão como religioso, pelas suas inegáveis virtudes e pelo seu grande espírito apostólico, gozou da estima dos seus superiores, António Quadros e Francisco Rodriguez, mas não tanto dos visitadores Organtino Soldo e Alessandro Valignano, com quem teve alguns sérios atritos. A sua auto-suficiência pessoal, ligada a uma certa falta de flexibilidade e tacto no trato com os Jesuítas da missão, tirou em parte o brilho à sua actuação como superior de Macau-Japão (1569-1581). Sobrestimou os valores portugueses, chegando a menosprezar a raça japonesa e os restantes asiáticos ou europeus não portugueses. Apesar disso, teve atitudes dignas de louvor, como a consolidação da escola de línguas ou a admissão de bastantes noviços japoneses na Ordem, ainda que por Ordem do visitador. Bibliografia: SCHÜTTE, Josef F., Valignano’s Mission Principles for Japan, vol. 2, (St. Louis, 1980); SCHUTTE, Josef F., Introductio ad Historiam Societatis Jesu in Japonia 1549-1650, (Roma, 1968).
CABRAL, FRANCISCO (1553?-?)
ANOK, COMENDADOR JOEL JOSÉ CHOI (1867-1945). Figura marcante da filantropia da comunidade católica chinesa de Macau, Joel Anok nasceu em 1867 e faleceu nesta cidade em 1945. De seu nome original Tsui Nok Chi, “cristianizado” depois para Joel José Choi Anok, descobrimos esta importante personagem do associativismo e da assistência chinesa macaenses a entrar, ainda jovem, ao serviço do Estado local, servindo, como amanuense e dispenseiro, vários governadores do enclave – Tomáz da Rosa, Firmino da Costa e Custódio Borja –, integrando várias comitivas governamentais às grandes cidades chinesas de Xangai e Pequim, ao Timor Oriental sob domínio português, a Banguecoque e ao Japão, visitando Nagasáqui, Iokohama e Tóquio. Seguidamente, exerce por longo tempo as funções de dispenseiro a bordo dos principais navios mercantes e militares, instalados ou em circulação por Macau. Regista-se a sua presença nos grandes navios da marinha epocal, Tâmega, Diu, Zaire, Tejo, Liberal e corveta D. Estefânia, alargando as suas visitas aos portos comerciais chineses, a Manila, a Singapura, às cidades portuárias do reino da Tailândia, a Colombo, à Indonésia holandesa, à Austrália e mesmo, mais longe, a Casablanca. A competência e cuidado mobilizados nas suas tarefas navais permitiram-lhe ser nomeado dispenseiro de primeira classe no Ministério da Marinha, em Lisboa, cargo que Joel Anok exerceu qualificadamente durante nove anos. Regressado a Macau no princípio do século passado, ver-se-ia nomeado funcionário da Estação Naval e, a seguir, para a prestigiante posição de Fiel do Palácio do Governador colonial, cargo que exerceria durante trinta e cinco anos. Nesta altura, era já uma figura prestigiada entre a comunidade católica de Macau, empregando parte importante da sua fortuna e influência social na direcção e fundação de muitas obras de assistência. Assim, entre 1918 e 1942, foi sempre eleito vogal da Comissão Directiva do Hospital chinês Kiang Wu (Jinghu 鏡湖). Em 1922 chega à direcção da Associação de Beneficência Tong Sin-Tong (Tongshan Tang同善堂), presidindo depois às suas actividades filantrópicas, desde 1930 até à sua morte. Encontra-se durante a sua presidência desta associação um período de alargamento das suas actividades, expansão das suas receitas e ampliação dos seus bens, transformando a obra de beneficência num dos mais importante senhorios de Macau. A partir desta projecção económica, generosamente estribada em concorridas subscrições públicas, Joel Anok conseguiu promover a fundação de uma escola primária gratuita para ambos os sexos, que haveria de se tornar instrumento importante na instrução de muitos filhos de trabalhadores macaenses chineses. A sua destacada posição social permitiria ainda a sua eleição para presidente da Associação Comercial Chinesa e a sua nomeação para provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau. Ao mesmo tempo, a sua influência política abriu-lhe as portas para chegar tanto a vogal do Leal Senado e do Conselho do Governo como a presidente de muitas associação caritativas e