Informações relevantes
Data de atualização: 2020/04/17
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515
Data de atualização: 2020/04/17
Autor de obras como As Mãos e os Frutos (1948), entre muitas outras, que visita Cantão e Macau, em Outubro de 1990, estada da qual é fruto o grupo de poemas intitulado Pequeno Caderno do Oriente, ilustrado por Carlos Marreiros e publicado no Jornal de Letras e na Revista de Cultura. O Caderno é composto por doze textos, nomeadamente poesias, apontamentos e prosas poéticas, alguns dos quais traduzidos para inglês e complementados pelas ilustrações de Carlos Marreiros, elaboradas em Novembro de 1993. O primeiro texto desenvolve-se em torno da figura do “mestre” Camilo Pessanha, o segundo, “Ofício da Paciência”, descreve a azáfama diária da vida na “Baía das Pérolas”, cuja ponte, rumo à Taipa, é comparada a uma garça, sendo a caracterização da cidade conse¬guida através da enumeração. O poema “Jardim de Lou Lim Leoc” (Lulianruo Gongyuan 盧廉若公園) funciona como repositório de memórias orientais, seguindo-se um texto narrativo e um poema sobre “As Pedras”, nomeadamente “A Pedra Profunda”, enquanto “As Montanhas Verdes” começa como um conto e termina como uma elaborada recordação de um amigo que desvendara a poesia da China ao sujeito lírico, que se encontra no Hotel Mandarim Oriental, observando as verdes montanhas do Império do Meio, a Baía da Praia Grande e o álbum de reproduções de pinturas de George Chinnery. Seguem-se o “Templo da Barra”; o “Canto Solar”, a “Balança” e um texto “Em Defesa de Camões”, que descreve o ambiente que envolve a mítica Gruta de Camões, pedindo ao Leal Senado que mande retirar as vergonhosas e medíocres composições poéticas que rodeiam o monumento. As impressões visuais continuam, agora em movimento, “[…] ardendo entre águas e a bruma”, descrevendo a “Aproximação de Coloane”. O último texto do Pequeno Caderno, intitulado “O Nome da Água”, descreve a visita ao cemitério onde se encontram as sepulturas de Camilo Pessanha e da sua família chinesa, poeta que “escrevera o seu nome na água”, conferindo assim uma ciclicidade temática à obra através de um dos mais conhecidos poetas portugueses que viveu em Macau. Bibliografia: ANDRADE, Eugénio de, “Pequeno Caderno do Oriente”, desenhos de Carlos Marreiros, in Revista de Cultura, n.° 18, 2.ª série, edição inglesa, Janeiro-Março de 1994, (Macau, 2002); ANDRADE, Eugénio de, Com Palavras te Amo, (Macau, 1990); NAVA, Luís Miguel, Eugénio de Andrade, 1957-1995, in col. “Essencial”, n.° 26, (Lisboa, 1987); ARRIMAR, Jorge de Abreu (coord.), Eugénio de Andrade: Exposição Bibliográfica, (Macau, 1990); ANÓNIMO, Eugénio de Andrade: Retratos, (Macau, 1990); ANÓNIMO, “Eugénio in Macau-Loving with Words”, in Review of Culture, edição inglesa, n.°s. 11/12, (Macau, Setembro de 1990-Fevereiro de 1991), pp. 111-119; ANÓNIMO, “The Alliances of Desire”, in Review of Culture, edição inglesa, 2.ª série, n.° 18, (Macau, Janeiro-Março de 1994), pp. 137-138; SANTOS, José da Cruz (coord.), Eugénio de Andrade: O Amigo Mais Íntimo do Sol: Fotobiografia, apresentação de Luís Miguel Nava e Ângelo Crespo, (Porto, 1998).
ANDRADE, EUGÉNIO DE (1923-2000)
José Inácio de Andrade nasceu no dia 2 de Novembro de 1780 em Santa Maria, Açores. Faleceu em Lisboa no primeiro dia do ano de 1863. Em Lisboa dedicou-se à vida política activa, tendo sido eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1837. No biénio 1838-1839, Inácio de Andrade ocupou a Presidência da Câmara da capital portuguesa. Posteriormente veio a assumir o cargo de Director do Banco de Portugal. José Inácio de Andrade foi um homem do seu tempo, marcado cultural e ideologicamente por uma visão do mundo humanista e individualista, caracterizadora do pensamento liberal. Erudito e dedicado às letras, Inácio de Andrade escreveu em 1835 dois textos que foram publicados em Lisboa: Memória sobre a Destruição dos Piratas da China e o Desembarque dos Ingleses na Cidade de Macau e sua Retirada e Biografia de Rodrigo Ferreira da Costa. A sua ligação ao Oriente teve início nos primeiros anos de Oitocentos com um conjunto de viagens a Macau e à Índia como capitão de navios. Casou duas vezes e foi à sua primeira esposa, Maria Gertrudes de Andrade, que dirigiu as cartas que escreveu e que reuniu na obra Cartas Escriptas da India e da China, as quais constituem um conjunto de cem breves reflexões, publicadas pela primeira vez em dois volumes pela Imprensa Nacional, em 1843. Ao longo desta obra, o autor revela um conhecimento alargado sobre a China, adquirido através das suas viagens que o mantêm ligado ao Oriente durante vinte anos. Cem cartas recheadas de descrições e reflexões sobre o que ia observando e estudando, e que Inácio de Andrade dividiu em dois volumes. As cinquenta cartas que compõem o primeiro volume centram-se no início da sua viagem até à Índia, nalguns aspectos da civilização indiana, na viagem até Macau e à China e, finalmente, na milenar história chinesa. No segundo volume, composto pelas restantes cinquenta cartas, o autor lança um olhar sobre os diferentes aspectos que caracterizam a civilização chinesa, aproveitando para reflectir sobre outros temas. Estas reflexões ajudam-nos a compreender a sua linha de pensamento, com particular realce para as suas constantes comparações entre o Ocidente e as características do Império do Meio. As viagens realizadas por José Inácio de Andrade exerceram sobre o autor um natural fascínio, levando-o a enaltecer os aspectos mais positivos que foi encontrando no seu contacto com os povos e os lugares que visitou. Mantendo o quadro de valores civilizacionais e de referência do Ocidente visíveis na forma como aborda alguns temas, nas reflexões que elabora e nos autores que utiliza para criticar ou para servirem de suporte às suas análises (Adam Smith, Helvecio, Montesquieu, Voltaire, Abade Reynal, Hobbes, Fernão Mendes Pinto, Gaspar da Cruz, Jerónimo Osório, Tomé Pires, entre outros), Inácio de Andrade faz um esforço no sentido de valorizar o ‘outro’ face a si próprio. Não podendo deixar de sublinhar a erudição e a riqueza multidisciplinar que as Cartas Escriptas da India e da China ainda hoje nos revelam, importa destacar o modo como este autor coloca o seu racionalismo e os seus sentimentos ao serviço da civilização visitada, acabando por se render ao exotismo esmagador de um Oriente que, naquele tempo, ainda estava em grande parte por descobrir. Não obstante os limites que a obra revela, relativamente ao grau de profundidade e de precisão dos conhecimentos que nos transmite sobre as civilizações orientais, as Cartas constituem um objecto de estudo em si mesmas, pela riqueza do texto, pelos sentimentos que nos transmitem e pelas ideias que veiculam: o respeito e a admiração por outras civilizações, pelo diferente, base fundamental em que se alicerçou a secular presença portuguesa no Extremo Oriente. Bibliografia: DIAS, Alfredo Gomes, “As Cartas de José Ignacio de Andrade”, in Macau, n.° 1, (Macau, 2000), pp.78-88; ANDRADE, José Ignacio de, Cartas Escriptas da India e da China, (Macau, 1998).
ANDRADE, JOSÉ INÁCIO DE (1780-1863)
AUDEN, W. H. (1907-1973). Durante a sua viagem pela China (1937-1938) aquando da guerra sinojaponesa o poeta inglês W. H. Auden (Wystan Hugh Auden) recolhe, na companhia de Christopher Isherwood, impressões para redigir Journey to a War (1939), acabando por visitar Hong Kong, em Fevereiro de 1938, bem como Macau, entrepostos comerciais que descreve comparativamente em dois sonetos em verso branco redigidos em Bruxelas durante o mês de Dezembro de 1938. O poema “Macao” apresenta uma imagem dupla do território, sendo o exotismo e o prazer sem peso do pecado uma das suas principais características, esterótipos facilmente associados ao Oriente pelo turista ou viajante ocidental. Enquanto a comercial Hong Kong não agrada nem a Auden nem ao sujeito poético, Macau, “a weed from Catholic Europe”, ganhou raízes entre as montanhas e o mar. O texto lírico, predominantemente descritivo, apresenta um policromático ‘retrato’ do enclave através das suas casas alegres, um “exótico fruto” que simboliza a singularidade das vivências portuguesa e chinesa da cidade. O olhar protestante do “eu lírico” demora-se nas imagens e estátuas de santos de estilo rococó que prometem salvação aos jogadores, enquanto igrejas se acomodam, lado a lado, com casas de prazer, materialização espacial do “comportamento natural” do ser humano que a fé pode perdoar, imagem esta continuada nos tercetos. Erotismo rima, portanto, com exotismo, através do campo semântico constituído pelos adjectivos utilizados, por entre vielas e edifícios da urbe, recordando os relógios e sinos das altaneiras torres católicas que o inferno poderá esperar os mais temerosos que se entregam aos mistérios do Oriente, rodeados por uma vivência também ocidental. Macau é, como revela o símile botânico utilizado no texto, caracterizado como um “enxerto cultural” ou erva daninha luso-sínica, advindo daí a sua singularidade e o facto de o território representar metaforicamente as fraquezas ‘da carne’ e as virtudes da natureza humana. A dimensão exotica assume no poema uma sugestiva proeminência que se repete no imaginário ‘inglês’ relativamente a Macau e que recompensa o viajante que se depara com a familiaridade da “infantil”, porque inocente, porta de entrada do Ocidente na China. Bibliografia: AUDEN, W. H., Collected Poems, introdução e notas de Edward Mendelson, (Londres, 1991 [1976]); BAKER, Donald C.; BAKER, Elizabeth D., “A Great English Poet on China, Hong Kong and Macao: W. H. Auden and a “Weed from Catholic Europe””, in Review of Culture, 2.ª série, n.º 25, edição inglesa, (Macau, 1995), pp. 241-248; CARPENTER, Humphrey, W. H. Auden: A Biography, (Londres, 1981); DAVENPORT-HINES, Richard, Auden, (Londres, 1995); PUGA, Rogério Miguel, ““Macao” e “Hong Kong” de W. H. Auden: Uma Abordagem Comparativista”, in Administração: Revista de Administração Pública de Macau, vol. 15, n.º 55:1, (Macau, 2002), pp. 325-338.
AUDEN, W. H. (1907-1973)
BRAGA, MARIA ONDINA SOARES FERNANDES (1932-2003). Maria Ondina Soares Fernandes Braga nasceu em Braga em 1932 e estudou na Alliance Française em Paris, licenciando-se em língua inglesa pela Royal Asiatic Society of Arts de Londres. Foi professsora de Inglês e de Português em Angola, Goa e Macau, residindo em Lisboa desde 1965. Macau e a China estão bem patentes na obra da escritora, que viveu em ambos os locais: entre 1961 e 1965 em Macau, onde foi professora no Colégio Santa Rosa de Lima, e em 1982, em Pequim, tendo leccionado na Secção de Português do Instituto de Línguas Estrangeiras. Em 1965 publicou o seu primeiro livro, Eu Vim para Ver a Terra, no qual reune crónicas de Angola, Goa e Macau. Três anos depois é a vez de dar à estampa alguns contos de inspiração chinesa, escritos em Macau, na obra A China Fica ao Lado, com diversas edições, e traduzida para chinês em 1991. Nesse mesmo ano publicou Nocturno em Macau, obra galardoada com o Prémio Eça de Queirós, da Câmara Municipal de Lisboa. A notória ligação de Ondina Braga à China passa ainda pelo facto de, mesmo a sua autobiografia romanceada, que mais tarde viria a constituir o livro Estátua de Sal, ter sido escrita em Macau (1963), sem, naturalmente, deixar de referir a sua Angústia em Pequim, publicada em 1984. Ciclo este da vida da escritora de alguma forma fechado com Passagem do Cabo (1994), em que, tal como no seu primeiro livro, reune crónicas de Angola, Goa e Macau, sendo, no entanto, patente uma postura de despedida dessas terras que viu. Em Março de 1990, Ondina Braga voltou a Macau, o que se repetiria no ano seguinte, por ocasião do lançamento da versão bilingue de A China Fica ao Lado. As impressões que então colheu da terra que lhe fora tão familiar estão registadas em diversos artigos, crónicas e entrevistas publicados na imprensa local e nacional, de que também foi colaboradora assídua. No Território, Ondina Braga tem publicação dispersa, ao nível literário e ensaístico, nomeadamente na Revista de Cultura e na Macau. Sendo uma das contistas portuguesas mais prestigiadas e galardoadas da actualidade, Maria Ondina Braga, desenvolveu, com igual êxito, a novela, a crónica, a narrativa, a biografia, o ensaio e a tradução. A sua colectânea de contos, A Filha do Juramento, composta por três livros, sendo o segundo deles dedicado à China, publicada em 1995 na cidade de Braga, assinalou a passagem do 30.° aniversário da carreira literária da autora que, entretanto, retomou a vertente autobiográfica e memorialista ficcionada em Vidas Vencidas. – Principais Obras. Romances: Nocturno em Macau, 1991 (2.ª ed., 1993); A Personagem, 1978. Contos: A China Fica ao Lado, 1968 (4.ª ed., 1991); Amor e Morte, 1970; A Revolta das Palavras, 1975; A Filha do Juramento, 1995. Crónicas: Eu Vim para Ver a Terra, 1965; Passagem do Cabo, 1995. Novelas: Os Rostos de Jano, 1973; A Casa Suspensa, 1982; Lua de Sangue, 1986. Narrativa: Angústia em Pequim, 1984 (2.ª ed., 1988). Autobiografias e memórias romanceadas: Estátua de Sal, 1969 (3.ª ed., 1983); Vidas Vencidas, 1999. Publicação de conjunto: A Rosa-de-Jericó (contos escolhidos), 1992. Bibliografia: SENA, Tereza; BASTO, Jorge, Macau nas Palavras, (Macau, 1998).
BRAGA, MARIA ONDINA SOARES FERNANDES (1932-2003)
BEAUVOIR, CONDE LUDOVIC DE (1846-1929). Visita Macau como acompanhante do duque de Penthiève, primo do rei de Portugal por via materna, em 1867, regressando a França nesse mesmo ano, de onde partira, em 1866, para dar a volta ao mundo. Em 1869, o conde de Beauvoir publica Australie et Java, Siam, Canton, em dois volumes, e três anos mais tarde, Pékin, Yeddo, San Francisco, a terceira parte da sua viagem. O viajante chega ao “pavilhão europeu” a bordo do vapor norte-americano Fire- Dart, em 11 de Fevereiro de 1867, e deambula pelas principais atracções turísticas da cidade, incluindo os barracões onde permanecem os cules antes de serem enviados para o continente americano, prática longamente descrita e criticada. Pelas ruas de Macau, Beauvoir compara as casas de granito a prisões, observando macaenses e mestiços no exterior, onde, após o pôr-do-sol, nada há para ver senão os teatros chineses, descritos pelo autor, embora mais tarde, descreva também as casas de jogo da cidade, Mónaco da China e península em forma de uma pegada humana. São ainda referidos e descritos os fortes, as igrejas e os templos da cidade, bem como a Praia Grande, a Gruta do poeta exilado (Camões), no topo da qual se encontra um “observatório”; a paisagem humana adornada pelas mulheres cobertas de mantilhas e a população do território (125 mil chineses, dois mil portugueses). Breves apontamentos históricos referem a fundação portuguesa da cidade; a morte do governador Ferreira do Amaral; as ocupações militares inglesas da cidade (1802, 1808) e a fundação de Hong Kong, que “mata” o antigo entreposto português, antes da descrição da chegada do autor a Cantão, a bordo de uma canhoneira cedida pelo governador José da Ponte e Horta. Bibliografia: BEAUVOIR, Conde de, Voyage Autour du Monde, (Paris, 1869-1870); BEAUVOIR, Conde de, Java, Siam, Canton, (Paris, 1872); BEAUVOIR, Conde de, Pékin, Yeddo, San Francisco, 5.ª edição, (Paris, 1872); LOMBARD, Denis, “O Conde de Beauvoir e Macau (Fevereiro de 1867): Impressões de Macau do Conde de Beauvoir”, in Revista de Cultura, 2.ª série, n.° 23, (Macau, Abril-Junho de 1995), pp. 96-110.
