
Informações relevantes
Data de atualização: 2020/09/03
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819). Nascido em Macau e baptizado na Sé, em 1746, Manuel Joaquim Barradas de Azevedo era neto de um “reinol” que, de seu nome Gaspar Barradas de Azevedo, conseguiu prosperar no início do século XVIII investindo nos tratos mercantis da cidade e, como sempre acontecia, chegando à vereação camarária e à mesa da Santa Casa da Misericórdia. A fortuna deste primeiro Barradas de Azevedo passaria para o seu filho varão Sebastião, mas seria consolidada e ampliada pelo seu activo neto Manuel Joaquim. À imagem do avô, cerzindo estreitamente poder económico e representação política, encontrámos Manuel de Azevedo a ocupar sucessivamente os cargos de almotacé camarário, em 1778, depois de alferes-mor, em 1792, chegando no ano seguinte à prestigiada posição de juiz ordinário do, nesta altura, ainda poderoso, Leal Senado. Em 1777, um estratégico casamento com Francisca Antónia Correia de Liger permite concretizar uma aliança fundamental com uma das mais poderosas dinastias políticas e comerciais da parte cristã do enclave. Ao lado do todo poderoso António Correia de Liger, muitas vezes vereador, procurador do Senado e provedor da Santa Casa, e do seu filho Filipe Correia de Liger, Manuel Barradas de Azevedo investe regularmente vários milhares de taéis de prata, sobretudo a partir de 1779, nos barcos e principais destinos comerciais animados por Macau: da Cochinchina a Surate, de Timor a Batávia. Acabaria por falecer na Sé, em 1819, mas deixando descendência que continuou a sua lucrativa actividade mercantil, mas já conveniente e estrategicamente baptizada com o poderoso apelido de Correia de Liger. Bibliografia: SOUSA, Ivo Carneiro de, A Outra Metade do Céu de Macau. Escravatura e Orfandade Femininas, Mercado Matrimonial e Elites Mercantis (Séculos XVI-XVIII), (Macau, 2006).
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819)
CAMPBELL, JAMES DUNCAN (1833-1907). Com o nome chinês Jin Denggan 金登干, nasceu em Edimburgo, em 1833. Estudou no “Cheltenham College” e nas universidades de Paris e de Heidelberg. Em 1862, veio para a China e entrou nas Alfândegas Marítimas Imperiais da China, onde foi secretário-geral do Inspector-Geral, Horatio Nelson Lay. Quando Sir Robert Hart sucedeu a Horatio Nelson Lay no cargo de Inspector-Geral das Alfândegas Marítimas Imperiais da China, foi reconduzido e tornou-se no favorito do novo Inspector-Geral. Em 1868, foi mandado em missão oficial à Europa, em representação do Governo chinês, por recomendação de Sir Robert Hart. Quando este decidiu criar a Representação das Alfândegas Marítimas Imperiais da China, em Londres, em 1874, foi escolhido para chefiar esta missão, cargo que exerceu até 1907, ano do seu falecimento. Durante o seu mandato, o qual durou 33 anos, ajudou o Governo chinês a adquirir equipamentos mecânicos e armamentos, a contrair empréstimos e a contratar funcionários estrangeiros, entre outras coisas. Sob a orientação directa de Sir Robert Hart, teve intervenções várias nas relações da China com o resto do Mundo, das quais destacamos o seu papel nas negociações do Protocolo de Lisboa, de 1886, que conduziu à conclusão do Tratado Luso-Chinês de Amizade e Comércio de 1887. Casou com Ellen Mary Lewis, em 1870. Morreu a 3 Dezembro 1907. A sua vida está biografada em James Duncan Campbell: A Memoir by his son, da autoria do seu filho, Robert Ronald Campbell. Bibliografia: Aomen Zhuandang (Arquivo Especial de Macau), Vol. 1, (Taipei, 