desportivas, como foram os casos da Associação Católica Kung Kao (Gongjiao 公教) ou do grupo desportivo Cheng Mou (Jingwu 精武). Nos anos finais da sua vida, prestigiado, rico e socialmente considerado, Joel José Chok Anoi acumulava aos diferentes cargos anteriores uma quase infindável lista de outras posições de relevo: presidente da comissão directiva do colégio de Santa Rosa Lima e das escolas Song Sat e Mong Tak; conselheiro da Acção Católica; presidente da comissão de festas da canonização de S. João Bosco; presidente da Associação de Socorros Mútuos e de muitas outras obras católicas entre procissões, festas e comissões caritativas. Casado três vezes, a primeira em Portugal, e a última em Macau, seguindo os ritos chineses, Joel Anok haveria de ser galardoado, em 1933, com a Comenda da Ordem de Cristo, começando a sua figura e acção a serem identificadas como “comendador Anok”. Bibliografia: REGO, José de Carvalho e, Figuras d’Outros Tempos – Comendador Joel José Choi Anok, in Gazeta Macaense, (Macau, 31/10/1981); SMITH, Carl T., A Sense of History. Studies in the Social and Urban History of Hong Kong, (Hong Kong, 1995).
ANOK, COMENDADOR JOEL JOSÉ CHOI (1867-1945)
CAMPBELL, JAMES DUNCAN (1833-1907). Com o nome chinês Jin Denggan 金登干, nasceu em Edimburgo, em 1833. Estudou no “Cheltenham College” e nas universidades de Paris e de Heidelberg. Em 1862, veio para a China e entrou nas Alfândegas Marítimas Imperiais da China, onde foi secretário-geral do Inspector-Geral, Horatio Nelson Lay. Quando Sir Robert Hart sucedeu a Horatio Nelson Lay no cargo de Inspector-Geral das Alfândegas Marítimas Imperiais da China, foi reconduzido e tornou-se no favorito do novo Inspector-Geral. Em 1868, foi mandado em missão oficial à Europa, em representação do Governo chinês, por recomendação de Sir Robert Hart. Quando este decidiu criar a Representação das Alfândegas Marítimas Imperiais da China, em Londres, em 1874, foi escolhido para chefiar esta missão, cargo que exerceu até 1907, ano do seu falecimento. Durante o seu mandato, o qual durou 33 anos, ajudou o Governo chinês a adquirir equipamentos mecânicos e armamentos, a contrair empréstimos e a contratar funcionários estrangeiros, entre outras coisas. Sob a orientação directa de Sir Robert Hart, teve intervenções várias nas relações da China com o resto do Mundo, das quais destacamos o seu papel nas negociações do Protocolo de Lisboa, de 1886, que conduziu à conclusão do Tratado Luso-Chinês de Amizade e Comércio de 1887. Casou com Ellen Mary Lewis, em 1870. Morreu a 3 Dezembro 1907. A sua vida está biografada em James Duncan Campbell: A Memoir by his son, da autoria do seu filho, Robert Ronald Campbell. Bibliografia: Aomen Zhuandang (Arquivo Especial de Macau), Vol. 1, (Taipei, 1995); Bredon, Juliet, Sir Robert Hart, the Romance of a Great Career, 2nd ed., (London, 1910); Bruner, Katherine F.; Fairbank, John K.; Smith, Richard J. (eds.), Entering China’s Service: Robert Hart’s Journals, 1854-1863, (Cambridge, 1986); Campbell, Robert Ronald, James Duncan Campbell – A Memoir by His Son, (Cambridge, 1970); Chen Xiafei; Han Rongfeng (eds.), Archives of China’s Imperial Maritime Customs. Confidential Correspondence between Robert Hare and James Duncan Campbell 1874-1907, 4 vols., (Pequim, 1990); Chen Xiafei, Zhongguo Haiguan Midang He De Jin Denggan Han Huibian (Arquivos da Alfândega Marítima Imperial da China Correspondência Confidencial entre Sir Robert Hart e James Duncan Campbell), 9 vols., (Pequim, 1990-1996); Fairbank, John K.; Bruner, Katherine F.; Matheson, Elizabeth M. (eds.), The I. G. in Peking: Letters of Robert Hart, Chinese Maritime Customs, 1868-1907, (Cambridge, 1975); Pan Ansheng, He De Shiliao (Documentos Históricos sobre Sir Robert Hart), (Taipei, 1969); Saldanha, António Vasconcelos de (cood.), “Documentos Relativos às Negociações do Protocolo de Lisboa e do Tratado Luso-Chinês de Amizade e Comércio de 1887 (Primeira Parte) (1886-1888)”, in Colecção de Fontes Documentais para a Historia das Relações entre Portugal e a China, vols. 5 e 6, (Macau, 2000).
