
Informações relevantes
Data de atualização: 2020/09/03
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515
ANOK, COMENDADOR JOEL JOSÉ CHOI (1867-1945). Figura marcante da filantropia da comunidade católica chinesa de Macau, Joel Anok nasceu em 1867 e faleceu nesta cidade em 1945. De seu nome original Tsui Nok Chi, “cristianizado” depois para Joel José Choi Anok, descobrimos esta importante personagem do associativismo e da assistência chinesa macaenses a entrar, ainda jovem, ao serviço do Estado local, servindo, como amanuense e dispenseiro, vários governadores do enclave – Tomáz da Rosa, Firmino da Costa e Custódio Borja –, integrando várias comitivas governamentais às grandes cidades chinesas de Xangai e Pequim, ao Timor Oriental sob domínio português, a Banguecoque e ao Japão, visitando Nagasáqui, Iokohama e Tóquio. Seguidamente, exerce por longo tempo as funções de dispenseiro a bordo dos principais navios mercantes e militares, instalados ou em circulação por Macau. Regista-se a sua presença nos grandes navios da marinha epocal, Tâmega, Diu, Zaire, Tejo, Liberal e corveta D. Estefânia, alargando as suas visitas aos portos comerciais chineses, a Manila, a Singapura, às cidades portuárias do reino da Tailândia, a Colombo, à Indonésia holandesa, à Austrália e mesmo, mais longe, a Casablanca. A competência e cuidado mobilizados nas suas tarefas navais permitiram-lhe ser nomeado dispenseiro de primeira classe no Ministério da Marinha, em Lisboa, cargo que Joel Anok exerceu qualificadamente durante nove anos. Regressado a Macau no princípio do século passado, ver-se-ia nomeado funcionário da Estação Naval e, a seguir, para a prestigiante posição de Fiel do Palácio do Governador colonial, cargo que exerceria durante trinta e cinco anos. Nesta altura, era já uma figura prestigiada entre a comunidade católica de Macau, empregando parte importante da sua fortuna e influência social na direcção e fundação de muitas obras de assistência. Assim, entre 1918 e 1942, foi sempre eleito vogal da Comissão Directiva do Hospital chinês Kiang Wu (Jinghu 鏡湖). Em 1922 chega à direcção da Associação de Beneficência Tong Sin-Tong (Tongshan Tang同善堂), presidindo depois às suas actividades filantrópicas, desde 1930 até à sua morte. Encontra-se durante a sua presidência desta associação um período de alargamento das suas actividades, expansão das suas receitas e ampliação dos seus bens, transformando a obra de beneficência num dos mais importante senhorios de Macau. A partir desta projecção económica, generosamente estribada em concorridas subscrições públicas, Joel Anok conseguiu promover a fundação de uma escola primária gratuita para ambos os sexos, que haveria de se tornar instrumento importante na instrução de muitos filhos de trabalhadores macaenses chineses. A sua destacada posição social permitiria ainda a sua eleição para presidente da Associação Comercial Chinesa e a sua nomeação para provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau. Ao mesmo tempo, a sua influência política abriu-lhe as portas para chegar tanto a vogal do Leal Senado e do Conselho do Governo como a presidente de muitas associação caritativas e desportivas, como foram os casos da Associação Católica Kung Kao (Gongjiao 公教) ou do grupo desportivo Cheng Mou (Jingwu 精武). Nos anos finais da sua vida, prestigiado, rico e socialmente considerado, Joel José Chok Anoi acumulava aos diferentes cargos anteriores uma quase infindável lista de outras posições de relevo: presidente da comissão directiva do colégio de Santa Rosa Lima e das escolas Song Sat e Mong Tak; conselheiro da Acção Católica; presidente da comissão de festas da canonização de S. João Bosco; presidente da Associação de Socorros Mútuos e de muitas outras obras católicas entre procissões, festas e comissões caritativas. Casado três vezes, a primeira em Portugal, e a última em Macau, seguindo os ritos chineses, Joel Anok haveria de ser galardoado, em 1933, com a Comenda da Ordem de Cristo, começando a sua figura e acção a serem identificadas como “comendador Anok”. Bibliografia: REGO, José de Carvalho e, Figuras d’Outros Tempos – Comendador Joel José Choi Anok, in Gazeta Macaense, (Macau, 31/10/1981); SMITH, Carl T., A Sense of History. Studies in the Social and Urban History of Hong Kong, (Hong Kong, 1995).