1995); Bredon, Juliet, Sir Robert Hart, the Romance of a Great Career, 2nd ed., (London, 1910); Bruner, Katherine F.; Fairbank, John K.; Smith, Richard J. (eds.), Entering China’s Service: Robert Hart’s Journals, 1854-1863, (Cambridge, 1986); Campbell, Robert Ronald, James Duncan Campbell – A Memoir by His Son, (Cambridge, 1970); Chen Xiafei; Han Rongfeng (eds.), Archives of China’s Imperial Maritime Customs. Confidential Correspondence between Robert Hare and James Duncan Campbell 1874-1907, 4 vols., (Pequim, 1990); Chen Xiafei, Zhongguo Haiguan Midang He De Jin Denggan Han Huibian (Arquivos da Alfândega Marítima Imperial da China Correspondência Confidencial entre Sir Robert Hart e James Duncan Campbell), 9 vols., (Pequim, 1990-1996); Fairbank, John K.; Bruner, Katherine F.; Matheson, Elizabeth M. (eds.), The I. G. in Peking: Letters of Robert Hart, Chinese Maritime Customs, 1868-1907, (Cambridge, 1975); Pan Ansheng, He De Shiliao (Documentos Históricos sobre Sir Robert Hart), (Taipei, 1969); Saldanha, António Vasconcelos de (cood.), “Documentos Relativos às Negociações do Protocolo de Lisboa e do Tratado Luso-Chinês de Amizade e Comércio de 1887 (Primeira Parte) (1886-1888)”, in Colecção de Fontes Documentais para a Historia das Relações entre Portugal e a China, vols. 5 e 6, (Macau, 2000).
CAMPBELL, JAMES DUNCAN (1833-1907)
No dia 28 de Junho de 1717, “Neste dia chegou a esta Cidade o Vice-Rei de Cantão com dois Mandarins de Graduação Grande, e logo forão a S. Paulo e d’aly para a Caza de António de Siqueira que se lhes tinha preparado com asseio para a sua assistência, onde forão os Ministros do Senado vezita-lo, alem dos recebimentos que se lhes fiserão, com as companhias formadas a alias e muitas salvas. As 2 horas da tarde forão para a Fortaleza do Monte e se foi embora pela porta de S. Lazaro, deixando a todos satisfeitos pelo bom modo com que recebia a todos e pelos saguates que deixou de pessarias, farinha, etc, o que outro nenhum tinha feito athe este tempo”.
Chegou a cidade de Macau o Vice-Rei de Cantão
ARRIAGA, OUVIDOR MIGUEL DE (1776- 1824) (SILVEIRA, MIGUEL JOSÉ DE ARRIAGA BRUM DA). Filho segundo de uma família que entroncava nos primeiros povoadores do Faial, biscainhos e flamengos, Miguel nasceu a 23 de Março de 1776. Após ter cursado Leis em Coimbra, foi nomeado, com 24 anos de idade, Juiz do Crime do Bairro da Ribeira em Lisboa, sendo em 1780 promovido a Desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação do Brasil. Pouco depois, embarcava para Goa como Desembargador da Relação, em trânsito para Macau para ocupar o lugar de Ouvidor, com um novo Regimento da Ouvidoria, onde chegaria em Julho de 1802. As nomeações para todos estes cargos viriam na sequência deste jovem fidalgo da Casa Real, ou da sua família, mover largas influências na Corte, por amizades antigas ou laços de parentesco que não deixariam de o apoiar durante a sua longa permanência no Extremo-Oriente. Chegado a Macau em 1802, tomou posse em Janeiro do ano seguinte como Ouvidor, Juiz dos Órfãos e Ausentes, Provedor da Comarca, Juiz da Alfândega e Presidente da nova Junta de Justiças. Na reforma da política ultramarina pretendida por Martinho de Melo e Castro e por Pina Manique, ao tempo de D. Maria I, Arriaga recebia uma vasta ampliação de poderes inerentes ao cargo de Ouvidor, que o iriam lançar definitivamente neste território, de tal forma que, sendo o cargo trienal, iria ser prolongado por 22 anos, até à sua morte. Jovem, astuto, ambicioso, letrado e com extraordinários dotes de persuasão, nos primeiros