CAMPBELL, JAMES DUNCAN (1833-1907)
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?). Soldado, capitão e comerciante português que viveu no século XVII. Pouco se sabe dele. No entanto, deixou um manuscrito sobre o relato das suas viagens pelo Oriente, encontrando-se uma das cópias na Biblioteca da Ajuda, com o título Advertência de muita Importância há Magestosa Coroa del Rey N. Sor D. João V e Apresentadas ao Conselho de Estado da Índia na Mão do V Rey D. Filipe por Jorge Pereira(?) de Azevedo, Morador na China em 1646 (cód. 54-XI-21-9). No referido documento fornece uma visão geral do império português do Oriente, por onde passou, realizando em simultâneo uma análise crítica sobre a decadência do mesmo, sugerindo diversas maneiras de ultrapassar a crise utilizando os recursos existentes. Refere que o Estado da Índia se encontrava completamente miserável e era pouco evangelizado, indicando que a Coroa portuguesa corria sérios riscos de o perder. Na sua opinião, havia uma má gestão do mesmo. Começa o texto destacando que teve uma experiência de vinte e quatro anos na Índia, servindo como militar, mas ao mesmo tempo como comerciante, referindo ser prática na época. Fundamenta as advertências que faz ao rei D. João V através da experiência adquirida nas zonas em análise, como militar, mas essencialmente como comerciante. O relato das suas viagens começa em Moçambique, onde afirma ter conhecido a zona dos rios Cuama, e as cidades de Mombaça e Melinde. Ao longo do texto vai indicando nomes de capitães, como o de Nuno Álvares Botelho, capitão do navio onde viajou, atravessando o estreito de Mascate e aportando a Diu. Percorreu também a área de Samatra, dizendo que foi através dos holandeses que visitou Jacarta. No entanto, diz concretamente que até à data da redacção do documento não tinha estado no Bornéu, Macassar, Solor e Timor. Indica que a época mais próspera para a gente lusa no Oriente foi quando se deslocavam por ano nove naus com cerca de quinhentos a mil homens. Relativamente a Macau, a que dedicou uma parte do manuscrito, visitou-a por volta de 1643, referindo haver um número muito elevado de mulheres cristianizadas. Considera que a viagem do trato ao Japão já não era suficiente, devido ao crescimento excessivo da cidade. No texto vai tomando em consideração várias hipóteses de como Macau se recuperar devido à perda do comércio com o Japão e a tomada de Malaca pelos holandeses, sugestões baseadas em rotas comerciais alternativas dentro da zona. Todo o texto está escrito de forma fluente e, aparentemente, com conhecimento directo dos lugares indicados. Bibliografia: MATOS, Artur Teodoro de (ed.), “‘Advertências’ e ‘Queixumes’ de Jorge Pinto de Azevedo a D. João IV, em 1646”, in Povos e Culturas, n.° 5, (Lisboa, 1996), pp.431-545.
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?)