BEAUVOIR, CONDE LUDOVIC DE (1846-1929)
Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu em Leiria, em 30 de Janeiro de 1925. Concluiu, em 1949, o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O facto de, em 1949, ter casado com José Marcos Batalha, natural de Macau, determinou que a sua actividade profissional se desenvolvesse em Macau, inicialmente, na Escola Primária Oficial. De 1958 a 1959, foi leitora Honorária de Português, no Department of Modern Languages, da Universidade de Hong Kong, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesas. A partir de 1962, trabalhou como professora no Liceu Nacional Infante D. Henrique, em Macau. Exerceu ainda a função de Directora da Escola do Magistério Primário. Para além da actividade docente, colaborou em diversos periódicos de Macau, jornais e revistas, sobre temas de literatura portuguesa, educação e ensino do Português. Toda a sua actividade, principalmente a actividade docente, aparece reflectida no seu livro de memórias Bom Dia S’tôra (1991), pelo qual lhe foi concedido o prémio IPOR (Instituto Português do Oriente). Foi sobretudo ao dialecto macaense que dedicou a maior parte da sua investigação, exposta em conferências, comunicações e em diversos artigos publicados: “Aspectos da sintaxe macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “Aspectos do vocabulário macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “A contribuição malaia para o dialecto macaense” (Boletim do Instituto Luís de Camões, 1965); “Língua de Macau: o que foi e o que é” (Revista de Cultura, 1994); “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Ásia Oriental (Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia)”, (Actas – Congresso sobre a Situação Actual da Língua Portuguesa no Mundo [Lisboa, 1985-1987]); “Estudo actual do dialecto macaense” (Revista Portuguesa de Filologia, 1958). No Glossário do Dialecto Macaense: notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) e no Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense: novas notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) reuniu a herança linguística dos portugueses de Macau. No Glossário, Batalha inclui os termos macaenses “de criação ou importação recente, as palavras antigas, mas ainda usuais, as que se ouvem apenas a determinada geração, a mais idosa, e finalmente as que nem mesmo os mais velhos já empregam, que por vezes inteiramente desconhecem, ou de que só se recordam, nem sempre com exactidão, por as terem ouvido aos seus avós”. Para a recolha de termos antigos, Batalha valeu-se dos textos em crioulo, nomeadamente de Marques Pereira, publicados na revista Ta Ssi-yan Kuo (Daxiyangguo 大西洋國) e de Danilo Barreiros, publicados na revista Renascimento, e ainda de conversas ocasionais com pessoas idosas, e através de inquéritos. O Glossário evidencia os termos usados no crioulo macaense, os termos arcaicos da língua portuguesa, a influência malaia, indiana, japonesa, a influência chinesa e inglesa mais recentes, e que estão presentes no falar macaense.
BATALHA, GRACIETE AGOSTINHO NOGUEIRA (1925-1992)
BESSA-LUÍS, AGUSTINA (1922-). Romancista portuguesa, autora de mais de sessenta obras, entre as quais Mundo Fechado (1948), A Sibila (1954), Fanny Owen (1979) e a trilogia O Princípio da Incerteza (2002). Agustina Bessa-Luís visita Macau no final dos anos (19)80 e publica posteriormente o texto “A Pedra Pintada”, na secção “Crónicas de Macau” da Revista de Cultura (1990) e o romance A Quinta Essência (1999). A História de Macau marca presença em ambos os textos narrativos, sendo fruto da vivência que a escritora experiencia no enclave. A reflexão ficcional de “A Pedra Pintada” apresenta a História da Cidade do Santo Nome de Deus, desde a rápida viagem dos lusos pelos mares até ao início da mercancia e evangelização no enclave, altura em que o príncipe Ko Tsing autoriza os portugueses a permanecer em território chinês como estratégia de combate aos piratas, tendo assim Macau surgido de um acordo de cavalheiros. A narradora, após uma elipse de vinte anos no túnel do tempo histórico do território, descreve a paisagem humanizada da povoação, cujo espaço exótico, no momento da escrita, é precioso e alugado à hora. O texto evoca imagens e topoi do passado da urbe, como os pescadores, os vendilhões, as concubinas e os mandarins, concluindo que a época da poesia desaparecera na Macau progressista, que, durante muito tempo, lutara contra a presença comercial de rivais europeus que não sabem perder tempo (em lazer) como os lusos e os chineses. O tempo na “terra poética” é uma preocupação central do texto, visitado do ponto de vista chinês e português e contraposto à vivência de Hong Kong, à distância de uma viagem de jet-foil e onde imperam o chá e o formalismo ingleses na época natalícia. As casas de Macau produzem dinheiro em larga escala, mas a cidade é também uma terra de poesia, evocada nos passeios de transeuntes com gaiolas de pássaros nas mãos e no sorriso da mulher oriental, “um reino à parte”. Nove anos mais tarde, Agustina Bessa-Luís publica o romance Quinta Essência, no qual o narrador reflecte sobre mundos já desaparecidos, remetendo para a imagética do clássico chinês O Sonho no Pavilhão Vermelho, da autoria de Cao Xueqin 曹雪芹, “um dos maiores escritores do mundo”. Este clássico chinês, entre outros, é também referido várias vezes no romance de Agustina, que vive do jogo anacrónico e metaficcional de analepses (históricas), em forma de comentários e paralelismos temáticos, prolepses e inúmeras personagens que o povoam e conquistam e se deixam seduzir através das histórias da história de Macau, daí o significado do conceito-expressão que dá título ao romance: “Chama-se a isto a Quinta-Essência [da natureza humana], a região do fogo e do amor”. Para além da história de José Carlos, protagonista viciado na imortalidade, o texto apresenta-nos também uma representação da presença portuguesa no enclave. Em entrevista que concede a Rogério Miguel Puga (Lisboa, 8 de Junho de 2003), a romancista confessa “dever” este livro a Macau desde que o Governo do Território a convidara a visitar o mesmo, não lhe tendo, na altura, “apetecido” escrever nada sobre a cidade, ao contrário do que sentiu durante o período da transição da soberania para a China (1999), quando começa a redigir a obra e vai “descobrindo muitas coisas lá escondidas, na história”. Ou seja, o processo de construção do romance acaba por ser também uma revisitação do enclave, uma (re)descoberta. A obra retira partido de objectos exóticos trazidos de Macau por (parentes) antepassados para Portugal, bem como do movimento dos jogadores a viajar no jet-foil de Hong Kong, estabelecendo-se assim paralelismos intertextuais entre os dois textos que a autora redigiu sobre a Cidade do Santo Nome de Deus. A linhagem de personagens como Siara Debra estende-se ao longo da História de Macau – plataforma comercial e de evangelização –, por entre acontecimentos ficcionados que sustentam o tecido ou a rede de significados e significantes do romance. O protagonista, José Carlos Pessanha, rumo à sua “aventura macaísta”, nos anos (19)80, chega a Macau, “uma espécie de Eldorado em que a terra fértil era a mesa do jogo. […] Dizia-se que a nau Flor do Mar […] que Afonso de Albuquerque capitaneou, afundada ao largo de Samatra, nunca foi retirada do seu sepulcro de lama porque não trazia senão pérolas e ouro”. Imagens, referências, personagens e motivos literários associados ao enclave acumulam-se ao longo dos sete capítulos, nomeadamente a Guerra do Ópio; Camões; Tomé Pires; João de Barros; Fernão Mendes Pinto; S. Francisco Xavier; Matteo Ricci; Manuel Bocarro; Lord Macartney; António Sérgio; piratas e santos; Lampacau; a fonte do Lilau; o Templo da Barra; os macaenses; as nhonhonas; o Hotel Bela- Vista; Hong Kong; as casas da Macau “vitoriana”; as poderosas tríades; o ma-jong ou mah-jongh (majiang 麻將); as Companhias das Índias europeias; a miscigenação; os relatos de Jesuítas no século XVI; as festividades chinesas; Camilo Pessanha; o ópio e a igreja de São Paulo, longamente descrita. O texto redesenha, através da cor local e da evocação histórica, os contornos da presença portuguesa na China desde 1557 até à Declaração Conjunta, bem como os costumes e as tradições dos chineses, adquirindo a obra um pendor também etnográfico. As fontes históricas portuguesas e chinesas (memoriais), os jornais ingleses (The Annual Register, 1772) e as narrativas literárias transcritas e referidas ao longo do romance, como os diários da estada de viajantes estrangeiros que “tudo observam pelo padrão exótico” – como os conde de Lapérouse (1787) e de Beauvoir (1867), as missivas de José Ignácio de Andrade, os relatos de William Dampier (século XVII) e Maurício Augusto Benyowsky (1772), os escritos de Blasco Ibañez e Madame Butterfly – funcionam como um tecido intertextual que transforma A Quinta Essência num palimpsesto histórico, que refere o tráfico de cules para a América e outros condicionalismos e episódios da presença dos “Feringis (portugueses)” no delta do rio das Pérolas. O narrador alude ainda a episódios da história e do folclore locais e à chamada teoria da ‘Fórmula de Macau’, do historiador K. C. Fok (Huo Qichang 霍啟昌), demonstrando conhecer a historiografia actual em torno de Macau, apresentando uma leitura alternativa, ou melhor, uma hipótese (pós-moderna) da história do enclave, caso o comércio da Nau do Trato não tivesse cessado em 1639, caso Ferreira do Amaral tivesse sido assassinado de outra forma, podendo William Shakespeare ter teatralizado a coragem do coronel Mesquita durante o episódio do forte de Passaleão caso tivesse desembarcado nessa altura no enclave. O ambiente ecológico dos jardins da cidade intensifica a construção do espaço da acção, tal como as referências ao Bazarinho, às “barcas de flores”, às procissões e a diversos topónimos simbólicos (Rua da Felicidade), concluindo o narrador, após um breve exercício metaficcional: “Aquilo que se chama ‘a singularidade de Macau’, a convivência não sei se só cerimónia de línguas e culturas, costumes e modos de pensar, serviu para marcar uma identidade. […] Em que não se sabe onde acaba o Ocidente e começa o Oriente, com os seus cheiros, comidas, amores[…]. Isso sim é a arte dos portugueses[…] num território próprio que funciona melhor do que os grandes monopólios e as grandes reservas de oiro ou de petróleo”. A representação do género, ou seja das condições feminina e masculina no território, acumula-se ao longo do romance, desde as referências à prostituição, à venda de filhas, aos pés enfaixados das mulheres chinesas e à vida dos tanká, bem como às especificidades da cultura macaense (o chá gordo), como se o espaço e o tempo evocados e descritos fossem os da velha Macau – “patamar da China” –, sendo o leitor transportado para a modernidade pelo movimento do jet-foil, a par das cadeirinhas e dos riquexós, que durante muito tempo foram um meio de transporte nobre na cidade e que remetem, quer o narrador quer o leitor, para a sensação do exotismo. O tempo da acção avança através de referências a acontecimentos como a inauguração do aeroporto e da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, também abordada no romance, enquanto o progresso transforma os cheiros da cidade e a “festa de despedida” se aproxima. Terminado em 25 de Junho de 1999 e publicado nesse mesmo ano, o da transição do poder administrativo de Macau para a China, A Quinta Essência apresenta-se como um romance que tira partido (simbólico) de toda a história e alma de Macau ao apresentar e (re) inventar, numa atitude pós-moderna, a história do enclave a partir de fontes chinesas, portuguesas e de relatos de inúmeros viajantes ocidentais que admiraram a Cidade do Santo Nome de Deus ao longo dos tempos. Uma síntese ficcional da essência da partilha sino-portuguesa no Sul do Império do Meio. Bibliografia: BESSA-LUÍS, Agustina, “The Decorated Stone [A Pedra Pintada]”, in Review of Culture, n.° 9, (Macau, 1990), pp. 86-87; BESSA-LUÍS, Agustina, A Quinta Essência, (Lisboa, 1999); BESSA-LUÍS, Agustina, em entrevista a Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, ano 138, n.° 48706, (31-07- 2002), pp. 42-43; BESSA-LUÍS, Agustina, O Livro de Agustina, (Lisboa, 2002); BESSA-LUÍS, Agustina, entrevista a Rogério Miguel Puga, notas manuscritas e inéditas, (Lisboa, 08-06- 2002); HELENO, José Manuel, Agustina Bessa-Luís: A Paixão da Incerteza, (Lisboa, 2002).
BESSA-LUÍS, AGUSTINA (1922-)
BENNET, GEORGE (1804-1893). Médico e naturalista nascido em Plymouth, Inglaterra. Membro do Royal College of Surgeons, Bennett visita a Austrália em 1829-1832 e regressa em 1836 para se instalar em New South Wales e tornar-se o primeiro curador do Museu Australiano, desenvolvendo ainda actividades junto da Zoological e da Acclimatization Society (Sidney). O naturalista publica Wanderings in New South Wales, Batavia, Pedir Coast, Singapore, and China; Being the Journal of a Naturalist in those Countries, During 1832, 1833, and 1834, 2 vols., 1834, na qual descreve o tráfico de ópio no Sul da China e a sua estada em Macau, começando, à semelhança de muitos visitantes, entre os quais o norte-americano W. W. Wood, por apresentar a sua primeira impressão da “pitoresca” e “romântica” cidade, a partir do mar, bem como uma curiosa teoria em torno da etimologia do topónimo ‘Macau’. O autor descreve as íngremes, mal pavimentadas e estreitas ruas da cidade que, no entanto, defendem os transeuntes dos fortes raios solares. As calçadas de pedras irregulares fazem, muitas vezes, com que os visitantes regressem de um passeio com tornozelos torcidos, enquanto as moradias dos europeus, cujo interior é mais agradável que o aspecto exterior, são cómodas e espaçosas. O reverendo Charles Gutzlaff acompanha o naturalista durante a sua estada no território, longamente descrito, nomeadamente o Porto Interior; a fauna e a flora locais; a Gruta de Camões, onde se encontra o poema de Sir John Davis em latim; os jardins da Casa Garden, então alugada ao inglês Christopher Augustus Fearon; o museu britânico de Macau; o aviário e os jardins de Thomas Beale; os desenhos de George Chinnery; o pitoresco templo de A-Má (Mage Miao 媽閣廟); a ilha da Lapa e as rochas sonantes “leões de Macau”; as tancareiras; os cemitérios chineses; a baía de Cacilhas; os artífices chineses; as senhoras portuguesas, “muito pouco atraentes” em cadeirinhas; a Porta do Cerco; a igreja dos Jesuítas e o colégio de S. José. O autor parte em 13 de Novembro, rumo a Singapura. Em 1890, Bennet recebe a Clarke Memorial Medal da Royal Society of New South Wales, sendo algumas plantas e animais baptizados com o seu nome. Bibliografia: BENNET, George, Wanderings in New South Wales, Batavia, Pedir Coast, Singapore, and China; Being the Journal of a Naturalist in those Countries, During 1832, 1833, and 1834, 2 vols., (Londres, 1834); BENNET, George, Gatherings of a Naturalist in Australasia; Being Observations Principally on the Animal and Vegetable Productions of New South Wales, New Zeland, and some of the Austral Islands, (Londres, 1860); JOHNS, Fred, Australian Biographical Dictionary, (Melbourne, 1934); CHISHOLM, A. H, s. v. “Bennett, George” in PIKE; Douglas (ed.), Australian Dictionary of Biography, vol. 1, (Melbourne, 1966), pp. 85-86; COPPLESTON, V., “The Life and Times of Dr. George Bennett”, in Bulletin of the Post-Graduate Committee in Medicine, (Sidney, 1955), pp. 207-264; HOME, R. W.; Sally Gregory Kohlstedt (eds.), International Science and National Identity: Australia between Britain and America, (Dordrecht, 1991); WHITLEY, Gilbert P., “Some Early Naturalists and Collectors in Australia”, Journal of the Royal Australian Historical Society, vol. 19, ([Austrália], 1933), pp. 291-304.