anos foi ganhando paulatinamente prestígio, tomando conta da administração da Real Caixa Pública, sem afrontar o Senado e dificultando a manobra dos comerciantes estrangeiros. Rapidamente, Miguel de Arriaga viria a afirmar-se como o grande paladino da autonomia do Senado e dos comerciantes de Macau, face ao centralismo da Coroa, tornando- se na grande eminência do Território, mesmo sem chamar a si, formalmente, o poder político. Em 1806, teria o seu primeiro momento de glória com o recruta¬mento de um novo cirurgião que introduziu a vacina anti-variólica em Macau. Logo de seguida era nomeado um novo Governador, Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, que muito iria pactuar e ceder às pretensões de Arriaga. Em 1808, casava com Ana Joaquina de Almeida, filha de um dos principais comerciantes locais de anfião (ópio), Januário Agostinho de Almeida, generoso financiador da Coroa refugiada no Rio de Janeiro, excelente elo de ligação com os rajás de Bengala e os mandarins do Sul de Cantão, ligados ao tráfico, e futuro Barão de S. José de Porto Alegre. Tudo parecia caminhar para um corolário auspicioso quando, em Julho, Bernardo de Lemos e Faria foi substituído por Lucas José de Alvarenga, um homem adverso à política demasiado autónoma do Senado e de Arriaga. Logo a seguir chegou a Macau uma frota inglesa comandada pelo almirante William Drury, que pretendia ocupar a cidade sob o pretexto de protecção, na sequência da Guerra Peninsular e da iminência de um ataque francês àquele território no sul da China. Miguel de Arriaga desdobrar-se-ia então em múltiplos contactos, num conluio com as autoridades chinesas, até conseguir a retirada inglesa, o descrédito de Alvarenga e o retorno de Lemos e Faria. Estes tratos com os mandarins do Sul da província de Cantão levá-lo- iam, mais tarde, a um obscuro acordo nas vésperas do aprisionamento, pelos portugueses, do rebelde Kam-Pau-Sai (Zhang Baozai 張保仔). Quando, após esta acção comandada pelo comandante José Alcoforado sobre um homem muito procurado pelas auto¬ridades da dinastia Qing 清, fazia prever que Macau receberia uma importante compensação monetária, a reposição dos antigos privilégios e o retorno de um bispo português à diocese de Pequim (Beijing 北京), nada disto aconteceu, ficando Arriaga sob a suspeita dos seus inimigos, que o acusavam de mero aproveitamento pessoal, de desvio de bens públicos e de enganar o próprio Príncipe Regente, que atribuiria o título de ‘Leal’ ao Senado, ao mesmo tempo que saíam frustrados os principais objectivos portugueses. Arriaga, bem protegido no Rio de Janeiro pelo Conde de Araújo e em Macau pelos principais homens-bons, a tudo resistia por enquanto. Mesmo o seu substituto, Guimarães Peixoto, que chegara em 1810, ainda no mesmo ano sofreria o vexame de ser mandado regressar. Miguel de Arriaga teria assim oportunidade de capitalizar mais simpatias com a institucionalização da lotaria, em Junho do já referido ano. Senhor de um extraordinário poder, viu, contudo, uma outra personagem, o Governador de Goa, o Conde de Sarzedas, afirmar-se gradualmente como seu inimigo e, a partir de 1818, os desígnios de Miguel de Arriaga começavam a inverter-se. O Tribunal da Relação de Goa acusava agora o Senado de Macau de ser um corpo de parentes, contrário às disposições régias, e Sarzedas invectivava Arriaga por, sendo tão hábil, pa¬recer inoperante em conseguir dos dignitários chineses a concretização dos compromissos assumidos com a questão de Kam-Pau-Sai (Zhang Baozai 張保仔). Ao mesmo tempo, o Ouvidor