CARVALHO, CAPITÃO LOPO SARMENTO DE (?-?). Natural de Bragança, era filho de Lopo Roiz de Carvalho e, aparentemente, fidalgo da família Sarmento de Trás-os-Montes. Segundo Charles R. Boxer, possivelmente, era parente de Lopo Sarmento, o alcaide do castelo de Bragança que se opôs à entrega do castelo aos castelhanos em 1580. Deve ter ido para o Oriente no ano de 1607, onde serviu como soldado e capitão. Em 29 de Abril de 1614, o vice-rei da Índia enviou Lopo Sarmento como capitão-mor de uma armada de socorro à fortaleza de Malaca, donde havia a notícia que poderia ser atacada por holandeses e gente do Achém. Quando chegou a Macau já tinha a nomeação para capitão-mor da viagem ao Japão. Em 1616-1617 foi capitão-geral de Macau, lugar que deteve até ao ano de 1623, em virtude do capitão do navio do trato, ter por inerência do cargo, a tutela da praça, enquanto ali permanecesse por causa do regime de monções que condicionava a viagem ao arquipélago nipónico. Em 1617-1618 estava no Japão e conduziu uma missão diplomática à corte do novo xógum Tokugawa Hidetada, a qual não teve o fim desejado. Lopo Sarmento casou com D. Maria Cerqueira, natural de Macau e de ascendência humilde, e teve filhos, em Macau, nomeadamente Inácio, Joseph, Domingos e Teresa. Maria de Cerqueira era filha e neta de portugueses, por lado paterno, e filha de mulheres locais, por lado materno. Uma das suas irmãs também casou com um membro distinto da elite macaense, António Fialho Ferreira, nascido em Sesimbra. A capitania da viagem ao Japão, em 1617, deve ter rendido bom proveito, pois, três anos mais tarde, adquiriu três viagens ao Japão que corriam por conta do Mosteiro da Encarnação de Madrid. Em carta datada de 5 de Fevereiro de 1620, sobre a venda destas viagens, o vice-rei escreveu que Lopo Sarmento tinha pago pelas viagens 68 mil xerafins e lhe tinha pedido um fundidor para fazer artilharia em Macau. Aparentemente, tal solicitação deu origem à ida de Manuel Tavares Bocarro para Macau, onde fundou uma fundição de artilharia que funcionou durante vários anos e se notabilizou pela sua qualidade em todo o Sudeste Asiático. Como capitão da cidade de Macau, entre 1621 e 1623, Lopo Sarmento tomou parte na célebre defesa da cidade quando os holandeses a tentaram invadir em 1622. Como recompensa, o rei Filipe II deu-lhe o hábito de Cristo. No entanto, das três viagens adquiridas apenas realizou uma, pois as outras foram suspensas em virtude de terem de ser realizadas para proveito das fortificações de Macau. Lopo Sarmento foi a Goa no final de 1622 e voltou a Macau no ano seguinte, sem conseguir realizar o propósito de reaver as ditas viagens. Regressou acompanhado por D. Francisco de Mascarenhas, o primeiro capitão-geral nomeado por Goa para Macau. A viagem foi atribulada, em virtude do barco de Lopo Sarmento ter sido atacado por holandeses. Apesar de espírito de luta pela defesa, os tripulantes foram obrigados à rendição e o fidalgo foi feito prisioneiro em Batávia. Em 1629, encontrava-se em Goa. Nesse ano comprou mais três viagens ao Japão e três a Manila, tendo pago 306.000 xerafins na totalidade. De acordo com o contrato feito com a Fazenda real em Goa, Lopo Sarmento ficou obrigado a pagar 30.000 xerafins ao indivíduo provido com a viagem do Japão pelo vice-rei e a trazer 1.200 picos de cobre, dando-os à fazenda de Macau ao preço de 20 xerafins por pico de peso de Macau, e 48.000 xerafins pagos em Macau no fim da cada viagem, ao administrador da Fazenda. Foram seus fiadores, o cunhado Fialho Ferreira e Gaspar Homem, em Macau, e Manuel de Morais Supico, em Goa. No entanto, não foi capaz de cumprir as condições do contrato devido a vários azares. Um deles foi a perda do navio São Francisco Xavier, enquanto que o Nossa Senhora do Rosário só chegou a Macau, vindo do Japão, em 1632. O seu procurador em Goa, João de Mesquita, tentou que fosse discutido o contrato, e depois de várias reuniões o vice-rei decidiu que Lopo Sarmento pagasse a Macau a quantia de 