BENNET, GEORGE (1804-1893)
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?). O diplomata e poeta Martinho Teixeira Homem de Brederode nasceu em Lisboa no dia 15 de Abril de 1866. Depois de concluir o Curso Superior de Letras, iniciou a carreira diplomática em 1889, ocupando o lugar de adido na Legação de Portugal em Bruxelas. Após a sua passagem pela Direcção Geral dos Negócios Políticos e Diplomáticos, foi colocado na Legação portuguesa de Tânger, como 2.º Secretário, onde chegou em Janeiro de 1906. Acabou por exercer interinamente as funções de Encarregado de Negócios. A sua promoção a 1.º Secretário conduziu-o a Pequim, nomeado por decreto de 14 de Março de 1907. As suas obrigações em Tânger adiaram a sua ida para a capital chinesa, onde chegou no dia 2 de Dezembro desse ano, assumindo a gerência da Legação na qualidade de Encarregado de Negócios. Em Pequim, onde permaneceu até 1912, Homem de Brederode foi uma testemunha atenta ao desenrolar da vida política chinesa, num período marcado pelos acontecimentos que acompanharam o fim da dinastia Qing 清 e a proclamação da república em 1911- 1912. A complexidade da situação política chinesa e as suas implicações em Macau, colocaram-no em contacto permanente com o Governador do Território. A sua capacidade de análise e de interpretação sobre o período de crise política, económica e social que atravessou a China, pode ser testemunhada nos inúmeros ofícios e telegramas que remeteu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Os lugares que ocupou e as missões que lhe foram confiadas foram sempre desempenhados com brio e empenho, tendo sido louvado, por portaria de 15 de Outubro de 1912, pela coadjuvação que prestou ao chefe da missão portuguesa no centenário da constituição de Cádiz. Homem de Brederode encontrava-se em Bucareste quando se aposentou em 1939. Foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, da Ordem da Coroa da Roménia, da Ordem de S. Sava da Jugoslávia e da Ordem do Duplo Dragão Imperial Chinês. Homem de Brederode foi Comendador das Ordens de Santiago da Espada e de S. Maurício e S. Lázaro de Itália. Para além de oficial da Legião de Honra (em França), Homem de Brederode foi ainda nomeado Cavaleiro da Ordem de Carlos III. Martinho Homem de Brederode, para além da sua actividade diplomática foi ainda um homem de letras tendo deixado escritas três obras poéticas Charneca (1981), Pó da Estrada (1898) e Sul (1905) e, ainda, um romance, A Noite de Amor (1894), este último sob o pseudónimo de “Marco Sponti”. Bibliografia: Annuario Diplomático e Consular Português Relativo aos Annos de 1910 a 1913, (Lisboa, 1913); Anuário Diplomático e Consular Português de 1925, (Lisboa, 1926); Anuário Diplomático e Consular Português de 1928-1929, (Lisboa, s.d.).
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?)
BENYOWSKY, CONDE MAURITIUS AUGUSTUS (1746-1786). Filho do conde Samuel Benyowsky, general do exército austríaco, no qual se alista, lutando na Guerra dos Sete Anos. Os bens do jovem eslovaco são-lhe retirados por Maria Teresa de Áustria, fugindo este para a Polónia, tendo estudado na Europa. Lutando contra os russos, Móric Benyowsky acaba por ser exilado na Sibéria (1770), escapando posteriormente para realizar uma longa viagem rumo ao Japão, onde não é autorizado a desembarcar, dirigindo-se para a Formosa, de onde parte, em 12 de Setembro de 1771, para Macau, onde chega, doente, a 22 desse mesmo mês, após cinco meses de viagens. Entre 20 a 50 dos 70 membros da tripulação acabam por falecer, doentes, no enclave. O relato ou diário da viagem e as Memórias do viajante descrevem a estada e os negócios do mesmo na cidade com a Companhia das Índias francesa e a venda de peles trazidas da Sibéria, contactando o autor com as autoridades mandarínicas e com o governador Diogo Fernandes Salema de Saldanha, a quem pede ajuda para a sua tripulação moribunda e entrega o barco como garantia do pagamento das despesas. O governador autoriza os membros da tripulação a arrendar casas até poderem voltar para a Europa, vindo, como já referimos, alguns deles a falecer. Em Outubro e Dezembro, o Leal Senado, através de quem o conde vendera dois dos seus barcos, decide pagar, dos cofres da cidade, a comida, os salários e as casas da tripulação. O governador e o conde encontram-se diversas vezes, chegando o primeiro a albergar o visitante no palácio quando este último adoece, enquanto as mulheres do território fazem companhia às da tripulação e a cidade oferece ao viajante um valioso presente em ouro e cetim. A descrição da urbe não será das mais ricas, desejando o autor do diário visitar Pequim. As Companhias das Índias inglesa e holandesa (EIC e VOC), acabam por tentar conquistar os serviços e algumas informações do conde, oferecendo-lhe elevadas quantias monetárias. No entanto, o primeiro decide negociar com a Companhia francesa em troca de passagem segura de Macau para a Europa num dos barcos da mesma. Stephanow, um dos membros da tripulação de Benyowsky, acaba por conspirar contra este último, planeando vender o diário de bordo e outros documentos do conde à EIC, chegando o revoltoso a tentar atingir o conde com um tiro de pistola, sendo preso com outros conspiradores no “castelo” (forte) do Monte, enquanto membros leais da tripulação capturam um judeu que servira de agente para os ingleses. Os sobrecargas ingleses comunicam estrategicamente aos chineses que os visitantes húngaros são piratas fugidos dos russos, levando o vice-rei de Cantão a exigir de Macau a entrega da tripulação ou a sua expulsão da cidade. O governador aconselha o conde, agora doente e a residir no palácio do primeiro, a fingir-se doente até que os barcos franceses estejam prontos para partir. Benyowsky pede ao governador que se mantenha neutral e resolve o problema com as autoridades chinesas, partindo do enclave em 14 de Janeiro de 1772, viajando até Cantão, onde embarca no Dauphin, e alguma da sua tripulação no Laverdi, deixando a China para chegar a França em Junho, após uma estada atribulada mas pautada pela hospitalidade de Macau. São inúmeras as edições da sua obra em toda a Europa e a figura do viajante inspira ainda diversas obras literárias e musicais, entre as quais romances (Lisa Mühlbach, Graf von Benjowsky: Historicher Roman, 4 vols., Jene, 1865 e L. M. Demin, Katorzhnik Inperatour, Moscovo, 1998), peças de teatro (August Friedrich Ferdinand von Kotzebue, Graf von Benyovsky, Ausburg, 1792, traduzida para inglês, por Benjamim Thompson como The Conspiracy of Count Benyowsky, Londres, 1800), óperas (Alexander Duval, Benjowsky, ou les exiles du Kamchatka, ópera cómica, Paris, 1800) e várias biografias. Bibliografia: Manuscritos do e sobre o conde encontram-se nos seguintes locais: Library of Congress, Manuscript Division, Washington, D.C.; American Philosophical Society (Filadélfia); The British Library: OIR Collections: IOR/G/12/19, ff. 3-6, 9-11; Archives Nationales de France. Section Outre-Mer, Colonies et Marines ; Archives Nationales de France e Archive de l’ Ile Maurice (França); Archives de l’Académie Malagache (Madagáscar). BENYOWSKY, Mauritius Augustus, The Memoirs and Travels of Mauritius Augustus Count de Benyowsky, Magnate of the Kingdoms of Hungary and Poland and one of the Chiefs of the Confederation of Poland, 2 vols., (Londres, 1789); BENYOWSKY, Mauritius Augustus, The Memoirs and Travels of Mauritius Augustus Count de Benyowsky in Siberia, Kamchatka, Japan, the Liukiu Islands and Formosa, trad. William Nicholson, (Londres, 1893); TEIXEIRA, Padre Manuel, O Conde Benyowsky em Macau, (Macau, 1966); PEREIRA, João Feliciano Marques, “A Gruta de Camões: Impressões e Reminiscências”, in Ta- Ssi-Yang-Kuo: Arquivos e Annaes do Extremo Oriente, vols. 3-4, (Macau, 1984); SENA, Tereza, “Some Hungarian Adventurers in Macao, Formosa and China in the Late Eighteenth Century (1771-1772), in Review of Culture, edição inglesa, 2.ª série, n.° 30, (Macau), pp. 79-100.
BENYOWSKY, CONDE MAURITIUS AUGUSTUS (1746-1786)
BINGHAM, COMANDANTE J. ELLIOT ou BINGHAM, JOHN ELLIOT (?-?). Tenente inglês (corveta HMS Modeste) que participa na Guerra do Ópio juntamente com o capitão Charles Elliot. Bingham entra ao serviço da Marinha em Setembro de 1820 e é promovido a comandante em 1841, sendo autor da obra Narrative of the Expedition to China from the Commencentof the War to its Termination in 1842 with Sketches of the Manners and Customs of that Singular and Hitherto Almost Unknown Country, dois volumes, 1841, na qual descreve a captura de Cantão e inúmeras outras batalhas navais, bem como, no capítulo 4, Macau, onde, de acordo com o próprio, permanece algum tempo. O autor começa por descrever a posição geográfica da península, a chegada dos portugueses à mesma e o seu estabelecimento, sobretudo a construção da muralha em que se encontra a Porta do Cerco. O viajante, contextualizando um dos episódios bélicos entre ingleses e chineses, afirma que a Taipa e os restantes ancoradouros do território foram, até aos conflitos sino-britânicos, considerados neutrais, descrevendo o uso que os chineses fazem do enclave durante a guerra. São ainda descritos o poder e a vigilância dos chineses (mandarim da Casa Branca) na cidade, podendo os portugueses apenas governar os seus compatriotas e os demais residentes ocidentais através do governador e do Senado, cujas funções, direitos e deveres são igualmente apresentados. As casas, algumas das quais ao longo da “Praya Grande”, são descritas como robustas, ladeadas por estreitas ruas com pavimento horrível, perguntando-se o viajante: “em que outra cidade portuguesa não é assim?”. A urbe é considerada a mais europeia do Oriente português, contando com cinco fortes inexpugnáveis e treze igrejas onde reina o fanatismo dos padres, tratando-se de um olhar protestante sobre Macau que descreve igualmente o espaço chinês, com o seu confuso labirinto de vielas em que se acumulam uma corrente de comerciantes e compradores. Os passeios a pé e a cavalo dos ingleses; o comércio decadente; as rendas elevadas cobradas aos estrangeiros são também referidos, bem como a população (trinta e cinco mil habitantes, dos quais apenas cinco mil são súbditos portugueses, que se casam com chinesas), vaticinando o visitante ao referir que o comércio de Macau beneficiou com a Guerra do Ópio, pois os vendedores de Cantão abriram lojas no enclave: “o novo estabelecimento de Hong Kong em crescimento retirará brevemente a Macau a sua última esperança comercial, e a cidade tornar-se-á apenas uma recordação daquilo que já foi.” Bingham transcreve ainda frases em Chinese Pidgin English proferidas por comerciantes chineses (“Can sendee, then catchee tolha”), adensando assim a cor local da sua descrição através do registo linguístico. Entre muitos outros militares referidos pelo viajante encontra-se o capitão Sir Edward Belcher (1799-1877), comandante de uma expedição da Marinha Real inglesa ao Sul da China em Dezembro de 1840, durante a Guerra do Ópio, tendo participado na fundação da Hong Kong e nas tentativas de tomada de Cantão, regressando posteriormente à Inglaterra. O testemunho no relato da viagem de Belcher é hostil para com o capitão Charles Elliot, referindo a inimizade nas cartas privadas que este envia do Oriente. Belcher relata a sua estada em Macau, bem como a acção de Charles Elliot no enclave, na obra Narrative of a Voyage Round the World, Performed in Her Majesty’s Ship Sulphur, During the Years 1836-1842, Including Details of the Naval Operations in China, from Dec. 1840, to Nov. 1841. Já após a fundação de Hong Kong, o comandante do Sulphur afirma dirigir-se desta colónia para Macau, pois tal visita seria benéfica para a sua tripulação, que aí poderia descansar e ser hospitalizada, acabando por se encontrar na cidade com os plenipotenciários ingleses, ouvindo os relatos das suas aventuras. Macau funciona como estância balnear e, devido às estruturas e instituições há muito estabelecidas, como hospital e local de descanso para os residentes ingleses de Hong Kong, pois, como Bingham afirma na sua narrativa, foi alugado na cidade um edifício amplo para ser convertido em hospital naval, existindo ainda um outro hospital, financiado por subscrição pública da Medical Missionary Society, que assiste ocidentais e chineses. Dignas de menção são ainda as várias construções do Templo da deusa Matsoo-poo (A-má) (Mage Miao 媽閣廟) e a Gruta de Camões, visitada por todos os estrangeiros, sendo o aspecto deste último monumento criticado e longamente descrito. De seguida, breves apontamentos etnográficos familiarizam o futuro visitante com a cultura dos tancás (caso o primeiro queira fazer um passeio fluvial marcado pela presença feminina); com o Ano Novo Chinês; com o vestuário dos nativos, o jogo; o teatro chinês; os guarda-nocturnos; os diversos vendedores ambulantes, os produtos comercializados e as formas de os vender; os pedintes e os malabaristas que constituem o quadro humano descrito e que marcam presença em muitas outras descrições inglesas de Macau. Bibliografia: BINGHAM, Commander J. Elliot, Narrative of the Expedition to China from the Commencement of the War to its Termination in 1842 with Sketches of the Manners and Customs of that Singular and Hitherto Almost Unknown Country, 2 vols., 2 .ª edição, (Londres, 1843); BELCHER, Captain Sir Edward, Narrative of a Voyage Round the World, Performed in Her Majesty’s Ship Sulphur, During the Years 1836-1842, Including Details of the Naval Operations in China, from Dec. 1840, to Nov. 1841, 2 vols., (Londres, 1843); EITEL, E. J., Europe in China: The History of HongKong from the Beginning to the Year 1882, (Londres, 1895); MORSE, Hosea Ballou, The Gilds of China, (Nova Iorque, 1909); MORSE, Hosea Ballou, The International Relations of the Chinese Empire, vol. 1, (Londres, 1910); MORSE, Hosea Ballou, The Chronicles of the East India Company Trading to China 1635-1834, vol. 1, (Oxford, 1926); COSTIN, W. C., Great Britain and China 1833-1860, (Oxford, 1937); COLLIS, Maurice, Foreign Mud: Anglo-Chinese Opium War, (Londres, 1946); GREENBERG, Michael, British Trade and the Opening of China 1800-1842, (Cambridge, 1951); HOLT, Edgar, The Opium Wars in China, (Londres, 1964); BEECHING, Jack, The Chinese Opium Wars, (Londres, 1975); GRAHAM, Gerald, The China Station: War and Diplomacy 1830-1860, (Oxford, 1978); HOE, Susanna e Derek Roebuck, The Taking of Hong Kong: Charles and Clara Elliot in China Waters, (Richmond, 1999).