procurava, novamente, impor Alvarenga em substituição de Lemos e Faria. Porém, não o conseguiu, muito por intervenção do Conde da Barca, Araújo de Azevedo. E nem mesmo os novos acordos assinados por Arriaga com o rei do Sião mudariam os ventos que lhe eram adversos. Em simultâneo com a onda liberal, cujos ecos começavam a chegar da Europa, avolumavam-se as suspeitas de favorecimento pessoal nas negociações acerca de Kam- Pau-Sai (Zhang Baozai 張保仔), para além de mais vozes se levantarem contra o facto de o Ouvidor poder estar cada vez mais envolvido em actos ilícitos de comércio ligados ao anfião. Fosse pelas ideias políticas, fosse pelos negócios, fosse ainda pelos dinheiros que manuseava enquanto Juiz dos Órfãos, pelo controlo da lotaria, pelo controlo aduaneiro, ou pelos empréstimos do “dinheiro de risco”, o certo é que Miguel de Arriaga, personagem quase omnipotente, cercou-se de uma sombra de suspeição que passava, igualmente, pelo conluio com Bernardo de Lemos e Faria e com os Condes de Anadia e da Barca. Após longos anos de uma magistratura concentracionária, defensor de uma política de poder absoluto e de proteccionismo económico, dificilmente poderia aderir ao espírito liberal nascente em Portugal. Com o estabelecimento do regime constitucional, os liberais de Macau não perdoaram. Em 1820, seria derrubado o Senado e feitos prisioneiros os vereadores absolutistas. Por seu lado, Arriaga veria caírem sobre si acusações de apropriação de dinheiros públicos e acabaria destituído do cargo de Ouvidor. Ainda fez um dramático apelo de clemência, mas nem assim parecia poder escapar à expulsão do Território. Só o contra-golpe provocado pela chegada do navio Salamandra, em Setembro de 1822, travaria os ímpetos liberais. Numa precária situação de consenso, vários homens sairiam do território, como aconteceu com o Barão de S. José de Porto Alegre, o sogro, ficando Miguel de Arriaga isolado em Macau. Pouco mais resistiria, falecendo em 13 de Dezembro de 1824, sem chegar a conhecer a última mercê régia, a Torre e Espada. Sagaz, ambicioso, manobrador político e patriota, Miguel José de Arriaga Brum da Silveira não deixa de ser um dos paradigmas da diáspora açoriana, à procura das oportunidades que a terra natal lhe não deu. Foi, acima de tudo, humano nas suas grandezas e misérias, tanto nos interesses pessoais que defendeu como nos da terra que o acolheu. Bibliografia: COATES, Austin, Calçadas da História, (Lisboa, 1991); FRANÇA, Bento da, Subsídios para a História de Macau, (Macau, 1888); GOMES, Luís Gonzaga, Páginas da História de Macau, (Macau, 1966); SOUSA, Acácio de, “Miguel de Arriaga, o Homem e a Época”, in Revista de Estudos Luso-Asiáticos,, (Macau, 1992); SOUSA, Acácio Fernando de, “O Ouvidor Arriaga em Macau: Políticas e Comércios”, in Actas do Congresso Internacional “Portos, Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente”, 2 vols., (Ponta Delgada, 1999); TEIXEIRA, Padre Manuel, Miguel de Arriaga, (Macau, 1966); TEIXEIRA, Padre Manuel, Os Ouvidores em Macau, (Macau, 1976).
ARRIAGA, OUVIDOR MIGUEL DE (1776- 1824) (SILVEIRA, MIGUEL JOSÉ DE ARRIAGA BRUM DA)
No dia 3 de Março de 1717, foi recebida uma chapa (ofício) do Vice-Rei de Cantão pedindo a ida de quatro representantes do Senado à sua presença, a fim de lhes entregar uma chapa e ordem do Imperador, que aprovou umas decisões feitas pelo Tribunal da Milícia, nas quais se resolveu que os navios de Macau poderiam navegar e comerciar pelas cinco Províncias do Império e mares de Este, proibindo-lhes apenas a navegação dos mares do Sul.