20.750 xerafins. No entanto, o fidalgo tinha feito as três viagens ao Japão, indo ele pessoalmente a Nagasáqui pelas três vezes, enquanto o seu cunhado levou a cabo as viagens a Manila. A 26 de Outubro de 1639 morreu D. Maria Cerqueira, tendo sido enterrada na capela Jesus na Igreja de Madre de Deus. Em 1642, Lopo de Sarmento e António Fialho Ferreira, que tinha voltado de Portugal, aclamaram a eleição de D. João IV. Antes deste acontecimento, Lopo Sarmento tinha pedido ao rei de Portugal que o autorizasse a regressar a Lisboa, após trinta e seis anos de serviço à coroa portuguesa no Oriente. A solicitação foi autorizada em 1644 e era extensiva à sua família, podendo fazer a viagem em navio próprio ou por si fretado. Segundo Charles R. Boxer, a concessão foi obtida pela influência do seu cunhado Fialho Ferreira, que se preparava para ir ao Japão, integrado na embaixada de Gonçalo de Siqueira. Não se sabe ao certo a data do seu falecimento, mas ocorreu provavelmente em 1645, pois em 1646 o seu filho Inácio Sarmento já era designado por herdeiro do seu pai. Bibliografia: BOXER, Charles R., Breve Relação da Vida e Feitos de Lopo e Inácio Sarmento de Carvalho, Grandes Capitães que no Século XVII Honraram Portugal no Oriente (Macau, 1940); TEIXEIRA, Padre Manuel, Vultos Marcantes em Macau, (Macau, 1982).
CARVALHO, CAPITÃO LOPO SARMENTO DE (?-?)
No dia 22 de Setembro de 1714, o Ouvidor Manuel Vicente Rosa manda encarcerar António de Albuquerque Coelho na Fortaleza da Guia; este, dois anos antes, mandara prender o mesmo Vicente Rosa. A 22 de Setembro de 714, Coelho escreve ao Ouvidor Rosa, protestando contra a sua prisão, alegando que fizera isso por paixão “como inimigo declarado seu, já de cinco anos a esta parte”. Tendo sido solto, Albuquerque parte para Goa, para se justificar junto da Relação, em fins deste ano. Antes de partir mandou fazer um sino, que ainda existe na ilha de Adonara (em frente de Solor) na Igreja de Vure, com esta inscrição: “António de Albuquerque Coelho Fidalgo da Casa de Sua Magestade mandou fazer este sino em 1 de Dezembro de 1714”.
Ouvidor manda encarcerar António de Albuquerque Coelho
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819). Nascido em Macau e baptizado na Sé, em 1746, Manuel Joaquim Barradas de Azevedo era neto de um “reinol” que, de seu nome Gaspar Barradas de Azevedo, conseguiu prosperar no início do século XVIII investindo nos tratos mercantis da cidade e, como sempre acontecia, chegando à vereação camarária e à mesa da Santa Casa da Misericórdia. A fortuna deste primeiro Barradas de Azevedo passaria para o seu filho varão Sebastião, mas seria consolidada e ampliada pelo seu activo neto Manuel Joaquim. À imagem do avô, cerzindo estreitamente poder económico e representação política, encontrámos Manuel de Azevedo a ocupar sucessivamente os cargos de almotacé camarário, em 1778, depois de alferes-mor, em 1792, chegando no ano seguinte à prestigiada posição de juiz ordinário do, nesta altura, ainda poderoso, Leal Senado. Em 1777, um estratégico casamento com Francisca Antónia Correia de Liger permite concretizar uma aliança fundamental com uma das mais poderosas dinastias políticas e comerciais da parte cristã do enclave. Ao lado do todo poderoso António Correia de Liger, muitas vezes vereador, procurador do Senado e provedor da Santa Casa, e do seu filho Filipe Correia de Liger, Manuel Barradas de Azevedo investe regularmente vários milhares de taéis de prata, sobretudo a partir de 1779, nos barcos e principais destinos comerciais animados por Macau: da Cochinchina a Surate, de Timor a Batávia. Acabaria por falecer na Sé, em 1819, mas deixando descendência que continuou a sua lucrativa actividade mercantil, mas já conveniente e estrategicamente baptizada com o poderoso apelido de Correia de Liger. Bibliografia: SOUSA, Ivo Carneiro de, A Outra Metade do Céu de Macau. Escravatura e Orfandade Femininas, Mercado Matrimonial e Elites Mercantis (Séculos XVI-XVIII), (Macau, 2006).