BINGHAM, COMANDANTE J. ELLIOT ou BINGHAM, JOHN ELLIOT (?-?)
BARREIROS, LEOPOLDO DANILO (1910- 1994). Nascido em Lisboa, Leopoldo Danilo Barreiros emigra para o Brasil aos quinze anos de idade e regressa a Portugal em 1927, vivendo posteriormente na Bélgica, onde começa a estudar Engenharia. Em 1930 regressa ao Brasil, viajando depois até à Conchichina e, em 1931 chega a Macau, onde casa com Henriqueta Clarissa Augusto Pacheco Jorge (23-04-1938). Em 1956, o funcionário público parte para S. Tomé e Príncipe como notário, voltando, quatro anos depois, a Portugal, onde se licencia em Direito, sendo advogado em Lisboa (1957-1966) e consultor jurídico da Embaixada da Suécia, país que o agracia com a Ordem da Estrela do Norte; secretário da direcção da Diamang, Companhia de Diamantes de Angola (1948-1956), e notário público em São Tomé (1956-1957). Em Macau, Leopoldo é operário da Companhia de Electricidade, ocupando, entre 1932 e 1933, o cargo de terceiro aspirante da Direcção dos Serviços da Fazenda e Contabilidade, e, entre 1934 e 1935, o de delegado-recebedor da Fazenda das ilhas de Taipa e Coloane. O autor é ainda professor dos ensinos primário e secundário, entre 1936 e 1942, correspondente dos jornais Diário de Notícias, A Noite, Vamos Ler (Rio de Janeiro), e fundador, com outros habitantes de Macau, da revista Renascimento, na qual publica quatro novelas policiais (A Morte do Banqueiro, Kriss Malaio, Tesouro dos Ming e Crime Perfeito). Barreiros publica ainda a Antologia do Dialecto Macaense; As Marcas da Porcelana Chinesa; “A Carreira Militar de Santo António na Cidade de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, n.º 408, 1938, 8 pp.; “Instrução que o Senado da Câmara de Macau Oferece ao Exmo. e Rmo. Sr. D. Alexandre de Gouvea, Bispo de Pekim”, publicado no mesmo Boletim; A Paixão Chinesa de Wenceslau de Morais, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1955; “O Testamento de Camilo Pessanha”, Boletim do Rotary Club de Setúbal, n.º 128, 1971, pp. 1-5 (texto reproduzido na antologia de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves, De Longe à China: Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas, vol. 3, pp. 1239-1255), deixando, inédito, o “Vocabulário Macaense”. Luís Gonzaga Gomes, em forma de agradecimento por Danildo Barreiros lhe ter fornecido um panfleto histórico raro, apresenta, ao publicar o mesmo (Historia do Naufragio Acontecido em 1827 ao Navio Portuguez Nova Aurora da Praça de Macao do Propietario e Capitão Vicente Francisco Baptista. Aventuras dos Naufragos, e outros Sucessos que Experimentárão em Onze meses e Dezoito dias, até Chegarem a Singapore.), uma breve biografia do advogado, elogiando a “marcante personalidade” e a persistência que o caracterizam desde que chega a Macau, vindo “à aventura”. Bibliografia: BARREIROS, Leopoldo Danilo, A Paixão Chinesa de Wenceslau de Morais, (Lisboa, 1955); BARREIROS, Leopoldo Danilo, “O Testamento de Camilo Pessanha”, in Boletim do Rotary Club de Setúbal, n.° 128, (Setúbal, 1971), pp. 1-5; GOMES, Luís Gonzaga (ed.), “Historia do Naufragio Acontecido em 1827 ao Navio Portuguez Nova Aurora da Praça de Macao do Propietario e Capitão Vicente Francisco Baptista. Aventuras dos Naufragos, e outros Sucessos que Experimentárão em Onze meses e Dezoito dias, até Chegarem a Singapore”, in Boletim do Instituto Luís de Camões, vol. 6, n.°s. 3-4, (1972), pp. 177-191; SANTOS, Carlos Pinto, “Danilo Barreiros: A Vida numa Rajada de Vento”, in MacaU, 2.ª série, n.° 19 (Macau, 1993), pp. 83-101; SANTOS, Carlos Pinto e Orlando Neves, De Longe à China: Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas, vol. 3, (Macau, 1996); FORJAZ, Jorge, Famílias Macaenses, vol. 1, (Macau, 1996), pp. 391-392.
BARREIROS, LEOPOLDO DANILO (1910- 1994)
CARVALHO, RODRIGO LEAL DE (1932-). Nasceu na Praia da Vitória, Açores, em 20 de Novembro de 1932, tendo vivido parte da infância em Trás-os-Montes e no Algarve, para além dos Açores, onde fez a escolaridade e o Curso dos Liceus. Licenciou-se em Direito (Universidade de Lisboa), ingressando de seguida na Magistratura. Foi colocado na ilha do Pico em 1956 e, no ano seguinte, em S. Tomé e Príncipe, a que se seguiu Macau, onde viverá, se bem que de forma não continuada, cerca de quatro décadas, e a maior parte da sua vida activa. Em 1959 chegou ao Território como delegado do Ministério Público, onde ficou até 1963, ocasião em que foi colocado na Guiné como Juiz de Direito. Nessa qualidade voltou a Macau, em 1966, aqui permanecendo até 1971. Foi então colocado em Luanda, onde esteve ano e meio, sendo depois enviado para Moçambique, onde foi promovido à Relação, e donde saiu em 1975. Após uma curta estadia em Lisboa, na Direcção dos Assuntos Jurídicos do Ministério do Ultramar, regressou uma vez mais a Macau, em 1976, como Procurador da República, cargo entretanto criado no âmbito do Estatuto Orgânico do Território, e depois designado de Procurador-Geral Adjunto. Nele permaneceu até ser nomeado Presidente do Tribunal de Contas em 1996, lugar que deteve até às vésperas da transferência da Administração de Macau para a República Popular da China, regressando a Portugal ainda em 1999. Por impedimento, pediu, ao ser investido nessas funções, a suspensão dos cargos de curador da Fundação Macau e de membro do Conselho Universitário de Macau, que há anos vinha desempenhando. Rodrigo Leal de Carvalho viu os seus serviços serem reconhecidos pelo Estado português ao ser agraciado, em 1986, com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, enquanto que o Governador de Macau o distinguiu, em 1998, com a Medalha de Valor. Se bem que tenha despertado para a escrita ainda nos tempos do Liceu, só em 1993 deu à estampa o seu 1.º romance, Requiem por Irina Ostrakoff, o qual obteve tal aceitação pública que viria a ser reeditado logo em 1995. Galardoado com o Prémio Camilo Pessanha 1993, atribuído pelo Instituto Português do Oriente, foi recentemente (1999) publicado em língua chinesa e objecto da dissertação de Mestrado de Vânia Maria Pinto Coelho Reis. Em 1994 é a vez de publicar Os Construtores do Império, já esgotado, logo seguido, em 1996, de dois outros novos romances: A IV Cruzada, em que o autor em parte se assume como protagonista, e Ao Serviço de Sua Majestade, surgindo, em 1999, O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres. Com fina ironia e delicadeza, Rodrigo Leal de Carvalho tem-se revelado um escritor das memórias da cidade de Macau e do universo do funcionalismo português de além-mar das décadas de 1950 e 1960, recreando ambientes e vivências testemunhadas por ele mesmo, sempre devidamente enquadradas no panorama da conjuntura mundial do século XX, o que despertou a atenção de outros investigadores como David Brookshow e Lee Shuk Yee. – Principais Obras. Romance – Requiem por Irina Ostrakoff, 1993 (2.ª ed., 1995); Os Construtores do Império, 1994; A IV Cruzada, 1996; Ao Serviço de Sua Majestade, 1996; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres, 1999. Bibliografia: BROOKSHAW, David, “Macau e os Macaenses: Considerações sobre a Obra de Henrique de Senna Fernandes e Rodrigo Leal de Carvalho”, vol. 2, (Porto, 1999), pp. 169-178; REIS, Vânia Maria Pinto Coelho, A Ironia em “Requiem por Irina Ostrakoff ”, policopiado, (São Paulo, 1999); SENA, Tereza; BASTO, Jorge, Macau nas Palavras, CD-ROM, (Macau, 1998).
CARVALHO, RODRIGO LEAL DE (1932-)
CAMÕES, LUÍS VAZ DE (1517 ou 1524-1579). Desde muito cedo se consolidou a tradição da presença do Poeta em Macau. Contudo, no século XX, a historicidade do facto começou a ser posta em causa, debate que se mantém entre os que defendem aquela e os que sustentam não passar de um mito historiográfico. No entanto, recentes descobertas e pertinentes análises exegéticas parecem vir reforçar a tese da historicidade: – 1. O primeiro indício da presença de Camões em Macau é dado pelo próprio vate, na estância 128 do Canto X do seu poema épico Os Lusíadas: “Este [Mecom] receberá, / plácido e brando, / No seu regaço os Cantos que molhados / Vêm do naufrágio triste e miserando, / Dos procelosos baxos escapados, / Da fome, dos perigos grandes, quando/ Será o injusto mando executado / Naquele cuja lira sonorosa será mais afamada que ditosa”. Tratando-se de factos vindouros relativamente ao feito principal (a viagem de Gama à Índia) e à própria narrativa de Vasco da Gama ao rei de Melinde, Camões coloca neste Canto X uma ninfa, Tétis, a mostrar ao navegador, de um alto cume, o Universo descoberto e a descobrir pelos Portugueses, e a vaticinar-lhe as terras de África e da Ásia que os Portugueses virão a possuir, nomeando todos os grandes ilustres e os lugares teatro de seus feitos. Como em numerosíssimos outros versos, quer da lírica, quer do poema épico, a estância transcrita, que fala de um naufrágio na latitude do Camboja, tem claro pendor autobiográfico. Qual a importância de um naufrágio, no meio de tantas centenas, ocorridos então e desde sempre na gesta oriental dos lusíadas, senão porque dele foi vítima o próprio Poeta e porque a ele estão associados duas importantes relações de causa e efeito, a saber, a salvação dos ‘Cantos’ e um ‘injusto mando’? Para além, claro, da própria sobrevivência do Vate e do seu canto universal. Ora o Camboja situava-se em região vizinha da China e o Mecom é um rio que desagua já em pleno mar do Sul da China; ter navegado por aquela parte do litoral asiático implica uma viagem de Camões de vinda ou de ida para as ‘partes da China’ onde os portugueses estavam estabelecidos. Inserto na descrição das futuras viagens de descoberta e conquista dos portugueses no Índico e Pacífico (não obstante numa descrição de direcção Sul-Norte), o episódio autobiográfico do naufrágio terá sido no regresso de Macau, e nele terá perdido os bens ‘das partes’, de cujo espólio era responsável perante a Casa dos Contos em Goa. Na época em que Camões terá estado em Macau (entre 1563 e 1566), já os portugueses frequentavam os portos da baía de Cantão com à-vontade, desde 1554, pelo menos, e, naquela época, já Macau estava consolidado como estabelecimento único dos portugueses nas ‘partes da China’; em 1563, ‘já Macau era uma cidade’, com, em 1564, uma população de 600 portugueses, a que se somavam os seus escravos e criados, justificando-se plenamente uma provedoria dos defuntos, por motivos bem mais sólidos do que Liampó e Chincheo, que já a tinham. O vaticínio da ninfa, obviamente, está hipotecado ao conhecimento que Camões tem, na época em que escreve, de até onde chegaram esses valerosos Portugueses; ou, tendo em vista a preocupação de Camões de falar do que sabe e conhece em primeira mão, de até onde ele próprio chegou e viu. Por isso, mais adiante (X, 131, 1-2), depois de acabar de descrever a Ásia e a China – sugerindo fortemente que o Poeta evoca um caminho por si percorrido até chegar ao Império do Meio – termina aí a sugestão da viagem feita e põe a ninfa a dizer: ‘Inda outra muita terra se te esconde / Até que venha o tempo de mostrar-se…’. Claramente, o Japão; um lugar a que se vai, a partir de um lugar onde se está. E era, efectivamente, já nessa altura, a partir de Macau (donde não terá passado) que a famosa nau do trato (o kurofoné, o barco negro para os japoneses, por causa da cor de que era pintado) partia para o Japão. Daí trazia prata, de elevada qualidade, essencial para o comércio chinês da seda, da porcelana, e até do ouro. E foi isso que Camões cantou, demonstrando um conhecimento muito preciso deste negócio da prata, principal exportação do Japão: ‘Mas não deixes no mar as Ilhas onde / A Natureza quis mais afamar-se: / Esta, meia escondida, que responde / De longe à China, donde vem buscar-se, / É Japão, onde nace a prata fina, / Que ilustrada será co a Lei divina.’ (X, 131, 3-8). Já Boxer salientaria: ‘Se foi a procura de Cristãos e Especiarias que trouxe os portugueses à Ásia, em primeiro lugar, pode-se dizer que foram os Cristãos e prata as duas estrelas condutoras que em conjunto os guiaram nas suas viagens ao Japão por quase um século’, desde a chegada a Tanegashima, em 1543. Camões pode ter visto partir de Macau a Nau do Trato em direcção ao Japão, assistido ao carregamento no cais de Patane das sedas e do ouro chinês; e assistido, na estação seguinte, à sua chegada, a descarregar a prata em barra destinada a Cantão. – 2. A isto se liga a tradição da ‘Gruta’ de Camões. É que o cais de Patane, que os comerciantes naquela época utilizavam (e que deu origem ao primeiro bairro de Macau) está justamente no sopé do outeiro coroado de penedos que a tradição desde cedo estabeleceu ser frequentada pelo Poeta, aí desfrutando das boas vistas e dos bons ares. Ora, em 1911, o bibliotecário da Ajuda, Dr. Jordão de Feitas, descobriu um manuscrito, do século XVIII, com uma relação de bens de raiz do Colégio de Macau, pertencente aos Jesuítas, que identifica o ‘chão do campo dos patanes’, o mesmo ligado ao Poeta, como os ‘penedos de Camões’, apurando-se ser o lançamento original de, pelo menos, e seguramente, de entre 1632 e 1636 (data em que foi reitor do dito Colégio o padre António Cardim) ou mesmo, com probabilidade, de 1617 (data em que o livro, donde foi transcrito o lançamento, foi iniciado). Camões não era desconhecido dos Jesuítas, que, cedo chegando a Macau, aqui construíram a sua primeira residência em 1565 (foi jesuíta o primeiro bispo de Macau com residência efectiva, em 1568, na sede episcopal) e a sua primeira escola em 1572, esta elevada a Colégio em 1594, com o nome de S. Paulo. Era nos bens de raiz deste que figurava o chão do campo dos patanes, a que deram o nome de ‘penedos de Camões’. A descoberta de Jordão de Freitas veio trazer consistência e rigor histórico à tradição secular, fundada nos biógrafos e cronistas, porque, afinal, fundada na própria memória coeva do povo de Macau, pois não terá sido sem fundamento que o local era conhecido por ‘penedos de Camões’. É sabida a ‘importância da leitura no quotidiano ultramarino dos portugueses residentes ou estantes em paragens orientais e a rapidez da difusão de obras impressas’ entre a Península e o Oriente. Ora, após a publicação do poema épico em 1572, e sobretudo depois da morte, que lhe redobrou a fama, mais a mais com a opressão espanhola a acirrar a nostalgia da independência e sabendo-se de que lado havia estado o Poeta na crise sucessória de 1578-80, rapidamente Os Lusíadas se transformaram numa espécie de evangelho nacionalista. Para os Jesuítas, que melhor forma de resistência do que perpetuar o nome do autor numa das suas propriedades, aquela à qual estava ligada a memória da sua estada em Macau? – 3. Na linha da historicidade, e será o terceiro dos indícios de que falámos, existe outra das descobertas do século XX, a reforçar a atestação documental da tradição: o Cancioneiro de Cristóvão de Borges, colectânea manuscrita de poemas, ao gosto da época, a maioria de Camões, feita pelo desembargador do Paço desse nome, descoberto e publicado pelo professor da Universidade da Califórnia Arthur Lee-Francis Askins em 1979. Nesse cancioneiro podemos ler a 1.ª parte (poema do amor profano, constituída por 200 versos) de umas redondilhas, Sobre os rios que vão, encimadas da seguinte epígrafe: ‘De L. de C. a sua perdição na China’. E, ademais, com data precisa: 1578, o terminus ad quem da colectânea. Ou seja, ainda em vida do Vate. Ora, este desembargador e amante das letras não era uma pessoa qualquer. O Desembargo do Paço era o principal órgão da administração central. Era, por excelência, o Conselho Régio, presidido pelo próprio rei, e os seus membros tinham automaticamente carta de conselheiros. Tinham, além disso, assento na ‘mesa principal’ da casa da justiça, juntamente com o Regedor das Justiças, à qual o rei em regra estava presente. Cristóvão de Borges Peguas de Meireles, natural de Miranda do Douro, antigo juiz dos órfãos em Mirandela, e em Lisboa desde 1567, deve seguramente ter conhecido Camões, ou no mínimo obtido toda a informação sobre ele, pelo menos a atinente à ‘capitulação’ com que vinha de Goa e que sobre ele pesava quando chegou a Cascais em 7 de Abril de 1570. Esta ‘capitulação’, ou artigos de acusação, está relacionada com a perda dos bens ‘das partes’ (viúvas e órfãos dos defuntos), a ambos se referindo o seu biógrafo Pedro de Mariz, e com o “injusto mando executado” a que se refere Camões. Se não chegou a ser julgado e absolvido do crime de peculato no cargo orfanológico, terá sido perdoado pelo Desembargo do Paço, pois justamente a concessão de perdões vinha em primeiro lugar no elenco das cartas de privilégio que era uma das respectivas competências em matéria de graça. Num caso como noutro, Cristóvão de Borges sabia do que falava: ‘De L. de C. a sua perdição na China’. China, entre 1563 e 1566, já só significava Macau. E ‘perdição’, dito por um magistrado, só pode ter ressonância judicial, aliás em consonância com a ‘capitulação’ com que veio do Oriente. E só faz sentido admitir ter sido absolvido ou perdoado, pois só isso é compatível com a curta duração que vai da sua chegada a Cascais, em Abril de 1570, e a data em que se sabe já estar o poema épico na impressão (23 de Setembro de 1571), sabendo-se as várias formalidades a que o Poeta teve de se sujeitar para a impressão da obra (licenças várias, leitura do poema aos censores, alteração de textos por estes imposta, etc.). Não é de enjeitar também a influência no rápido sucesso deste caso do Regedor das Justiças, o mais alto magistrado do país, superior hierárquico de Cristóvão de Borges, com quem o Poeta revelou uma estranha familiaridade, até hoje inexplicada. – 4. Mas a revelação do Cancioneiro de Cristóvão de Borges veio caucionar duas outras fontes documentais da presença de Camões na China: uma, o Cancioneiro de Madrid, onde as mesmas redondilhas “Sobre os rios que vão…” aparecem sob esta epígrafe: ‘O psalmo super flumina, do mesmo poeta o qual compôs, indo para a China no qual caminho fez um grande naufrágio’; a outra, o anónimo comentário feito em 1584 à margem da pág. 187 da edição desse ano de Os Lusíadas: “começando a fortuna fauorecello, & tendo algum fato ja de seu, perdeose na viagem que fez pera a China”. Esta mesma anotação acrescentava que o Poeta compusera “aquelle cancioneiro, que diz: Sobre os rios que vão per Babylonia” na ocasião do naufrágio. Em Camões, Babilónia é Goa, e Sião a pátria longínqua cujas lembranças chorou ‘sobolos rios’. Uma segunda nota, comentando outra estância, esclarecia que Camões aportara “a este reino de Cambaia’ [erro evidente por Camboja], depois de se ter “perdido” na “viagem que fez à China”. – 5. Outros indícios da estada de Camões em Macau são as referências que Pedro de Mariz faz na biografia do Poeta, publicada na edição de 1613 de Os Lusíadas. Mariz, que tinha 30 anos no ano em que Camões morreu, dá conta de o Poeta ter sido provido “Provedor mòr dos defunctos aas partes da China” por um vice-rei (não se equivocou, mas omitiu o nome), tendo perdido “o das partes” no naufrágio que o perdeu, “de que elle faz menção na octava 128 do Cãto 10”, sendo a sugestão do naufrágio a de ter ocorrido no regresso da China. É ele quem fala da prisão do Poeta na Índia. Na mesma edição de Os Lusíadas são publicados uns comentários de Manuel Correia, que teria redigido a pedido de Camões e por este sido instado a publicá-los. Tendo morrido antes de o fazer, os papéis foram a leilão, onde Mariz os comprou e publicou. Aí se fazem referências ao naufrágio no regresso da China e à prisão pelo governador do Estado da Índia, “pela fazenda dos defunctos, que elle trazia a seu cargo, porque foy à China por Prouedor mor dos defuntos”. Se, como já foi demonstrado pela historiografia, o cargo de provedor-mor é altamente improvável que tenha sido exercido pelo Poeta, já o de simples provedor, ou de provedor-menor, se especialmente designado para Macau, não se desarticula daquilo que hoje se sabe já ser Macau a partir de 1560 e das interpretações do que significarão ‘o das partes’, o ‘injusto mando’, a ‘capitulação’ com que veio do Oriente e, sobretudo, porque é a esse cargo que se refere o cronista Diogo do Couto. – 6. Na verdade, e finalmente, Couto (c. 1542-1616) é uma das mais credíveis fontes da gesta oriental dos portugueses, o continuador das Décadas da Ásia iniciadas por João de Barros. E, para além da sua autenticidade, dá-se a circunstância de Couto se contar entre os amigos do ‘Príncipe dos Poetas do seu tempo’. Tendo chegado à Índia em 1559, logo aí terá conhecido o Poeta, pois quando o encontra em 1569 na Ilha de Moçambique trata-o como a um velho amigo e companheiro. E do testemunho de Couto, deixado na versão extensa da Ásia – Década VIII, ficamos a saber que Camões viajara para a China como “provedor dos defuntos” em tempos do governador Francisco Barreto (1555-1558), mas fora-se “perder na costa de Sião, onde se salvarão todos despidos”, donde conseguiu escapar “com as suas Lusiadas como elle diz nellas”. Couto era um homem meticuloso, que desde cedo se tornou coleccionador de materiais históricos, recolhendo de forma sistemática elementos relacionados com a gesta oriental dos portugueses e dispondo dos seus próprios elementos de arquivo, ‘fragmentos’, e ‘lembranças’, como ele próprio afirma. As memórias e as informações orais tiveram sempre uma grande importância nas fontes de Couto, que ouvia toda a gente, procurava pessoas e falava com testemunhas de acontecimentos, e até o inimigo capturado buscava na prisão para registar a versão dele; o que denota bem a sua preocupação pela verdade. Ora Couto teve oportunidade de conviver e conversar na ilha de Moçambique com o Poeta, dele saber das suas ocupações poéticas (por ele sabemos que Camões trabalhava “em hum livro que hia fazendo, que intitulava Parnaso de Luiz de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtáram”), dele cuidou e, com outros compatriotas, com quem se fintou, fez embarcar no Santa Clara o Poeta, com quem viajou, de Novembro de 1569 a 7 de Abril de 1570, quando aportaram a Cascais (uma vez que em Lisboa grassava a peste grande). Teve muito tempo para dele ouvir, em primeira mão, a sua narrativa. E provavelmente repetidas vezes, ao longo da viagem de vários meses, de regresso à Pátria. – 7. Infelizmente, a biografia de Camões esteve muitos anos sujeita à manipulação dos herdeiros dos Noronhas e dos Andrades da Anunciada, para esconder os amores do Poeta pelas duas damas da casa de Linhares, a ama (D. Violante, mulher do amo D. Francisco de Noronha, 2.º conde de Linhares) e a filha (D. Joana de Menezes), substituindo o nome de Violante pelo de Catarina e o de Joana pelo de uma moça chinesa, tentando tudo para que a verdade sobre esse e outros episódios da vida do Poeta com ele relacionados ficasse esquecida. O episódio da presença de Camões em Macau acabou por sofrer com isso. O furto da Década VIII, como o do Parnaso de Luiz de Camões, como outras falsificações que a historiografia atesta, foi só mais um desses golpes baixos a que aqueles deitaram mão para proteger o prestígio da poderosa casa fidalga. Também alguns erros, comuns nessa época (cronistas, impressores, revisores, chancelarias, todos os cometeram), contribuiram para obnubilar, durante muito tempo, a verdade sobre a vida do Poeta. Até Couto, ou o seu secretário por ele, ao reescrever a Década VIII em 1615, um ano antes da morte, menciona a nomeação de Camões para o cargo de provedor dos defuntos como em tempos do governador Francisco Barreto, no lugar do vice-rei D. Francisco Coutinho (10.1561-28.2.1564, data da morte). Também Mariz faz uma errada referência, provavelmente não inocente, na edição de 1613: é que não foi o governador Francisco Barreto quem deu a Luís de Camões voz de prisão na Índia, mas D. Antão de Noronha (1564-1569), um vice-rei. E é justamente a um vice-rei, sem o nomear, que Manuel Correia nos seus comentários atribui a voz de prisão (embora noutro passo diga ter sido o governador Francisco Barreto). Detectamos nos biógrafos e cronistas contemporâneos do Poeta um como que querer-e-não-querer dizer a verdade, mas, sem a coragem de a assumir, deixando pistas para lá chegar. Mas Mariz também cometeu erros inocentes: enganou-se no ano de chegada de Camões a Lisboa: 1569 por 1570. E muitos outros podem ser indicados. Por junto e atacado, podemos fixar entre 1563 e 1566 o período durante o qual Camões esteve em Macau; o primeiro porque ainda nesse ano, e na Índia, compôs uma elegia à morte do fidalgo D. Telo de Menezes, então ocorrida;o segundo porque o cargo de provedor dos defuntos era trienal, embora, com muita probabilidade, a função não tenha sido exercida até final. Por uma vez, e por tudo o que ficou dito, a tradição ganhou foros reforçados de autenticidade. Bibliografia: Askins, Arthur Lee-Francis, The Cancioneiro de Cristóvão de Borges (Lisboa, 1979); Cruz, Maria Augusta Lima, Diogo do Couto e a Década 8.ª da Ásia, 2 vols., (Lisboa, 1994); Ferreira, Joaquim, Camões – Dúvidas e Acertos, (Porto, 1960); Loureiro, Rui Manuel, Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI (Lisboa, 2000); Loureiro, Rui Manuel, “Camões em Macau – Um Mito Historiográfico”, in Revista de Cultura, n.º 7, (Macau, 2003); Ribeiro, Eduardo A. Correia, “Camões – Um Poeta na Periferia de Dois Impérios”, Ponto Final, (Macau, 2006); Saraiva, José Hermano, A Vida Ignorada de Camões – Uma História que o Tempo Censurou, (Mem Martins, 1995); Teixeira, Padre Manuel, Camões Esteve em Macau, (Macau, 1999).