Chapa e ordem do Imperador
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?). Soldado, capitão e comerciante português que viveu no século XVII. Pouco se sabe dele. No entanto, deixou um manuscrito sobre o relato das suas viagens pelo Oriente, encontrando-se uma das cópias na Biblioteca da Ajuda, com o título Advertência de muita Importância há Magestosa Coroa del Rey N. Sor D. João V e Apresentadas ao Conselho de Estado da Índia na Mão do V Rey D. Filipe por Jorge Pereira(?) de Azevedo, Morador na China em 1646 (cód. 54-XI-21-9). No referido documento fornece uma visão geral do império português do Oriente, por onde passou, realizando em simultâneo uma análise crítica sobre a decadência do mesmo, sugerindo diversas maneiras de ultrapassar a crise utilizando os recursos existentes. Refere que o Estado da Índia se encontrava completamente miserável e era pouco evangelizado, indicando que a Coroa portuguesa corria sérios riscos de o perder. Na sua opinião, havia uma má gestão do mesmo. Começa o texto destacando que teve uma experiência de vinte e quatro anos na Índia, servindo como militar, mas ao mesmo tempo como comerciante, referindo ser prática na época. Fundamenta as advertências que faz ao rei D. João V através da experiência adquirida nas zonas em análise, como militar, mas essencialmente como comerciante. O relato das suas viagens começa em Moçambique, onde afirma ter conhecido a zona dos rios Cuama, e as cidades de Mombaça e Melinde. Ao longo do texto vai indicando nomes de capitães, como o de Nuno Álvares Botelho, capitão do navio onde viajou, atravessando o estreito de Mascate e aportando a Diu. Percorreu também a área de Samatra, dizendo que foi através dos holandeses que visitou Jacarta. No entanto, diz concretamente que até à data da redacção do documento não tinha estado no Bornéu, Macassar, Solor e Timor. Indica que a época mais próspera para a gente lusa no Oriente foi quando se deslocavam por ano nove naus com cerca de quinhentos a mil homens. Relativamente a Macau, a que dedicou uma parte do manuscrito, visitou-a por volta de 1643, referindo haver um número muito elevado de mulheres cristianizadas. Considera que a viagem do trato ao Japão já não era suficiente, devido ao crescimento excessivo da cidade. No texto vai tomando em consideração várias hipóteses de como Macau se recuperar devido à perda do comércio com o Japão e a tomada de Malaca pelos holandeses, sugestões baseadas em rotas comerciais alternativas dentro da zona. Todo o texto está escrito de forma fluente e, aparentemente, com conhecimento directo dos lugares indicados. Bibliografia: MATOS, Artur Teodoro de (ed.), “‘Advertências’ e ‘Queixumes’ de Jorge Pinto de Azevedo a D. João IV, em 1646”, in Povos e Culturas, n.° 5, (Lisboa, 1996), pp.431-545.
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?)
Simão de Andrade era irmão de Fernão Peres de Andrade, o célebre capitão que comandou a primeira grande expedição portuguesa a Cantão em 1517-1518. Partiu uma primeira vez para a Índia em 1503, quando contava cerca de 13 anos, na companhia de seu irmão, e colaborou com Afonso de Albuquerque em alguns dos mais importantes episódios do estabelecimento da presença portuguesa na Índia. Esteve na conquista de Goa em 1510, tomou parte na tomada de Malaca em 1511 e dois anos mais tarde participou no fracassado assalto a Adém. Como recompensa pelos serviços prestados à coroa portuguesa, recebeu em 1518 a mercê de uma viagem à China, onde então se encontrava o seu irmão Fernão Peres. Nos primeiros meses do ano seguinte Simão Peres largava do litoral ocidental da Índia com destino ao Celeste Império. Um mês depois fazia uma escala técnica em Pacém, na extremidade meridional da Ilha de Samatra, para carregar pimenta, pois em anteriores contactos com a China os portugueses tinham verificado que esta era uma das mercadorias mais apreciadas pelos chineses. Após uma curta escala em Malaca, Andrade tomou o caminho da China em meados de 1519, acompanhado por vários outros navios, um dos quais era capitaneado por Francisco Rodrigues, talvez o conhecido cartógrafo que poucos anos antes tinha desenhado os primeiros mapas do litoral da China e da região de Cantão. Em Agosto de 1519, após uma viagem sem incidentes, Simão de Andrade aportava a Tamão (Tunmen 屯門), pequena ilha na embocadura do rio das Pérolas, onde os portugueses se tinham habituado a fazer as suas trocas mercantis com os chineses do continente vizinho. Simão de Andrade não possuía certamente o temperamento diplomático e conciliador do seu irmão, e