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819)
ANSON, BARÃO GEORGE (1697-1752). Almirante cuja rota da circum-navegação (1740- 1744) passa por Macau. Entre outras façanhas, Anson derrota a frota francesa no Cabo Finisterra em 1747, e, enquanto First Lord of the Admiralty (1751-1756, 1757-1762), leva a cabo importantes reformas navais, contribuindo para o sucesso de Inglaterra na Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Após cerca de dois anos de viagem, em 12 de Novembro de 1742, encontrando-se apenas quatro embarcações da EIC no Sul da China, chega à rada de Macau, com o intuito de se reabastecer, o primeiro barco de guerra da Marinha Real inglesa, o H. M. Centurion, sob o comando de George Anson, que partira de Southampton em 18 de Setembro de 1740 para desequilibrar os interesses espanhóis, sobretudo no continente americano. Um dos membros da tripulação descreve a chegada à Taipa e o poder (cada vez mais nominal) dos portugueses em Macau. O enclave funciona como porto familiar e seguro durante longas viagens de embarcações europeias. Na China Meridional inúmeros barcos europeus necessitam de se reabastecer e de ser reparados, como é o caso do Centurion. O capitão inglês do Augusta, barco da EIC, informa Anson dos procedimentos habituais dos estrangeiros à chegada a Macau, nomeadamente o pedido de autorização às autoridades chinesas para entrar no rio de Cantão e as taxas alfandegárias que o Centurion teria que pagar, aconselhando o Comodoro a informar-se melhor junto do governador e do Senado de Macau, que, temendo represálias chinesas como as que a cidade sofrera ao receber o London e outras embarcações inglesas, aconselha Anson a atracar discretamente na Taipa e a não entrar no rio das Pérolas, pois caso o fizesse teria de pagar as taxas alfandegárias ao mandarinato cantonense. Os portugueses servem, mais uma vez, de fonte de informação sobre a China para visitantes estrangeiros, deslocando-se Anson, no segundo dia da sua estada, a terra para inquirir o governador sobre as possibilidades de adquirir mantimentos e reparar o barco. Este último responde que se vê forçado a pedir autorização às autoridades mandarínicas e, perante tal postura, o Comodoro, apercebendo-se de que apenas o vice-rei de Cantão poderia autorizar o reabastecimento e a reparação do Centurion, aluga um pequeno junco e dirige-se para Cantão, onde, após aconselhar-se junto dos sobrecar¬gas da EIC aí instalados, tenta, através do Co-Hong (Gonghang 公行), em vão, falar com o mandarim, regressando à Taipa cerca de um mês depois, em 16 de Dezembro. Já em Macau o Comodoro entrega ao Hopu (Hubu 户部) uma carta traduzida para chinês dirigida ao vice-rei de Cantão, ameaçando o oficial da alfândega de Macau que subiria a Cantão no seu barco caso a missiva não fosse entregue ao seu destinatário. Dois dias depois, uma frota de dezoito juncos desce ao Canal da Taipa transportando enviados do vice-rei de Cantão que se encontram com Anson, que, por sua vez, ameaça quer as autoridades chinesas, quer indirectamente a Cidade do Santo Nome de Deus com a força do seu barco de guerra caso essa mesma embarcação não seja reabastecida e reparada. A permissão do vice-rei chega em 6 de Janeiro de 1743, e, em 19 de Abril, encontrando-se o barco pronto para viajar, Anson deixa a rada de Macau, afirmando estrategicamente que se dirige para Batávia para regressar três meses mais tarde, em 11 de Julho, com o galeão espanhol Nuestra Señora de Cobadonga, que tomara nas Filipinas, em 30 de Junho, enquanto este fazia a viagem Acapulco-Manila carregado de mercadoria. O comodoro, lutando novamente contra as exigências dos chineses, dirige-se, três dias depois, à Boca do Tigre, onde pede mantimentos e permanece algum tempo à espera dos mesmos, visitando Whampoa (Huangpu 黃埔) e Cantão até regressar a Macau e partir, posteriormente, após mais uma estada de seis