ANOK, COMENDADOR JOEL JOSÉ CHOI (1867-1945)
CABRAL, FRANCISCO (1553?-?). Nasceu em São Miguel, Açores, Portugal, por volta de 1533, filho de Aires Pires Cabral, Juíz do Reino, e de Francisca Nunes de Proença, de família fidalga francesa. Aprendeu as primeiras letras em Lisboa e estudou Humanidades em Coimbra. Em 1550 alistou-se como soldado na expedição de Afonso de Noronha, vice-rei da Índia, e em Outubro de 1552 lutou contra Pisbeg, general turco que sitiava o enclave de Ormuz. Por António Vaz conheceu a vida e as actividades dos Jesuítas. Em Dezembro de 1554 abandonou as armas e entrou para a Companhia de Jesus. Antes de se ordenar sacerdote (1558-1559) foi nomeado mestre dos noviços, passando, em 1561, a ocupar a cátedra de teologia. Em Fevereiro de 1562 foi nomeado reitor do colégio de Baçaim, por quatro anos, mas depressa regressou à cátedra de teologia moral. Em 1567 foi reitor do colégio de Cochim, mas depressa regressa a Goa, de cujo colégio foi também reitor por pouco tempo. Nomeado superior de Macau e da missão do Japão, como sucessor de Cosme de Torres, chegou a Macau em Agosto de 1568. Aqui teve algumas contendas com Organtino Soldo, que chegou no ano seguinte, e foi com ele que chegou ao Japão a 18 de Junho de 1570. Sem experiência do ambiente japonês, convocou o conselho da missão para adoptar certas reformas ordenadas pelo provincial da Índia, António Quadros: o retorno da sotaina negra de algodão, em vez de uma vestimenta parecida à dos bonzos budistas, adoptada pelos Jesuítas do Japão durante três lustros. A segunda reforma foi o envio do modesto capital da missão do Japão para a Índia, para adquirir rendas fixas e conciliar os desvios encomendados a comerciantes portugueses. Pouco tempo depois, Cabral reconheceu que o sistema não passava de uma utopia e, como o anterior provincial Melchior Nunes Barreto na sua breve visita, em 1556, fez marcha atrás. Cabral, ao contrário, reformou o método evangelizador do seu antecessor Cosme de Torres, em prol de uma sistematização do trabalho, no estilo dos Jesuítas da Índia. Cabral dedicou o seu primeiro ano a visitar as igrejas da ilha de Kiushu, tendo Luís de Almeida como intérprete, e, no ano seguinte, empreendeu uma viagem à capital Kyoto, “levando comsigo somente, por lingua e companheiro, o irmão João de Torres, que o padre Cosme de Torres baptizou em Yamaguchi nascido de oito dias”, (como escreveu Luís Fróis) ambos vestidos de sotaina e manto. No porto de Sakai foram recebidos por Organtino e pelo irmão meio cego Lourenço, de cabeça rapada à maneira dos bonzos e vestidos com quimonos de seda. Organtino recusou-se a vestir a sotaina preta. Para Cabral era urgente ver o estado da cristandade na capital e marcar presença no meio da nobreza, com visitas de cortesia ao imperador Ashikaga e ao Daimio Oda Nobunaga, entre outros. De regresso à zona de Kiushu dedicou-se a cumprir o seu ofício de superior, até que, em 1578, o Daimio Otomo Yoshishige de Bungo tentou reconquistar o senhorio de Hyuga (Miyazaki) – usurpado pelo dáimio de Satsuma – com o plano de instituir uma república cristã no estilo dos reinos da Europa, prevista para cristianizar todo o Japão. A campanha terminou com um fracasso rotundo, na batalha de Mimikawa. Em 1579, o visitador Alessandro Valignano chegou ao Japão com plenos poderes e Cabral retirou-se para segundo plano. Em 1581, com a desculpa, verdadeira, da sua pouca saúde, mas na realidade para evitar atritos, pediu o relevo como superior da missão. Valignano acedeu, nomeando-o superior da comarca de Bungo, com residência em Usuki, mas em Fevereiro de 1583 chamou-o a Macau para o encarregar dos Jesuítas desse porto, enquanto Valignano realizava a viagem à Europa com os jovens legados japoneses. Cabral apoiou o desenvolvimento da missão chinesa preparada por Michelle Ruggieri, desde 1579, entrando pouco depois no império para visitar os