CAMÕES, LUÍS VAZ DE (1517 ou 1524-1579)
CAMÕES, LUÍS VAZ DE (1517 ou 1524-1579). Desde muito cedo se consolidou a tradição da presença do Poeta em Macau. Contudo, no século XX, a historicidade do facto começou a ser posta em causa, debate que se mantém entre os que defendem aquela e os que sustentam não passar de um mito historiográfico. No entanto, recentes descobertas e pertinentes análises exegéticas parecem vir reforçar a tese da historicidade: – 1. O primeiro indício da presença de Camões em Macau é dado pelo próprio vate, na estância 128 do Canto X do seu poema épico Os Lusíadas: “Este [Mecom] receberá, / plácido e brando, / No seu regaço os Cantos que molhados / Vêm do naufrágio triste e miserando, / Dos procelosos baxos escapados, / Da fome, dos perigos grandes, quando/ Será o injusto mando executado / Naquele cuja lira sonorosa será mais afamada que ditosa”. Tratando-se de factos vindouros relativamente ao feito principal (a viagem de Gama à Índia) e à própria narrativa de Vasco da Gama ao rei de Melinde, Camões coloca neste Canto X uma ninfa, Tétis, a mostrar ao navegador, de um alto cume, o Universo descoberto e a descobrir pelos Portugueses, e a vaticinar-lhe as terras de África e da Ásia que os Portugueses virão a possuir, nomeando todos os grandes ilustres e os lugares teatro de seus feitos. Como em numerosíssimos outros versos, quer da lírica, quer do poema épico, a estância transcrita, que fala de um naufrágio na latitude do Camboja, tem claro pendor autobiográfico. Qual a importância de um naufrágio, no meio de tantas centenas, ocorridos então e desde sempre na gesta oriental dos lusíadas, senão porque dele foi vítima o próprio Poeta e porque a ele estão associados duas importantes relações de causa e efeito, a saber, a salvação dos ‘Cantos’ e um ‘injusto mando’? Para além, claro, da própria sobrevivência do Vate e do seu canto universal. Ora o Camboja situava-se em região vizinha da China e o Mecom é um rio que desagua já em pleno mar do Sul da China; ter navegado por aquela parte do litoral asiático implica uma viagem de Camões de vinda ou de ida para as ‘partes da China’ onde os portugueses estavam estabelecidos. Inserto na descrição das futuras viagens de descoberta e conquista dos portugueses no Índico e Pacífico (não obstante numa descrição de direcção Sul-Norte), o episódio autobiográfico do naufrágio terá sido no regresso de Macau, e nele terá perdido os bens ‘das partes’, de cujo espólio era responsável perante a Casa dos Contos em Goa. Na época em que Camões terá estado em Macau (entre 1563 e 1566), já os portugueses frequentavam os portos da baía de Cantão com à-vontade, desde 1554, pelo menos, e, naquela época, já Macau estava consolidado como estabelecimento único dos portugueses nas ‘partes da China’; em 1563, ‘já Macau era uma cidade’, com, em 1564, uma população de 600 portugueses, a que se somavam os seus escravos e criados, justificando-se plenamente uma provedoria dos defuntos, por motivos bem mais sólidos do que Liampó e Chincheo, que já a tinham. O vaticínio da ninfa, obviamente, está hipotecado ao conhecimento que Camões tem, na época em que escreve, de até onde chegaram esses valerosos Portugueses; ou, tendo em vista a preocupação de Camões de falar do que sabe e conhece em primeira mão, de até onde ele próprio chegou e viu. Por isso, mais adiante (X, 131, 1-2), depois de acabar de descrever a Ásia e a China – sugerindo fortemente que o Poeta evoca um caminho por si percorrido até chegar ao Império do Meio – termina aí a sugestão da viagem feita e põe a ninfa a dizer: ‘Inda outra muita terra se te esconde / Até que venha o tempo de mostrar-se…’. Claramente, o Japão; um lugar a que se vai, a partir de um lugar onde se está. E era, efectivamente, já nessa altura, a partir de Macau (donde não terá passado) que a famosa nau do trato (o kurofoné, o barco negro para os japoneses, por causa da cor de que era pintado) partia para o Japão. Daí trazia prata, de elevada qualidade, essencial para o comércio chinês da seda, da porcelana, e até do ouro. E foi isso que Camões cantou, demonstrando um conhecimento muito preciso deste negócio da prata, principal exportação do Japão: ‘Mas não deixes no mar as Ilhas onde / A Natureza quis mais afamar-se: / Esta, meia escondida, que responde / De longe à China, donde vem buscar-se, / É Japão, onde nace a prata fina, / Que ilustrada será co a Lei divina.’ (X, 131, 3-8). Já Boxer salientaria: ‘Se foi a procura de Cristãos e Especiarias que trouxe os portugueses à Ásia, em primeiro lugar, pode-se dizer que foram os Cristãos e prata as duas estrelas condutoras que em conjunto os guiaram nas suas viagens ao Japão por quase um século’, desde a chegada a Tanegashima, em 1543. Camões pode ter visto partir de Macau a Nau do Trato em direcção ao Japão, assistido ao carregamento no cais de Patane das sedas e do ouro chinês; e assistido, na estação seguinte, à sua chegada, a descarregar a prata em barra destinada a Cantão. – 2. A isto se liga a tradição da ‘Gruta’ de Camões. É que o cais de Patane, que os comerciantes naquela época utilizavam (e que deu origem ao primeiro bairro de Macau) está justamente no sopé do outeiro coroado de penedos que a tradição desde cedo estabeleceu ser frequentada pelo Poeta, aí desfrutando das boas vistas e dos bons ares. Ora, em 1911, o bibliotecário da Ajuda, Dr. Jordão de Feitas, descobriu um manuscrito, do século XVIII, com uma relação de bens de raiz do Colégio de Macau, pertencente aos Jesuítas, que identifica o ‘chão do campo dos patanes’, o mesmo ligado ao Poeta, como os ‘penedos de Camões’, apurando-se ser o lançamento original de, pelo menos, e seguramente, de entre 1632 e 1636 (data em que foi reitor do dito Colégio o padre António Cardim) ou mesmo, com probabilidade, de 1617 (data em que o livro, donde foi transcrito o lançamento, foi iniciado). Camões não era desconhecido dos Jesuítas, que, cedo chegando a Macau, aqui construíram a sua primeira residência em 1565 (foi jesuíta o primeiro bispo de Macau com residência efectiva, em 1568, na sede episcopal) e a sua primeira escola em 1572, esta elevada a Colégio em 1594, com o nome de S. Paulo. Era nos bens de raiz deste que figurava o chão do campo dos patanes, a que deram o nome de ‘penedos de Camões’. A descoberta de Jordão de Freitas veio trazer consistência e rigor histórico à tradição secular, fundada nos biógrafos e cronistas, porque, afinal, fundada na própria memória coeva do povo de Macau, pois não terá sido sem fundamento que o local era conhecido por ‘penedos de Camões’. É sabida a ‘importância da leitura no quotidiano ultramarino dos portugueses residentes ou estantes em paragens orientais e a rapidez da difusão de obras impressas’ entre a Península e o Oriente. Ora, após a publicação do poema épico em 1572, e sobretudo depois da morte, que lhe redobrou a fama, mais a mais com a opressão espanhola a acirrar a nostalgia da independência e sabendo-se de que lado havia estado o Poeta na crise sucessória de 1578-80, rapidamente Os Lusíadas se transformaram numa espécie de evangelho nacionalista. Para os Jesuítas, que melhor forma de resistência do que perpetuar o nome do autor numa das suas propriedades, aquela à qual estava ligada a memória da sua estada em Macau? – 3. Na linha da historicidade, e será o terceiro dos indícios de que falámos, existe outra das descobertas do século XX, a reforçar a atestação documental da tradição: o Cancioneiro de Cristóvão de Borges, colectânea manuscrita de poemas, ao gosto da época, a maioria de Camões, feita pelo desembargador do Paço desse nome, descoberto e publicado pelo professor da Universidade da Califórnia Arthur Lee-Francis Askins em 1979. Nesse cancioneiro podemos ler a 1.ª parte (poema do amor profano, constituída por 200 versos) de umas redondilhas, Sobre os rios que vão, encimadas da seguinte epígrafe: ‘De L. de C. a sua perdição na China’. E, ademais, com data precisa: 1578, o terminus ad quem da colectânea. Ou seja, ainda em vida do Vate. Ora, este desembargador e amante das letras não era uma pessoa qualquer. O Desembargo do Paço era o principal órgão da administração central. Era, por excelência, o Conselho Régio, presidido pelo próprio rei, e os seus membros tinham automaticamente carta de conselheiros. Tinham, além disso, assento na ‘mesa principal’ da casa da justiça, juntamente com o Regedor das Justiças, à qual o rei em regra estava presente. Cristóvão de Borges Peguas de Meireles, natural de Miranda do Douro, antigo juiz dos órfãos em Mirandela, e em Lisboa desde 1567, deve seguramente ter conhecido Camões, ou no mínimo obtido toda a informação sobre ele, pelo menos a atinente à ‘capitulação’ com que vinha de Goa e que sobre ele pesava quando chegou a Cascais em 7 de Abril de 1570. Esta ‘capitulação’, ou artigos de acusação, está relacionada com a perda dos bens ‘das partes’ (viúvas e órfãos dos defuntos), a ambos se referindo o seu biógrafo Pedro de Mariz, e com o “injusto mando executado” a que se refere Camões. Se não chegou a ser julgado e absolvido do crime de peculato no cargo orfanológico, terá sido perdoado pelo Desembargo do Paço, pois justamente a concessão de perdões vinha em primeiro lugar no elenco das cartas de privilégio que era uma das respectivas competências em matéria de graça. Num caso como noutro, Cristóvão de Borges sabia do que falava: ‘De L. de C. a sua perdição na China’. China, entre 1563 e 1566, já só significava Macau. E ‘perdição’, dito por um magistrado, só pode ter ressonância judicial, aliás em consonância com a ‘capitulação’ com que veio do Oriente. E só faz sentido admitir ter sido absolvido ou perdoado, pois só isso é compatível com a curta duração que vai da sua chegada a Cascais, em Abril de 1570, e a data em que se sabe já estar o poema épico na impressão (23 de Setembro de 1571), sabendo-se as várias formalidades a que o Poeta teve de se sujeitar para a impressão da obra (licenças várias, leitura do poema aos censores, alteração de textos por estes imposta, etc.). Não é de enjeitar também a influência no rápido sucesso deste caso do Regedor das Justiças, o mais alto magistrado do país, superior hierárquico de Cristóvão de Borges, com quem o Poeta revelou uma estranha familiaridade, até hoje inexplicada. – 4. Mas a revelação do Cancioneiro de Cristóvão de Borges veio caucionar duas outras fontes documentais da presença de Camões na China: uma, o Cancioneiro de Madrid, onde as mesmas redondilhas “Sobre os rios que vão…” aparecem sob esta epígrafe: ‘O psalmo super flumina, do mesmo poeta o qual compôs, indo para a China no qual caminho fez um grande naufrágio’; a outra, o anónimo comentário feito em 1584 à margem da pág. 187 da edição desse ano de Os Lusíadas: “começando a fortuna fauorecello, & tendo algum fato ja de seu, perdeose na viagem que fez pera a China”. Esta mesma anotação acrescentava que o Poeta compusera “aquelle cancioneiro, que diz: Sobre os rios que vão per Babylonia” na ocasião do naufrágio. Em Camões, Babilónia é Goa, e Sião a pátria longínqua cujas lembranças chorou ‘sobolos rios’. Uma segunda nota, comentando outra estância, esclarecia que Camões aportara “a este reino de Cambaia’ [erro evidente por Camboja], depois de se ter “perdido” na “viagem que fez à China”. – 5. Outros indícios da estada de Camões em Macau são as referências que Pedro de Mariz faz na biografia do Poeta, publicada na edição de 1613 de Os Lusíadas. Mariz, que tinha 30 anos no ano em que Camões morreu, dá conta de o Poeta ter sido provido “Provedor mòr dos defunctos aas partes da China” por um vice-rei (não se equivocou, mas omitiu o nome), tendo perdido “o das partes” no naufrágio que o perdeu, “de que elle faz menção na octava 128 do Cãto 10”, sendo a sugestão do naufrágio a de ter ocorrido no regresso da China. É ele quem fala da prisão do Poeta na Índia. Na mesma edição de Os Lusíadas são publicados uns comentários de Manuel Correia, que teria redigido a pedido de Camões e por este sido instado a publicá-los. Tendo morrido antes de o fazer, os papéis foram a leilão, onde Mariz os comprou e publicou. Aí se fazem referências ao naufrágio no regresso da China e à prisão pelo governador do Estado da Índia, “pela fazenda dos defunctos, que elle trazia a seu cargo, porque foy à China por Prouedor mor dos defuntos”. Se, como já foi demonstrado pela historiografia, o cargo de provedor-mor é altamente improvável que tenha sido exercido pelo Poeta, já o de simples provedor, ou de provedor-menor, se especialmente designado para Macau, não se desarticula daquilo que hoje se sabe já ser Macau a partir de 1560 e das interpretações do que significarão ‘o das partes’, o ‘injusto mando’, a ‘capitulação’ com que veio do Oriente e, sobretudo, porque é a esse cargo que se refere o cronista Diogo do Couto. – 6. Na verdade, e finalmente, Couto (c. 1542-1616) é uma das mais credíveis fontes da gesta oriental dos portugueses, o continuador das Décadas da Ásia iniciadas por João de Barros. E, para além da sua autenticidade, dá-se a circunstância de Couto se contar entre os amigos do ‘Príncipe dos Poetas do seu tempo’. Tendo chegado à Índia em 1559, logo aí terá conhecido o Poeta, pois quando o encontra em 1569 na Ilha de Moçambique trata-o como a um velho amigo e companheiro. E do testemunho de Couto, deixado na versão extensa da Ásia – Década VIII, ficamos a saber que Camões viajara para a China como “provedor dos defuntos” em tempos do governador Francisco Barreto (1555-1558), mas fora-se “perder na costa de Sião, onde se salvarão todos despidos”, donde conseguiu escapar “com as suas Lusiadas como elle diz nellas”. Couto era um homem meticuloso, que desde cedo se tornou coleccionador de materiais históricos, recolhendo de forma sistemática elementos relacionados com a gesta oriental dos portugueses e dispondo dos seus próprios elementos de arquivo, ‘fragmentos’, e ‘lembranças’, como ele próprio afirma. As memórias e as informações orais tiveram sempre uma grande importância nas fontes de Couto, que ouvia toda a gente, procurava pessoas e falava com testemunhas de acontecimentos, e até o inimigo capturado buscava na prisão para registar a versão dele; o que denota bem a sua preocupação pela verdade. Ora Couto teve oportunidade de conviver e conversar na ilha de Moçambique com o Poeta, dele saber das suas ocupações poéticas (por ele sabemos que Camões trabalhava “em hum livro que hia fazendo, que intitulava Parnaso de Luiz de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtáram”), dele cuidou e, com outros compatriotas, com quem se fintou, fez embarcar no Santa Clara o Poeta, com quem viajou, de Novembro de 1569 a 7 de Abril de 1570, quando aportaram a Cascais (uma vez que em Lisboa grassava a peste grande). Teve muito tempo para dele ouvir, em primeira mão, a sua narrativa. E provavelmente repetidas vezes, ao longo da viagem de vários meses, de regresso à Pátria. – 7. Infelizmente, a biografia de Camões esteve muitos anos sujeita à manipulação dos herdeiros dos Noronhas e dos Andrades da Anunciada, para esconder os amores do Poeta pelas duas damas da casa de Linhares, a ama (D. Violante, mulher do amo D. Francisco de Noronha, 2.º conde de Linhares) e a filha (D. Joana de Menezes), substituindo o nome de Violante pelo de Catarina e o de Joana pelo de uma moça chinesa, tentando tudo para que a verdade sobre esse e outros episódios da vida do Poeta com ele relacionados ficasse esquecida. O episódio da presença de Camões em Macau acabou por sofrer com isso. O furto da Década VIII, como o do Parnaso de Luiz de Camões, como outras falsificações que a historiografia atesta, foi só mais um desses golpes baixos a que aqueles deitaram mão para proteger o prestígio da poderosa casa fidalga. Também alguns erros, comuns nessa época (cronistas, impressores, revisores, chancelarias, todos os cometeram), contribuiram para obnubilar, durante muito tempo, a verdade sobre a vida do Poeta. Até Couto, ou o seu secretário por ele, ao reescrever a Década VIII em 1615, um ano antes da morte, menciona a nomeação de Camões para o cargo de provedor dos defuntos como em tempos do governador Francisco Barreto, no lugar do vice-rei D. Francisco Coutinho (10.1561-28.2.1564, data da morte). Também Mariz faz uma errada referência, provavelmente não inocente, na edição de 1613: é que não foi o governador Francisco Barreto quem deu a Luís de Camões voz de prisão na Índia, mas D. Antão de Noronha (1564-1569), um vice-rei. E é justamente a um vice-rei, sem o nomear, que Manuel Correia nos seus comentários atribui a voz de prisão (embora noutro passo diga ter sido o governador Francisco Barreto). Detectamos nos biógrafos e cronistas contemporâneos do Poeta um como que querer-e-não-querer dizer a verdade, mas, sem a coragem de a assumir, deixando pistas para lá chegar. Mas Mariz também cometeu erros inocentes: enganou-se no ano de chegada de Camões a Lisboa: 1569 por 1570. E muitos outros podem ser indicados. Por junto e atacado, podemos fixar entre 1563 e 1566 o período durante o qual Camões esteve em Macau; o primeiro porque ainda nesse ano, e na Índia, compôs uma elegia à morte do fidalgo D. Telo de Menezes, então ocorrida;o segundo porque o cargo de provedor dos defuntos era trienal, embora, com muita probabilidade, a função não tenha sido exercida até final. Por uma vez, e por tudo o que ficou dito, a tradição ganhou foros reforçados de autenticidade. Bibliografia: Askins, Arthur Lee-Francis, The Cancioneiro de Cristóvão de Borges (Lisboa, 1979); Cruz, Maria Augusta Lima, Diogo do Couto e a Década 8.ª da Ásia, 2 vols., (Lisboa, 1994); Ferreira, Joaquim, Camões – Dúvidas e Acertos, (Porto, 1960); Loureiro, Rui Manuel, Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI (Lisboa, 2000); Loureiro, Rui Manuel, “Camões em Macau – Um Mito Historiográfico”, in Revista de Cultura, n.º 7, (Macau, 2003); Ribeiro, Eduardo A. Correia, “Camões – Um Poeta na Periferia de Dois Impérios”, Ponto Final, (Macau, 2006); Saraiva, José Hermano, A Vida Ignorada de Camões – Uma História que o Tempo Censurou, (Mem Martins, 1995); Teixeira, Padre Manuel, Camões Esteve em Macau, (Macau, 1999).