rapidamente entrou em conflito com as autoridades chinesas e com a população da região de Cantão. Em primeiro lugar, mandou construir uma fortaleza de pedra e madeira na ilha chinesa, provendo-a da necessária artilharia. Este facto parece ter desagradado sobremaneira aos mandarins cantonenses, excessivamente zelosos da integridade territorial do Celeste Império. Mas o capitão português, para além de estar a cumprir ordens régias, estava a precaver-se contra eventuais ataques de piratas, semelhantes aos que em anos anteriores ali mesmo tinham molestado as embarcações portuguesas. De seguida, Simão de Andrade mandou erguer uma forca, anunciando que nela castigaria qualquer português que ofendesse os chineses, ameaça que logo de seguida pôs em prática. Apesar da medida lhes ser favorável, as autoridades locais encararam esta actuação como atentatória da soberania chinesa, uma vez que o exercício da pena de morte era uma prerrogativa imperial. Mas mais uma vez o capitão português deveria estar a cumprir as disposições do seu regimento, o documento régio que continha as instruções que cada capitão devia respeitar. Não ficaram por aqui os problemas com a burocracia chinesa. Aparentemente, Andrade impediu que os navios siameses que se encontravam nas imediações de Tamão efectuassem quaisquer negócios com os chineses antes de os portugueses terem completado as suas transacções. Também aqui, ao que parece, estava a cumprir instruções explícitas de el-Rei D. Manuel I. Recusara-se ainda a satisfazer os direitos que lhe eram exigidos pelas alfândegas chinesas, e aqui, sim, poderia estar a adoptar um comportamento menos próprio. A partir destes acontecimentos, a cronística portuguesa da época construiu em torno de Simão de Andrade uma verdadeira lenda negra, responsabilizando-o pelo subsequente rompimento das relações luso-chinesas. No que tem sido seguida, aliás, pela mais moderna historiografia. Como é sabido, em 1521-1522, na sequência da morte do imperador chinês Zhengde 正德, os membros da embaixada de Tomé Pires, que tinham sido desembarcados em Cantão por Fernão Peres de Andrade em 1517, foram aprisionados, ocorreram violentos confrontos entre navios portugueses estacionados no rio das Pérolas e as armadas imperiais chinesas, e as relações entre a China e os portugueses, os folangji 佛朗機, foram formalmente interrompidas. Mas este corte de relações ocorreu bastante depois de Simão de Andrade ter abandonado definitivamente o litoral chinês. Com efeito, o capitão português permaneceu na ilha de Tamão durante cerca de um ano, dedicando-se sem qualquer oposição dos chineses às habituais transacções mercantis. É mesmo provável que alguns portugueses tenham subido o rio até Cantão, onde chegaram a contactar com Tomé Pires, que permanecia naquela cidade aguardando autorização para seguir para Pequim. E, como foi referido, quase todos os seus comportamentos que levantaram objecções da parte das autoridades chinesas estavam previstos nas instruções que recebera do monarca português. Assim sendo, parece que Simão de Andrade pode ser aliviado de algumas das culpas que lhe têm sido atribuídas no fracasso da primeira aproximação dos portugueses à China. Ao adoptar determinado tipo de comportamentos mais agressivos, Andrade estava apenas a repetir atitudes que tinham sido tomadas pelos portugueses em outros pontos da Ásia marítima com relativo sucesso. O volume de informações que os portugueses possuíam sobre a China em 1518-1519 era ainda bastante incipiente, incluindo sobretudo dados de natureza náutica e mercantil, de forma que o capitão português não poderia estar preparado para enfrentar com as devidas precauções um estado tão poderoso e tão centralizado como a China do tempo dos Ming 明. Em finais de 1520 a frota de Simão de Andrade largava da ilha de Tamão (Tunmen 屯門) sem qualquer oposição das autoridades chineses, nada indicando que em breve as relações com os portugueses se viriam a degradar. Aliás, os negócios continuaram a desenvolver-se por mais um ano. Em Fevereiro do ano seguinte já Andrade se encontrava em Cochim, no litoral ocidental da Índia, correndo entre os portugueses a fama que vinha muito rico. Posteriormente, seria nomeado capitão da fortaleza portuguesa de Chaul, cargo que desempenhou entre 1521 e 1524. Depois desta data, a documentação coeva deixa de o mencionar, pelo que é bastante provável que tenha morrido em 1524 ou 1525, talvez durante a viagem de regresso a Portugal. Bibliografia: LOUREIRO, Rui Manuel, Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI, (Lisboa, 2000).