Jesuítas de Zhaoqing. Em 1586, Valignano propô-lo para a Casa Professa de Goa (1587-1592), e a continuação provincial da província goesa (1592-1597). Terminando em Setembro o seu provincialato, Cabral continuou como predicador e confessor até ser nomeado novamente proposto (c. 1605), prefeito espiritual e consultor da província. Morreu em Goa, numa quinta-feira Santa, a 16 de Abril de 1609. Cabral foi uma figura controversa, com evidentes defeitos, ou melhor, excessos, mas pela sua rectidão como religioso, pelas suas inegáveis virtudes e pelo seu grande espírito apostólico, gozou da estima dos seus superiores, António Quadros e Francisco Rodriguez, mas não tanto dos visitadores Organtino Soldo e Alessandro Valignano, com quem teve alguns sérios atritos. A sua auto-suficiência pessoal, ligada a uma certa falta de flexibilidade e tacto no trato com os Jesuítas da missão, tirou em parte o brilho à sua actuação como superior de Macau-Japão (1569-1581). Sobrestimou os valores portugueses, chegando a menosprezar a raça japonesa e os restantes asiáticos ou europeus não portugueses. Apesar disso, teve atitudes dignas de louvor, como a consolidação da escola de línguas ou a admissão de bastantes noviços japoneses na Ordem, ainda que por Ordem do visitador. Bibliografia: SCHÜTTE, Josef F., Valignano’s Mission Principles for Japan, vol. 2, (St. Louis, 1980); SCHUTTE, Josef F., Introductio ad Historiam Societatis Jesu in Japonia 1549-1650, (Roma, 1968).
CABRAL, FRANCISCO (1553?-?)
Simão de Andrade era irmão de Fernão Peres de Andrade, o célebre capitão que comandou a primeira grande expedição portuguesa a Cantão em 1517-1518. Partiu uma primeira vez para a Índia em 1503, quando contava cerca de 13 anos, na companhia de seu irmão, e colaborou com Afonso de Albuquerque em alguns dos mais importantes episódios do estabelecimento da presença portuguesa na Índia. Esteve na conquista de Goa em 1510, tomou parte na tomada de Malaca em 1511 e dois anos mais tarde participou no fracassado assalto a Adém. Como recompensa pelos serviços prestados à coroa portuguesa, recebeu em 1518 a mercê de uma viagem à China, onde então se encontrava o seu irmão Fernão Peres. Nos primeiros meses do ano seguinte Simão Peres largava do litoral ocidental da Índia com destino ao Celeste Império. Um mês depois fazia uma escala técnica em Pacém, na extremidade meridional da Ilha de Samatra, para carregar pimenta, pois em anteriores contactos com a China os portugueses tinham verificado que esta era uma das mercadorias mais apreciadas pelos chineses. Após uma curta escala em Malaca, Andrade tomou o caminho da China em meados de 1519, acompanhado por vários outros navios, um dos quais era capitaneado por Francisco Rodrigues, talvez o conhecido cartógrafo que poucos anos antes tinha desenhado os primeiros mapas do litoral da China e da região de Cantão. Em Agosto de 1519, após uma viagem sem incidentes, Simão de Andrade aportava a Tamão (Tunmen 屯門), pequena ilha na embocadura do rio das Pérolas, onde os portugueses se tinham habituado a fazer as suas trocas mercantis com os chineses do continente vizinho. Simão de Andrade não possuía certamente o temperamento diplomático e conciliador do seu irmão, e rapidamente entrou em conflito com as autoridades chinesas e com a população da região de Cantão. Em primeiro lugar, mandou construir uma fortaleza de pedra e madeira na ilha chinesa, provendo-a da necessária artilharia. Este facto parece ter desagradado sobremaneira aos mandarins cantonenses, excessivamente zelosos da integridade territorial do Celeste Império. Mas o capitão português, para além de estar a cumprir ordens régias, estava a precaver-se contra eventuais ataques de piratas, semelhantes aos que em anos anteriores ali mesmo tinham molestado as embarcações portuguesas. De seguida, Simão de Andrade mandou erguer uma forca, anunciando que nela castigaria qualquer