CAMÕES, LUÍS VAZ DE (1517 ou 1524-1579)
BARREIROS, LEOPOLDO DANILO (1910- 1994). Nascido em Lisboa, Leopoldo Danilo Barreiros emigra para o Brasil aos quinze anos de idade e regressa a Portugal em 1927, vivendo posteriormente na Bélgica, onde começa a estudar Engenharia. Em 1930 regressa ao Brasil, viajando depois até à Conchichina e, em 1931 chega a Macau, onde casa com Henriqueta Clarissa Augusto Pacheco Jorge (23-04-1938). Em 1956, o funcionário público parte para S. Tomé e Príncipe como notário, voltando, quatro anos depois, a Portugal, onde se licencia em Direito, sendo advogado em Lisboa (1957-1966) e consultor jurídico da Embaixada da Suécia, país que o agracia com a Ordem da Estrela do Norte; secretário da direcção da Diamang, Companhia de Diamantes de Angola (1948-1956), e notário público em São Tomé (1956-1957). Em Macau, Leopoldo é operário da Companhia de Electricidade, ocupando, entre 1932 e 1933, o cargo de terceiro aspirante da Direcção dos Serviços da Fazenda e Contabilidade, e, entre 1934 e 1935, o de delegado-recebedor da Fazenda das ilhas de Taipa e Coloane. O autor é ainda professor dos ensinos primário e secundário, entre 1936 e 1942, correspondente dos jornais Diário de Notícias, A Noite, Vamos Ler (Rio de Janeiro), e fundador, com outros habitantes de Macau, da revista Renascimento, na qual publica quatro novelas policiais (A Morte do Banqueiro, Kriss Malaio, Tesouro dos Ming e Crime Perfeito). Barreiros publica ainda a Antologia do Dialecto Macaense; As Marcas da Porcelana Chinesa; “A Carreira Militar de Santo António na Cidade de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, n.º 408, 1938, 8 pp.; “Instrução que o Senado da Câmara de Macau Oferece ao Exmo. e Rmo. Sr. D. Alexandre de Gouvea, Bispo de Pekim”, publicado no mesmo Boletim; A Paixão Chinesa de Wenceslau de Morais, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1955; “O Testamento de Camilo Pessanha”, Boletim do Rotary Club de Setúbal, n.º 128, 1971, pp. 1-5 (texto reproduzido na antologia de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves, De Longe à China: Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas, vol. 3, pp. 1239-1255), deixando, inédito, o “Vocabulário Macaense”. Luís Gonzaga Gomes, em forma de agradecimento por Danildo Barreiros lhe ter fornecido um panfleto histórico raro, apresenta, ao publicar o mesmo (Historia do Naufragio Acontecido em 1827 ao Navio Portuguez Nova Aurora da Praça de Macao do Propietario e Capitão Vicente Francisco Baptista. Aventuras dos Naufragos, e outros Sucessos que Experimentárão em Onze meses e Dezoito dias, até Chegarem a Singapore.), uma breve biografia do advogado, elogiando a “marcante personalidade” e a persistência que o caracterizam desde que chega a Macau, vindo “à aventura”. Bibliografia: BARREIROS, Leopoldo Danilo, A Paixão Chinesa de Wenceslau de Morais, (Lisboa, 1955); BARREIROS, Leopoldo Danilo, “O Testamento de Camilo Pessanha”, in Boletim do Rotary Club de Setúbal, n.° 128, (Setúbal, 1971), pp. 1-5; GOMES, Luís Gonzaga (ed.), “Historia do Naufragio Acontecido em 1827 ao Navio Portuguez Nova Aurora da Praça de Macao do Propietario e Capitão Vicente Francisco Baptista. Aventuras dos Naufragos, e outros Sucessos que Experimentárão em Onze meses e Dezoito dias, até Chegarem a Singapore”, in Boletim do Instituto Luís de Camões, vol. 6, n.°s. 3-4, (1972), pp. 177-191; SANTOS, Carlos Pinto, “Danilo Barreiros: A Vida numa Rajada de Vento”, in MacaU, 2.ª série, n.° 19 (Macau, 1993), pp. 83-101; SANTOS, Carlos Pinto e Orlando Neves, De Longe à China: Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas, vol. 3, (Macau, 1996); FORJAZ, Jorge, Famílias Macaenses, vol. 1, (Macau, 1996), pp. 391-392.
BARREIROS, LEOPOLDO DANILO (1910- 1994)
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?). O diplomata e poeta Martinho Teixeira Homem de Brederode nasceu em Lisboa no dia 15 de Abril de 1866. Depois de concluir o Curso Superior de Letras, iniciou a carreira diplomática em 1889, ocupando o lugar de adido na Legação de Portugal em Bruxelas. Após a sua passagem pela Direcção Geral dos Negócios Políticos e Diplomáticos, foi colocado na Legação portuguesa de Tânger, como 2.º Secretário, onde chegou em Janeiro de 1906. Acabou por exercer interinamente as funções de Encarregado de Negócios. A sua promoção a 1.º Secretário conduziu-o a Pequim, nomeado por decreto de 14 de Março de 1907. As suas obrigações em Tânger adiaram a sua ida para a capital chinesa, onde chegou no dia 2 de Dezembro desse ano, assumindo a gerência da Legação na qualidade de Encarregado de Negócios. Em Pequim, onde permaneceu até 1912, Homem de Brederode foi uma testemunha atenta ao desenrolar da vida política chinesa, num período marcado pelos acontecimentos que acompanharam o fim da dinastia Qing 清 e a proclamação da república em 1911- 1912. A complexidade da situação política chinesa e as suas implicações em Macau, colocaram-no em contacto permanente com o Governador do Território. A sua capacidade de análise e de interpretação sobre o período de crise política, económica e social que atravessou a China, pode ser testemunhada nos inúmeros ofícios e telegramas que remeteu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Os lugares que ocupou e as missões que lhe foram confiadas foram sempre desempenhados com brio e empenho, tendo sido louvado, por portaria de 15 de Outubro de 1912, pela coadjuvação que prestou ao chefe da missão portuguesa no centenário da constituição de Cádiz. Homem de Brederode encontrava-se em Bucareste quando se aposentou em 1939. Foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, da Ordem da Coroa da Roménia, da Ordem de S. Sava da Jugoslávia e da Ordem do Duplo Dragão Imperial Chinês. Homem de Brederode foi Comendador das Ordens de Santiago da Espada e de S. Maurício e S. Lázaro de Itália. Para além de oficial da Legião de Honra (em França), Homem de Brederode foi ainda nomeado Cavaleiro da Ordem de Carlos III. Martinho Homem de Brederode, para além da sua actividade diplomática foi ainda um homem de letras tendo deixado escritas três obras poéticas Charneca (1981), Pó da Estrada (1898) e Sul (1905) e, ainda, um romance, A Noite de Amor (1894), este último sob o pseudónimo de “Marco Sponti”. Bibliografia: Annuario Diplomático e Consular Português Relativo aos Annos de 1910 a 1913, (Lisboa, 1913); Anuário Diplomático e Consular Português de 1925, (Lisboa, 1926); Anuário Diplomático e Consular Português de 1928-1929, (Lisboa, s.d.).
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?)
BINGHAM, COMANDANTE J. ELLIOT ou BINGHAM, JOHN ELLIOT (?-?). Tenente inglês (corveta HMS Modeste) que participa na Guerra do Ópio juntamente com o capitão Charles Elliot. Bingham entra ao serviço da Marinha em Setembro de 1820 e é promovido a comandante em 1841, sendo autor da obra Narrative of the Expedition to China from the Commencentof the War to its Termination in 1842 with Sketches of the Manners and Customs of that Singular and Hitherto Almost Unknown Country, dois volumes, 1841, na qual descreve a captura de Cantão e inúmeras outras batalhas navais, bem como, no capítulo 4, Macau, onde, de acordo com o próprio, permanece algum tempo. O autor começa por descrever a posição geográfica da península, a chegada dos portugueses à mesma e o seu estabelecimento, sobretudo a construção da muralha em que se encontra a Porta do Cerco. O viajante, contextualizando um dos episódios bélicos entre ingleses e chineses, afirma que a Taipa e os restantes ancoradouros do território foram, até aos conflitos sino-britânicos, considerados neutrais, descrevendo o uso que os chineses fazem do enclave durante a guerra. São ainda descritos o poder e a vigilância dos chineses (mandarim da Casa Branca) na cidade, podendo os portugueses apenas governar os seus compatriotas e os demais residentes ocidentais através do governador e do Senado, cujas funções, direitos e deveres são igualmente apresentados. As casas, algumas das quais ao longo da “Praya Grande”, são descritas como robustas, ladeadas por estreitas ruas com pavimento horrível, perguntando-se o viajante: “em que outra cidade portuguesa não é assim?”. A urbe é considerada a mais europeia do Oriente português, contando com cinco fortes inexpugnáveis e treze igrejas onde reina o fanatismo dos padres, tratando-se de um olhar protestante sobre Macau que descreve igualmente o espaço chinês, com o seu confuso labirinto de vielas em que se acumulam uma corrente de comerciantes e compradores. Os passeios a pé e a cavalo dos ingleses; o comércio decadente; as rendas elevadas cobradas aos estrangeiros são também referidos, bem como a população (trinta e cinco mil habitantes, dos quais apenas cinco mil são súbditos portugueses, que se casam com chinesas), vaticinando o visitante ao referir que o comércio de Macau beneficiou com a Guerra do Ópio, pois os vendedores de Cantão abriram lojas no enclave: “o novo estabelecimento de Hong Kong em crescimento retirará brevemente a Macau a sua última esperança comercial, e a cidade tornar-se-á apenas uma recordação daquilo que já foi.” Bingham transcreve ainda frases em Chinese Pidgin English proferidas por comerciantes chineses (“Can sendee, then catchee tolha”), adensando assim a cor local da sua descrição através do registo linguístico. Entre muitos outros militares referidos pelo viajante encontra-se o capitão Sir Edward Belcher (1799-1877), comandante de uma expedição da Marinha Real inglesa ao Sul da China em Dezembro de 1840, durante a Guerra do Ópio, tendo participado na fundação da Hong Kong e nas tentativas de tomada de Cantão, regressando posteriormente à Inglaterra. O testemunho no relato da viagem de Belcher é hostil para com o capitão Charles Elliot, referindo a inimizade nas cartas privadas que este envia do Oriente. Belcher relata a sua estada em Macau, bem como a acção de Charles Elliot no enclave, na obra Narrative of a Voyage Round the World, Performed in Her Majesty’s Ship Sulphur, During the Years 1836-1842, Including Details of the Naval Operations in China, from Dec. 1840, to Nov. 1841. Já após a fundação de Hong Kong, o comandante do Sulphur afirma dirigir-se desta colónia para Macau, pois tal visita seria benéfica para a sua tripulação, que aí poderia descansar e ser hospitalizada, acabando por se encontrar na cidade com os plenipotenciários ingleses, ouvindo os relatos das suas aventuras. Macau funciona como estância balnear e, devido às estruturas e instituições há muito estabelecidas, como hospital e local de descanso para os residentes ingleses de Hong Kong, pois, como Bingham afirma na sua narrativa, foi alugado na cidade um edifício amplo para ser convertido em hospital naval, existindo ainda um outro hospital, financiado por subscrição pública da Medical Missionary Society, que assiste ocidentais e chineses. Dignas de menção são ainda as várias construções do Templo da deusa Matsoo-poo (A-má) (Mage Miao 媽閣廟) e a Gruta de Camões, visitada por todos os estrangeiros, sendo o aspecto deste último monumento criticado e longamente descrito. De seguida, breves apontamentos etnográficos familiarizam o futuro visitante com a cultura dos tancás (caso o primeiro queira fazer um passeio fluvial marcado pela presença feminina); com o Ano Novo Chinês; com o vestuário dos nativos, o jogo; o teatro chinês; os guarda-nocturnos; os diversos vendedores ambulantes, os produtos comercializados e as formas de os vender; os pedintes e os malabaristas que constituem o quadro humano descrito e que marcam presença em muitas outras descrições inglesas de Macau. Bibliografia: BINGHAM, Commander J. Elliot, Narrative of the Expedition to China from the Commencement of the War to its Termination in 1842 with Sketches of the Manners and Customs of that Singular and Hitherto Almost Unknown Country, 2 vols., 2 .ª edição, (Londres, 1843); BELCHER, Captain Sir Edward, Narrative of a Voyage Round the World, Performed in Her Majesty’s Ship Sulphur, During the Years 1836-1842, Including Details of the Naval Operations in China, from Dec. 1840, to Nov. 1841, 2 vols., (Londres, 1843); EITEL, E. J., Europe in China: The History of HongKong from the Beginning to the Year 1882, (Londres, 1895); MORSE, Hosea Ballou, The Gilds of China, (Nova Iorque, 1909); MORSE, Hosea Ballou, The International Relations of the Chinese Empire, vol. 1, (Londres, 1910); MORSE, Hosea Ballou, The Chronicles of the East India Company Trading to China 1635-1834, vol. 1, (Oxford, 1926); COSTIN, W. C., Great Britain and China 1833-1860, (Oxford, 1937); COLLIS, Maurice, Foreign Mud: Anglo-Chinese Opium War, (Londres, 1946); GREENBERG, Michael, British Trade and the Opening of China 1800-1842, (Cambridge, 1951); HOLT, Edgar, The Opium Wars in China, (Londres, 1964); BEECHING, Jack, The Chinese Opium Wars, (Londres, 1975); GRAHAM, Gerald, The China Station: War and Diplomacy 1830-1860, (Oxford, 1978); HOE, Susanna e Derek Roebuck, The Taking of Hong Kong: Charles and Clara Elliot in China Waters, (Richmond, 1999).
BINGHAM, COMANDANTE J. ELLIOT ou BINGHAM, JOHN ELLIOT (?-?)
Autor de obras como As Mãos e os Frutos (1948), entre muitas outras, que visita Cantão e Macau, em Outubro de 1990, estada da qual é fruto o grupo de poemas intitulado Pequeno Caderno do Oriente, ilustrado por Carlos Marreiros e publicado no Jornal de Letras e na Revista de Cultura. O Caderno é composto por doze textos, nomeadamente poesias, apontamentos e prosas poéticas, alguns dos quais traduzidos para inglês e complementados pelas ilustrações de Carlos Marreiros, elaboradas em Novembro de 1993. O primeiro texto desenvolve-se em torno da figura do “mestre” Camilo Pessanha, o segundo, “Ofício da Paciência”, descreve a azáfama diária da vida na “Baía das Pérolas”, cuja ponte, rumo à Taipa, é comparada a uma garça, sendo a caracterização da cidade conse¬guida através da enumeração. O poema “Jardim de Lou Lim Leoc” (Lulianruo Gongyuan 盧廉若公園) funciona como repositório de memórias orientais, seguindo-se um texto narrativo e um poema sobre “As Pedras”, nomeadamente “A Pedra Profunda”, enquanto “As Montanhas Verdes” começa como um conto e termina como uma elaborada recordação de um amigo que desvendara a poesia da China ao sujeito lírico, que se encontra no Hotel Mandarim Oriental, observando as verdes montanhas do Império do Meio, a Baía da Praia Grande e o álbum de reproduções de pinturas de George Chinnery. Seguem-se o “Templo da Barra”; o “Canto Solar”, a “Balança” e um texto “Em Defesa de Camões”, que descreve o ambiente que envolve a mítica Gruta de Camões, pedindo ao Leal Senado que mande retirar as vergonhosas e medíocres composições poéticas que rodeiam o monumento. As impressões visuais continuam, agora em movimento, “[…] ardendo entre águas e a bruma”, descrevendo a “Aproximação de Coloane”. O último texto do Pequeno Caderno, intitulado “O Nome da Água”, descreve a visita ao cemitério onde se encontram as sepulturas de Camilo Pessanha e da sua família chinesa, poeta que “escrevera o seu nome na água”, conferindo assim uma ciclicidade temática à obra através de um dos mais conhecidos poetas portugueses que viveu em Macau. Bibliografia: ANDRADE, Eugénio de, “Pequeno Caderno do Oriente”, desenhos de Carlos Marreiros, in Revista de Cultura, n.° 18, 2.ª série, edição inglesa, Janeiro-Março de 1994, (Macau, 2002); ANDRADE, Eugénio de, Com Palavras te Amo, (Macau, 1990); NAVA, Luís Miguel, Eugénio de Andrade, 1957-1995, in col. “Essencial”, n.° 26, (Lisboa, 1987); ARRIMAR, Jorge de Abreu (coord.), Eugénio de Andrade: Exposição Bibliográfica, (Macau, 1990); ANÓNIMO, Eugénio de Andrade: Retratos, (Macau, 1990); ANÓNIMO, “Eugénio in Macau-Loving with Words”, in Review of Culture, edição inglesa, n.°s. 11/12, (Macau, Setembro de 1990-Fevereiro de 1991), pp. 111-119; ANÓNIMO, “The Alliances of Desire”, in Review of Culture, edição inglesa, 2.ª série, n.° 18, (Macau, Janeiro-Março de 1994), pp. 137-138; SANTOS, José da Cruz (coord.), Eugénio de Andrade: O Amigo Mais Íntimo do Sol: Fotobiografia, apresentação de Luís Miguel Nava e Ângelo Crespo, (Porto, 1998).