ANDRADE, SIMÃO DE (?-?)
Lord Earl Amherst era sobrinho do 1.º Barão de Amherst, Jeffrey Amherst – marechal de campo e conhecido herói de guerra, que comandou as tropas britânicas em vários teatros de guerra – e sucedeu-lhe no título, após a morte deste em 1797. Foi Governador Geral da Índia Inglesa de 1823 a 1828 e responsável pelo alargamento da influência desta, na sequência da 1.ª guerra com a Birmânia, de que resultou a anexação de parte do seu território. A sua ligação a Macau prende-se fundamentalmente ao facto de ter comandado a segunda e última missão diplomática britânica que alcançou Pequim, antes da Guerra do Ópio, e ao impacto que essa embaixada teve no relacionamento sino-britânico e na gestão dos apetites britânicos sobre Macau. Tanto a primeira embaixada inglesa ao Imperador da China, que fora comandada por Macartney em 1793, como esta, foram ambas um fracasso. Lord Amherst não chegou a ser recebido pelo Imperador e teve de abandonar o país por Cantão, local por onde entrara com grandes projectos. Essa embaixada chegou a Macau, em Julho de 1816, e regressou por Macau, onde desembarcou em 22 de Janeiro de 1817 e onde permaneceu 3 dias. A importância para Macau desta expedição deve-se a vários factores que, conjugados, foram marcantes. Em primeiro lugar, a conjuntura internacional em que a Grã-Bretanha, na sequência das guerras napoleónicas, emergiu como a superpotência ocidental e foi gradualmente impondo o seu liberalismo económico a nível mundial. Em segundo lugar, numa alteração da percepção inglesa sobre o relacionamento com Pequim, confirmando-se que esta não aceitava, mais uma vez, aceder a relações de Estado numa base de igualdade. Em terceiro lugar, a constatação de que não seria possível obrigar a China a abrir-se ao exterior sem o uso da força. Esta opção não constava, contudo, no horizonte da política externa inglesa, a curto ou médio prazo, dado que havia outras prioridades no Império Colonial Inglês e ainda não se alcançara uma clara superioridade militar britânica. Não foram solicitados territórios ao Imperador, dados os fracassos anteriores, quer de Macartney quer das duas tentativas britânicas de anexação de Macau (1802 e 1807), na sequência das guerras napoleónicas, que tinham conhecido franca hostilidade das autoridades chinesas. Em quarto lugar, os relatos de viagem mencionavam Hong Kong, local onde a esquadra se abasteceu, segundo orientação da Companhia da Índias Orientais (EIC), e que a partir daí, começava a entrar com regularidade nos relatos e roteiros dos comerciantes ingleses. Em quinto lugar, os britânicos retomaram a ideia de se estabelecerem noutros locais para além de Macau, sendo que este estabelecimento poderia ser utilizado como base de apoio no processo de implantação desses novos estabelecimentos. Antiga ideia inglesa, por exemplo, em 1793, Lord Macartney solicitara as ilhas de Chusan ou alguma perto de Cantão. Em 1834, a também fracassada missão de Lord Napier pretendia solicitar a permissão de estabelecimentos de britânicos em Lantau e Hong Kong. Assim, neste período que marcou o advento de Hong Kong, as atenções rodeavam Macau, mas o insucesso da viagem de Lord Amherst contribuiu para uma redução dos apetites britânicos sobre Macau e a manutenção deste estabelecimento na posse da coroa portuguesa, então enfraquecida pelas dependências resultantes da sua ida para o Brasil, situação que se agravou com as guerainda do