português que ofendesse os chineses, ameaça que logo de seguida pôs em prática. Apesar da medida lhes ser favorável, as autoridades locais encararam esta actuação como atentatória da soberania chinesa, uma vez que o exercício da pena de morte era uma prerrogativa imperial. Mas mais uma vez o capitão português deveria estar a cumprir as disposições do seu regimento, o documento régio que continha as instruções que cada capitão devia respeitar. Não ficaram por aqui os problemas com a burocracia chinesa. Aparentemente, Andrade impediu que os navios siameses que se encontravam nas imediações de Tamão efectuassem quaisquer negócios com os chineses antes de os portugueses terem completado as suas transacções. Também aqui, ao que parece, estava a cumprir instruções explícitas de el-Rei D. Manuel I. Recusara-se ainda a satisfazer os direitos que lhe eram exigidos pelas alfândegas chinesas, e aqui, sim, poderia estar a adoptar um comportamento menos próprio. A partir destes acontecimentos, a cronística portuguesa da época construiu em torno de Simão de Andrade uma verdadeira lenda negra, responsabilizando-o pelo subsequente rompimento das relações luso-chinesas. No que tem sido seguida, aliás, pela mais moderna historiografia. Como é sabido, em 1521-1522, na sequência da morte do imperador chinês Zhengde 正德, os membros da embaixada de Tomé Pires, que tinham sido desembarcados em Cantão por Fernão Peres de Andrade em 1517, foram aprisionados, ocorreram violentos confrontos entre navios portugueses estacionados no rio das Pérolas e as armadas imperiais chinesas, e as relações entre a China e os portugueses, os folangji 佛朗機, foram formalmente interrompidas. Mas este corte de relações ocorreu bastante depois de Simão de Andrade ter abandonado definitivamente o litoral chinês. Com efeito, o capitão português permaneceu na ilha de Tamão durante cerca de um ano, dedicando-se sem qualquer oposição dos chineses às habituais transacções mercantis. É mesmo provável que alguns portugueses tenham subido o rio até Cantão, onde chegaram a contactar com Tomé Pires, que permanecia naquela cidade aguardando autorização para seguir para Pequim. E, como foi referido, quase todos os seus comportamentos que levantaram objecções da parte das autoridades chinesas estavam previstos nas instruções que recebera do monarca português. Assim sendo, parece que Simão de Andrade pode ser aliviado de algumas das culpas que lhe têm sido atribuídas no fracasso da primeira aproximação dos portugueses à China. Ao adoptar determinado tipo de comportamentos mais agressivos, Andrade estava apenas a repetir atitudes que tinham sido tomadas pelos portugueses em outros pontos da Ásia marítima com relativo sucesso. O volume de informações que os portugueses possuíam sobre a China em 1518-1519 era ainda bastante incipiente, incluindo sobretudo dados de natureza náutica e mercantil, de forma que o capitão português não poderia estar preparado para enfrentar com as devidas precauções um estado tão poderoso e tão centralizado como a China do tempo dos Ming 明. Em finais de 1520 a frota de Simão de Andrade largava da ilha de Tamão (Tunmen 屯門) sem qualquer oposição das autoridades chineses, nada indicando que em breve as relações com os portugueses se viriam a degradar. Aliás, os negócios continuaram a desenvolver-se por mais um ano. Em Fevereiro do ano seguinte já Andrade se encontrava em Cochim, no litoral ocidental da Índia, correndo entre os portugueses a fama que vinha muito rico. Posteriormente, seria nomeado capitão da fortaleza portuguesa de Chaul, cargo que desempenhou entre 1521 e 1524. Depois desta data, a documentação coeva deixa de o mencionar, pelo que é bastante provável que tenha morrido em 1524 ou 1525, talvez durante a viagem de regresso a Portugal. Bibliografia: LOUREIRO, Rui Manuel, Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI, (Lisboa, 2000).