ANDRADE, EUGÉNIO DE (1923-2000)
BEAUVOIR, CONDE LUDOVIC DE (1846-1929). Visita Macau como acompanhante do duque de Penthiève, primo do rei de Portugal por via materna, em 1867, regressando a França nesse mesmo ano, de onde partira, em 1866, para dar a volta ao mundo. Em 1869, o conde de Beauvoir publica Australie et Java, Siam, Canton, em dois volumes, e três anos mais tarde, Pékin, Yeddo, San Francisco, a terceira parte da sua viagem. O viajante chega ao “pavilhão europeu” a bordo do vapor norte-americano Fire- Dart, em 11 de Fevereiro de 1867, e deambula pelas principais atracções turísticas da cidade, incluindo os barracões onde permanecem os cules antes de serem enviados para o continente americano, prática longamente descrita e criticada. Pelas ruas de Macau, Beauvoir compara as casas de granito a prisões, observando macaenses e mestiços no exterior, onde, após o pôr-do-sol, nada há para ver senão os teatros chineses, descritos pelo autor, embora mais tarde, descreva também as casas de jogo da cidade, Mónaco da China e península em forma de uma pegada humana. São ainda referidos e descritos os fortes, as igrejas e os templos da cidade, bem como a Praia Grande, a Gruta do poeta exilado (Camões), no topo da qual se encontra um “observatório”; a paisagem humana adornada pelas mulheres cobertas de mantilhas e a população do território (125 mil chineses, dois mil portugueses). Breves apontamentos históricos referem a fundação portuguesa da cidade; a morte do governador Ferreira do Amaral; as ocupações militares inglesas da cidade (1802, 1808) e a fundação de Hong Kong, que “mata” o antigo entreposto português, antes da descrição da chegada do autor a Cantão, a bordo de uma canhoneira cedida pelo governador José da Ponte e Horta. Bibliografia: BEAUVOIR, Conde de, Voyage Autour du Monde, (Paris, 1869-1870); BEAUVOIR, Conde de, Java, Siam, Canton, (Paris, 1872); BEAUVOIR, Conde de, Pékin, Yeddo, San Francisco, 5.ª edição, (Paris, 1872); LOMBARD, Denis, “O Conde de Beauvoir e Macau (Fevereiro de 1867): Impressões de Macau do Conde de Beauvoir”, in Revista de Cultura, 2.ª série, n.° 23, (Macau, Abril-Junho de 1995), pp. 96-110.
BEAUVOIR, CONDE LUDOVIC DE (1846-1929)
AUDEN, W. H. (1907-1973). Durante a sua viagem pela China (1937-1938) aquando da guerra sinojaponesa o poeta inglês W. H. Auden (Wystan Hugh Auden) recolhe, na companhia de Christopher Isherwood, impressões para redigir Journey to a War (1939), acabando por visitar Hong Kong, em Fevereiro de 1938, bem como Macau, entrepostos comerciais que descreve comparativamente em dois sonetos em verso branco redigidos em Bruxelas durante o mês de Dezembro de 1938. O poema “Macao” apresenta uma imagem dupla do território, sendo o exotismo e o prazer sem peso do pecado uma das suas principais características, esterótipos facilmente associados ao Oriente pelo turista ou viajante ocidental. Enquanto a comercial Hong Kong não agrada nem a Auden nem ao sujeito poético, Macau, “a weed from Catholic Europe”, ganhou raízes entre as montanhas e o mar. O texto lírico, predominantemente descritivo, apresenta um policromático ‘retrato’ do enclave através das suas casas alegres, um “exótico fruto” que simboliza a singularidade das vivências portuguesa e chinesa da cidade. O olhar protestante do “eu lírico” demora-se nas imagens e estátuas de santos de estilo rococó que prometem salvação aos jogadores, enquanto igrejas se acomodam, lado a lado, com casas de prazer, materialização espacial do “comportamento natural” do ser humano que a fé pode perdoar, imagem esta continuada nos tercetos. Erotismo rima, portanto, com exotismo, através do campo semântico constituído pelos adjectivos utilizados, por entre vielas e edifícios da urbe, recordando os relógios e sinos das altaneiras torres católicas que o inferno poderá esperar os mais temerosos que se entregam aos mistérios do Oriente, rodeados por uma vivência também ocidental. Macau é, como revela o símile botânico utilizado no texto, caracterizado como um “enxerto cultural” ou erva daninha luso-sínica, advindo daí a sua singularidade e o facto de o território representar metaforicamente as fraquezas ‘da carne’ e as virtudes da natureza humana. A dimensão exotica assume no poema uma sugestiva proeminência que se repete no imaginário ‘inglês’ relativamente a Macau e que recompensa o viajante que se depara com a familiaridade da “infantil”, porque inocente, porta de entrada do Ocidente na China. Bibliografia: AUDEN, W. H., Collected Poems, introdução e notas de Edward Mendelson, (Londres, 1991 [1976]); BAKER, Donald C.; BAKER, Elizabeth D., “A Great English Poet on China, Hong Kong and Macao: W. H. Auden and a “Weed from Catholic Europe””, in Review of Culture, 2.ª série, n.º 25, edição inglesa, (Macau, 1995), pp. 241-248; CARPENTER, Humphrey, W. H. Auden: A Biography, (Londres, 1981); DAVENPORT-HINES, Richard, Auden, (Londres, 1995); PUGA, Rogério Miguel, ““Macao” e “Hong Kong” de W. H. Auden: Uma Abordagem Comparativista”, in Administração: Revista de Administração Pública de Macau, vol. 15, n.º 55:1, (Macau, 2002), pp. 325-338.
AUDEN, W. H. (1907-1973)
BENYOWSKY, CONDE MAURITIUS AUGUSTUS (1746-1786). Filho do conde Samuel Benyowsky, general do exército austríaco, no qual se alista, lutando na Guerra dos Sete Anos. Os bens do jovem eslovaco são-lhe retirados por Maria Teresa de Áustria, fugindo este para a Polónia, tendo estudado na Europa. Lutando contra os russos, Móric Benyowsky acaba por ser exilado na Sibéria (1770), escapando posteriormente para realizar uma longa viagem rumo ao Japão, onde não é autorizado a desembarcar, dirigindo-se para a Formosa, de onde parte, em 12 de Setembro de 1771, para Macau, onde chega, doente, a 22 desse mesmo mês, após cinco meses de viagens. Entre 20 a 50 dos 70 membros da tripulação acabam por falecer, doentes, no enclave. O relato ou diário da viagem e as Memórias do viajante descrevem a estada e os negócios do mesmo na cidade com a Companhia das Índias francesa e a venda de peles trazidas da Sibéria, contactando o autor com as autoridades mandarínicas e com o governador Diogo Fernandes Salema de Saldanha, a quem pede ajuda para a sua tripulação moribunda e entrega o barco como garantia do pagamento das despesas. O governador autoriza os membros da tripulação a arrendar casas até poderem voltar para a Europa, vindo, como já referimos, alguns deles a falecer. Em Outubro e Dezembro, o Leal Senado, através de quem o conde vendera dois dos seus barcos, decide pagar, dos cofres da cidade, a comida, os salários e as casas da tripulação. O governador e o conde encontram-se diversas vezes, chegando o primeiro a albergar o visitante no palácio quando este último adoece, enquanto as mulheres do território fazem companhia às da tripulação e a cidade oferece ao viajante um valioso presente em ouro e cetim. A descrição da urbe não será das mais ricas, desejando o autor do diário visitar Pequim. As Companhias das Índias inglesa e holandesa (EIC e VOC), acabam por tentar conquistar os serviços e algumas informações do conde, oferecendo-lhe elevadas quantias monetárias. No entanto, o primeiro decide negociar com a Companhia francesa em troca de passagem segura de Macau para a Europa num dos barcos da mesma. Stephanow, um dos membros da tripulação de Benyowsky, acaba por conspirar contra este último, planeando vender o diário de bordo e outros documentos do conde à EIC, chegando o revoltoso a tentar atingir o conde com um tiro de pistola, sendo preso com outros conspiradores no “castelo” (forte) do Monte, enquanto membros leais da tripulação capturam um judeu que servira de agente para os ingleses. Os sobrecargas ingleses comunicam estrategicamente aos chineses que os visitantes húngaros são piratas fugidos dos russos, levando o vice-rei de Cantão a exigir de Macau a entrega da tripulação ou a sua expulsão da cidade. O governador aconselha o conde, agora doente e a residir no palácio do primeiro, a fingir-se doente até que os barcos franceses estejam prontos para partir. Benyowsky pede ao governador que se mantenha neutral e resolve o problema com as autoridades chinesas, partindo do enclave em 14 de Janeiro de 1772, viajando até Cantão, onde embarca no Dauphin, e alguma da sua tripulação no Laverdi, deixando a China para chegar a França em Junho, após uma estada atribulada mas pautada pela hospitalidade de Macau. São inúmeras as edições da sua obra em toda a Europa e a figura do viajante inspira ainda diversas obras literárias e musicais, entre as quais romances (Lisa Mühlbach, Graf von Benjowsky: Historicher Roman, 4 vols., Jene, 1865 e L. M. Demin, Katorzhnik Inperatour, Moscovo, 1998), peças de teatro (August Friedrich Ferdinand von Kotzebue, Graf von Benyovsky, Ausburg, 1792, traduzida para inglês, por Benjamim Thompson como The Conspiracy of Count Benyowsky, Londres, 1800), óperas (Alexander Duval, Benjowsky, ou les exiles du Kamchatka, ópera cómica, Paris, 1800) e várias biografias. Bibliografia: Manuscritos do e sobre o conde encontram-se nos seguintes locais: Library of Congress, Manuscript Division, Washington, D.C.; American Philosophical Society (Filadélfia); The British Library: OIR Collections: IOR/G/12/19, ff. 3-6, 9-11; Archives Nationales de France. Section Outre-Mer, Colonies et Marines ; Archives Nationales de France e Archive de l’ Ile Maurice (França); Archives de l’Académie Malagache (Madagáscar). BENYOWSKY, Mauritius Augustus, The Memoirs and Travels of Mauritius Augustus Count de Benyowsky, Magnate of the Kingdoms of Hungary and Poland and one of the Chiefs of the Confederation of Poland, 2 vols., (Londres, 1789); BENYOWSKY, Mauritius Augustus, The Memoirs and Travels of Mauritius Augustus Count de Benyowsky in Siberia, Kamchatka, Japan, the Liukiu Islands and Formosa, trad. William Nicholson, (Londres, 1893); TEIXEIRA, Padre Manuel, O Conde Benyowsky em Macau, (Macau, 1966); PEREIRA, João Feliciano Marques, “A Gruta de Camões: Impressões e Reminiscências”, in Ta- Ssi-Yang-Kuo: Arquivos e Annaes do Extremo Oriente, vols. 3-4, (Macau, 1984); SENA, Tereza, “Some Hungarian Adventurers in Macao, Formosa and China in the Late Eighteenth Century (1771-1772), in Review of Culture, edição inglesa, 2.ª série, n.° 30, (Macau), pp. 79-100.
BENYOWSKY, CONDE MAURITIUS AUGUSTUS (1746-1786)
Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu em Leiria, em 30 de Janeiro de 1925. Concluiu, em 1949, o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O facto de, em 1949, ter casado com José Marcos Batalha, natural de Macau, determinou que a sua actividade profissional se desenvolvesse em Macau, inicialmente, na Escola Primária Oficial. De 1958 a 1959, foi leitora Honorária de Português, no Department of Modern Languages, da Universidade de Hong Kong, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesas. A partir de 1962, trabalhou como professora no Liceu Nacional Infante D. Henrique, em Macau. Exerceu ainda a função de Directora da Escola do Magistério Primário. Para além da actividade docente, colaborou em diversos periódicos de Macau, jornais e revistas, sobre temas de literatura portuguesa, educação e ensino do Português. Toda a sua actividade, principalmente a actividade docente, aparece reflectida no seu livro de memórias Bom Dia S’tôra (1991), pelo qual lhe foi concedido o prémio IPOR (Instituto Português do Oriente). Foi sobretudo ao dialecto macaense que dedicou a maior parte da sua investigação, exposta em conferências, comunicações e em diversos artigos publicados: “Aspectos da sintaxe macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “Aspectos do vocabulário macaense: apontamentos para um estudo do falar actual de Macau” (Mosaico, 1953); “A contribuição malaia para o dialecto macaense” (Boletim do Instituto Luís de Camões, 1965); “Língua de Macau: o que foi e o que é” (Revista de Cultura, 1994); “Situação e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Ásia Oriental (Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia)”, (Actas – Congresso sobre a Situação Actual da Língua Portuguesa no Mundo [Lisboa, 1985-1987]); “Estudo actual do dialecto macaense” (Revista Portuguesa de Filologia, 1958). No Glossário do Dialecto Macaense: notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) e no Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense: novas notas linguísticas, etnográficas e folclóricas (Macau, 1988) reuniu a herança linguística dos portugueses de Macau. No Glossário, Batalha inclui os termos macaenses “de criação ou importação recente, as palavras antigas, mas ainda usuais, as que se ouvem apenas a determinada geração, a mais idosa, e finalmente as que nem mesmo os mais velhos já empregam, que por vezes inteiramente desconhecem, ou de que só se recordam, nem sempre com exactidão, por as terem ouvido aos seus avós”. Para a recolha de termos antigos, Batalha valeu-se dos textos em crioulo, nomeadamente de Marques Pereira, publicados na revista Ta Ssi-yan Kuo (Daxiyangguo 大西洋國) e de Danilo Barreiros, publicados na revista Renascimento, e ainda de conversas ocasionais com pessoas idosas, e através de inquéritos. O Glossário evidencia os termos usados no crioulo macaense, os termos arcaicos da língua portuguesa, a influência malaia, indiana, japonesa, a influência chinesa e inglesa mais recentes, e que estão presentes no falar macaense.
BATALHA, GRACIETE AGOSTINHO NOGUEIRA (1925-1992)
Personagem: | Bocage, Manuel Maria Barbosa du, 1765-1805 |
Tempo: | Dinastia Qing entre 1760 e 1844 |
15/09/1765 | |
21/12/1805 | |
04/04/1786 | |
06/06/1784 | |
11/09/1788 | |
10/08/1797 |
Pessoa responsável: | Maria Tereza Sena |
Fonte: | Dicionário Temático de Macau, Volume I, Universidade de Macau, 2010, p. 191-192. ISBN: 979-99937-1-009-6 |
Identificador: | i0001157 |
Instruções de uso
Já tem a conta da "Memória de Macau"? Login
Comentários
Comentários (0 participação(ões), 0 comentário(s)): agradecemos que partilhasse os seus materiais e histórias (dentro de 150 palavras).