meses nos mares da China, para Inglaterra, onde chega em Junho de 1744. O relato da viagem do Comodoro Anson, atribuído a Richard Walter, capelão do H. M. Centurion, mas redigido, segundo alguns estudiosos, por Benjamin Robins, e publicado em 1748, espelha a atitude inglesa em relação à China, um país considerado intolerante, enquanto a administração mandarínica reforça a vigilância de Macau para evitar a entrada de mais barcos ‘bárbaros’ no Império do Meio através de Macau. O texto atribuído a Richard Walter descreve a estada da tripulação em Macau, e, tal como os autores dos relatos da embaixada de Lord Macartney farão mais tarde, refere a riqueza de que a cidade gozara no início da ocupação portuguesa e a decadência em que então se encontra, permanecendo os portugueses no enclave com autorização dos chineses, que podem, quando o entendem, bloquear a entrada de comida obrigando assim o governador a obedecer-lhes. A obra é traduzida para francês em 1751, ilustrada com uma gravura da cidade vista do mar, onde o Centurion se encontra representado, com base na gravura de Nieuhoff (1665). No que diz respeito às consequências da viagem do Centurion pelo globo e pelos mares da China Meridional, e de entre os muitos exemplos de obras que reflectem e aplaudem o resultado da expedição, John Campbell publica Navigantium atque Itinerantium Bibliotecha: or, A Compleat Collection of Voyages and Travels (1744-1748), na qual glorifica as façanhas marítimas inglesas e descreve o interesse crescente das nações europeias no comércio, sobretudo com a China, servindo-se ainda das muitas inconveniências enfrentadas pelo comodoro Anson em Macau, das dificuldades da circum-navegação e das relações com as autoridades chinesas para provar a capacidade dos ingleses, que futuramente deverão seguir o exemplo do comodoro pelos mares, honrando a Inglaterra. Bibliografia: WALTER, Richard, A Voyage Round the World in the Years MDCCXL, I, II, III, IV, by George Anson, (Londres, 1748); WALTER, Richard, Anson’s Voyage Round the World, introdução e notas de G. S. Laird Clowes, (Londres, 1928); MORSE, Hosea Ballou, The Gilds of China, (Nova Iorque, 1909); MORSE, Hosea Ballou, The International Relations of the Chinese Empire, vol. 1: The Period of the Conflict 1834- 1869, (Londres, 1910); MORSE, Hosea Ballou, The Chronicles of the East India Company Trading to China 1635-1834, vol. 1, (Oxford, 1926); SOMMERVILLE, Boyle, Commodore Anson’s Voyage into the South Seas and Around the World, (Londres, 1934); WILLIAMS, Glyndwr (ed.), Documents Relating to Anson’s Voyage Round the World 1740-1744, (Londres, 1967); WILLIAMS, Glyndwr (ed.), “Anson at Canton, 1743: ‘A Little Secret History’”, in CLOUGH, Cecil P.; HAIR, P. E. H. (eds.), The European Outhrust and Encounter: The Firts Phase (c. 1400-c. 1700), (Liverpool, 1994), pp. 271-290; WILLIAMS, Glyndwr, The Prize of all Oceans: The Triumph and Tragedy of Anson’s Voyage Round the World, Harper Collins, (Londres, 1999); SUMAREZ, Philip, Log of the Centurion Based on the Original Papers of Captain Philip Saumarez on Board HMS Centurion, Lord Anson’s Flagship During his Circumnavigation 1740-44, (Londres, 1973); EAMES, James Bromley, The English in China, (Londres, 1974); LOYD, Christopher, “Introduction”, in SUMAREZ, Philip, Log of the Centurion. Based on the Original Papers of Captain Philip Saumarez on Board HMS Centurion, Lord Anson’s Flagship during his Circumnavigation 1740-1744, (1973), pp. 10-13.
ANSON, BARÃO GEORGE (1697-1752)
| Fonte: | Arquivo de Macau, documento n.ºMNL.09.05.F |
| Entidade de coleção: | Arquivo de Macau |
| Fornecedor da digitalização: | Arquivo de Macau |
| Tipo: | Imagem |
| Fotografia | |
| Fotografia de grupo | |
| Preto e branco | |
| Formato das informações digitais: | TIF, 2000x1387, 2.65MB |
| Identificador: | p0004345 |
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