fracasso desta embaixada, por manter por mais alguns anos o seu estatuto de único entreposto ocidental na China. Era o único porto da China onde os comerciantes ocidentais podiam pernoitar o ano inteiro e os representantes das companhias podiam viver acompanhados das suas mulheres. Na altura desta embaixada, Macau era uma cidade cosmopolita, que albergava os comerciantes das feitorias estrangeiras de Cantão, e o homem mais poderoso da cidade era o conhecido ouvidor Miguel de Arriaga. Residia, por exemplo, desde 1807, em Macau, Robert Morisson, que na altura trabalhava na tradução da Bíblia (“Novo Testamento”) para chinês. Morisson integrou a embaixada de Lord Amherst a Pequim, como secretário de língua chinesa. A presença inglesa era significativa e a “Casa Garden” pertencia à Honorável Companhia Inglesa das Índias Orientais (EIC), que já dominava a maioria do comércio externo chinês, em Cantão. Os comerciantes americanos e os portugueses eram os maiores competidores. Quanto ao comércio de ópio, importado fundamentalmente da Índia inglesa, estava em franco desenvolvimento, desde o ínicio do século, apesar das proibições publicadas pelas autoridades chinesas, contudo, parecia que ainda não tinha atingido níveis preocupantes para as autoridades chinesas. As exportações de ópio cresceram no período em que Lord Amherst foi governador-geral da Índia, mas só uma maior investigação permitiria conhecer se a sua accão teve algum peso significativo nesse sentido ou se apenas é uma manifestação de uma tendência que acompanhou toda a primeira metade do século XIX. Será também de realçar que foi no final do ano da passagem de Lord Amhest por Macau, e também influenciada pelos efeitos dessa embaixada, que impulsionada pelo ouvidor Miguel de Arriaga se fundou, em Macau, a gigantesca sociedade comercial Casa do Seguro Mercantil”, que associava a maioria de comerciantes portugueses, o próprio Leal Senado e a Misericórdia, e se destinava a combater a concorrência dos comerciantes britânicos. A sede desta firma foi posteriormente transferida para Calcutá, residência do governador geral da Índia, e quando a sociedade foi dissolvida em 1827, após a morte do ouvidor, era governador geral Lord Amherst. Na análise da personalidade de Lord Amherst não se poderá deixar de mencionar que na viagem de retorno, que também foi muito atríbulada, com o afundamento do seu navio, o Alceste, ele teve de mudar de navio e conheceu uma alteração de rota, aportando em S.ta Helena, onde aproveitou para visitar Napoleão, com quem teve vários encontros. Durante a sua governadoria, em 1826, foi fundada na Birmânia a cidade de Earl Amherst, em sua honra. Depois do seu regresso da Índia, retirou-se para a sua quinta, onde residiu até ao seu falecimento, quase 30 anos depois. Bibliografia: PINTO, Carlos Lipari Garcia, Macau Oitocentista e o Impacto da Fundação de Hong Kong, (Macau, 1994, policopiado); RIDE, Lindsay; RIDE, May, An East Company Cemetery. Protestant Burials in Macao, (Hong Kong, 1996).
AMHERST, LORD EARL WILLIAM PITT (1773-1857)
| Fonte: | Arquivo de Macau, documento n.ºMNL.09.05.F |
| Entidade de coleção: | Arquivo de Macau |
| Fornecedor da digitalização: | Arquivo de Macau |
| Tipo: | Imagem |
| Fotografia | |
| Fotografia de grupo | |
| Preto e branco | |
| Formato das informações digitais: | TIF, 2000x1387, 2.65MB |
| Identificador: | p0004345 |
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