ANDRADE, SIMÃO DE (?-?)
A primeira grande expedição naval portuguesa a Cantão teve lugar em 1517 e foi comandada por Fernão Peres de Andrade. El-Rei D. Manuel I (r.1495-1521) estava por esses anos a pôr em prática um sistemático plano de intervenção portuguesa no comércio asiático de produtos exóticos, através do estabelecimento de feitorias e fortalezas em diversos locais estratégicos da litoral da Ásia, como Goa, Malaca e Ormuz. Entretanto, chegam a Lisboa entusiásticas notícias sobre a extraordinária importância da China no contexto mercantil da Ásia Oriental, enviadas do Oriente por agentes portugueses na sequência da conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque (1511). E o monarca lusitano logo decide despachar para os mares asiáticos uma importante armada, com o propósito de efectuar o ‘descobrimento da China’, ainda antes de chegarem a Portugal notícias da pioneira viagem de Jorge Álvares à ilha chinesa de Tamão (1513). Fernão Peres de Andrade, quando embarca em Lisboa em Abril de 1515, era um homem de cerca de 26 anos, assaz experiente em assuntos asiáticos, pois vivera no Oriente entre 1505 e 1514, colaborando activamente na fixação dos portugueses naquelas paragens. Participara, nomeadamente, na conquista de Malaca, sendo então nomeado capitão-do-mar da praça, com o encargo de assegurar a respectiva defesa. Entre 1514 e 1515 efectuou uma rápida viagem a Portugal, certamente com o intuito de solicitar retribuição régia para os serviços prestados. E el-rei D. Manuel, como recompensa, concedeu-lhe o comando da primeira expedição portuguesa oficial a demandar a China. A armada de 1515 aportou em princípios de Setembro do mesmo ano a Goa, que era já então o centro estratégico das actividades orientais dos portugueses. No litoral indiano juntou-se a Fernão Peres o boticário Tomé Pires, que deveria participar na expedição à China na qualidade de embaixador do monarca português. Apesar de ser homem de “pouca qualidade”, como referem os cronistas coetâneos, Tomé Pires possuía ampla cultura livreira, para além de ser especialista em assuntos asiáticos, já que estava então a dar os últimos retoques na sua Suma Oriental, a primeira grande e sistemática geografia portuguesa, e europeia, da Ásia marítima. Em Janeiro de 1516, Fernão Peres de Andrade rumou a Malaca, fazendo de caminho escala no sultanato de Pacém, onde pretendia efectuar um importante carregamento de pimenta samatrense, essencial ao bom sucesso mercantil da expedição em preparação. Pois se os objectivos prioritários da jornada à China eram de natureza política e diplomática, o aspecto comercial de forma alguma era descurado pelos portugueses. Mas, naquele porto, um imprevisto acidente destruiu a maior das naus de Fernão Peres, inviabilizando nesse ano a viagem da China, já que sem carga de pimenta não valeria a pena rumar aos portos chineses. Assim, o capitão-mor da expedição e os seus homens foram obrigados a permanecer no porto de Malaca durante cerca de um ano. E entretanto, em finais de 1516, puderam trocar impressões com Rafael Perestrelo, que, chegando à praça portuguesa de regresso da sua expedição de 1515 ao litoral chinês, comprovou tanto a elevada rentabilidade da viagem da China, como o ambiente francamente acolhedor que era, proporcionado aos portugueses. Fernão Peres largou de Malaca em Junho de 1517, comandando uma armada de sete ou oito velas, e dois meses mais tarde chegava finalmente às ilhas do litoral cantonense. A partir de então, e durante mais de um ano, o capitão-mor e vários navios da sua armada permaneceriam em território chinês. Uma parte da armada, a bordo da qual seguiam Fernão Peres e Tomé Pires, ultrapassou as ilhas da embocadura do rio das Pérolas, onde até então os portugueses haviam realizado os seus negócios, e rumou directamente a Cantão, não sem alguma resistência das autoridades chinesas. A chegada dos navios portugueses à cidade de Cantão causou assinalável escândalo entre a população, não só pelo ineditismo da situação, mas também pelo comportamento invulgar dos estrangeiros, que dispararam ruidosamente os seus canhões, numa forma para eles tradicional de saudar os locais onde chegavam. Mas, após a comoção inicial e as imediatas explicações do capitão-mor, a situação normalizou-se de todo e os portugueses foram autorizados pelos mandarins cantonenses a ancorar às portas da cidade. Por um lado, as mercadorias foram desembarcadas e deu-se início a um prolongado período de frutuosos intercâmbios mercantis. Por outro lado, Tomé Pires e os seus acompanhantes foram desembarcados, logo seguindo para Pequim o pedido de autorização para a embaixada seguir para a capital imperial. Mas se os negócios correram de forma extremamente auspiciosa, o mesmo não se passaria com a missão diplomática, pois mais de três anos se haveriam de passar antes de Tomé Pires rumar a Pequim. Como depois se veio a verificar, as relações externas da China eram regidas por um rigorosíssimo protocolo, que apenas previa a recepção de embaixadas tributárias de estados formalmente vassalos do Império do Meio. Os hábitos diplomáticos europeus, como os portugueses viriam a constatar de forma trágica, não tinham aplicação na China, e muitos anos seriam necessários para que as relações luso-chineses, do ponto de vista oficial, se normalizassem. Mas a estadia da armada de Fernão Peres em Cantão não deixou de constituir um estrondoso sucesso a vários títulos. Em primeiro lugar, tanto o capitão-mor como os seus homens fizeram proveitosos negócios com os mercadores cantonenses, adquirindo significativas quantidades das mais valiosas mercadorias chinesas (porcelanas, sedas, almíscar, ruibarbo, raiz-da-china, etc.). Em segundo lugar, os portugueses visitaram repetida e demoradamente a cidade de Cantão, anotando com cuidado os principais traços urbanos da grande metrópole chinesa. Em terceiro lugar, puderam recolher valiosas informações sobre múltiplos aspectos da realidade chinesa, desde a topografia e a hidrografia de partes consideráveis das províncias de Guangdong 廣東 e Fujian 福建, até aos hábitos e costumes das populações chinesas ribeirinhas, passando pelas características mais salientes da organização política e administrativa e das actividades culturais e religiosas. Em quarto lugar, Fernão Peres deixava aberta a porta para um posterior desenvolvimento das relações luso-chinesas, pois conseguira impor junto das autoridades cantonenses uma imagem basicamente positiva dos portugueses. Esta imagem, aliás, fora consolidada pelo anúncio público que mandara fazer pelas ruas de Cantão, afirmando que estava disposto a satisfazer todas as reclamações que os chineses tivessem contra os portugueses e a reparar quaisquer danos ou dívidas atribuídas aos homens da sua tripulação. Em meados de 1518, enfim, os navios portugueses abandonaram o porto de Cantão, navegando até às ilhas do litoral, para de seguida, em finais de Setembro, rumarem a Malaca, onde chegariam cerca de um mês mais tarde. Nas palavras elogiosas do cronista João de Barros, Fernão Peres de Andrade, para além de deixar a China assentada, voltara de lá “mui próspero em honra e fazenda, coisas que poucas vezes juntamente se conseguem “. Eventualmente, o capitão-mor regressou à Índia, durante o ano de 1519, para logo depois seguir para Portugal, onde chegaria a salvamento em 1520. Seria depois recebido em Évora, por el-rei D. Manuel, a quem deu demorada conta das suas aventuras chinesas, como testemunha o cronista Damião de Góis, na sua Crónica do reinado daquele monarca. Terá recebido devida recompensa da coroa portuguesa, pois em anos seguintes vemo-lo desempenhar importantes cargos de nomeação régia, que valerá a pena referir resumidamente, complementando o ‘episódio chinês’, certamente o mais celebrado na sua biografia. Em 1521, Fernão Peres comanda a armada que leva a França a Infanta D. Beatriz, que casara com o duque de Sabóia por procuração. Nos anos seguintes, prestou várias vezes informações no conturbado processo da Questão das Molucas. Em algumas ocasiões comandou armadas de defesa da costa portuguesa (1528). E em 1533 poderá ter estado na Costa da Malagueta, sempre em serviço oficial. Efectuou também diversas e importantes viagens ao litoral de Marrocos, em missões relacionadas com a defesa das praças portuguesas, visitando nomeadamente Azamor e Mazagão (entre 1523 e 1541). Voltou ao Oriente por duas vezes, pois em 1535 e 1544 encontramo-lo como capitão-mor da armada da carreira da Índia. Teve, pois, uma agitada carreira de homem de armas, sempre em posições de destaque. Estas circunstâncias explicam que em 1542 tenha sido oficialmente nomeado conselheiro de D. João III (r.1521-1557); que em 1546 lhe tenha sido atribuído o destacado cargo de Provedor dos armazéns da cidade de Lisboa e armadas, com competência sobre as armadas da Índia; e que em 1549 tenha também tomado posse do cargo de Armador-mor. Peres de Andrade faleceu em Julho de 1552. Todas as fontes coetâneas confirmam que, depois da viagem de 1515-1520 à China e durante mais de três décadas, Fernão Peres de Andrade desempenhou cargos de destaque nos meios marítimos e ultramarinos portugueses. As suas experiências no Mar do Sul da China adquiriram excepcional repercussão pelo facto de ele próprio ter fornecido ao cronista João de Barros elementos essenciais para a composição das abundantes notícias sobre Cantão em particular e sobre a China em geral que figuram na Ásia – Década III, que foi impressa em Lisboa em 1563. Alguns historiadores sugerem mesmo que, depois da visita efectuada a Cantão, onde pôde observar com vagar variados aspectos da construção naval chinesa, Fernão Peres teria sido responsável pela introdução em Portugal de duas inovações de carácter técnico neste domínio: a calafetagem dos navios à maneira chinesa e a aplicação de varandas traseiras aos navios de maior porte. Bibliografia: LOUREIRO, Rui Manuel, Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI, (Lisboa, 2000); SMITH, Ronald Bishop, Fernão Peres de Andrade, (Lisboa, 1981).
ANDRADE, FERNÃO PERES DE (?-?)
Nascido em 1878 na cidade de Ovar, no norte de Portugal, Jaime Artur Pinto do Amaral viria a formar-se como médico nos primeiros cursos de Medicina abertos pela Universidade do Porto, depois vivendo, trabalhando e falecendo em Macau já em 1932. Optando por exercer medicina no quadro das novas divisões do exército colonial português, chegaria à patente de coronel e conseguiria dirigir também demoradamente os Serviços de Saúde de Macau reorganizados no final do século XIX. Entre as suas diferentes missões e actividades profissionais tem especialmente interesse para a investigação histórica a sua participação como médico principal nas célebres campanhas militares que, normalmente conhecidas como guerras de Manufahi, permitiriam vencer revoltas locais e alargar a soberania colonial portuguesa em Timor Oriental. Estendendo-se entre 1912 e 1914, estas difíceis ofensivas militares coloniais apenas seriam vencidas com sucesso graças à mobilização de soldados recrutados em Moçambique e à acção decisiva da marinha colonial sedeada em Macau, organizada em torno da célebre canhonheira “Pátria”, cujas aventuras timorenses foram magistralmente registadas em livro importante por Jaime do Inso. O papel de Pinto do Amaral nas campanhas de Manufahi foi não apenas relevante no campo da assistência médica, mas permitiu também organizar o registo escrito e, mais extraordinariamente ainda, fotográfico destas quase paradoxais ofensivas militares em que um punhado de soldados vindos de Macau e de Moçambique conseguiu dissolver as rebeliões de vários régulos timorenses sobretudo graças à mobilização de tropas indígenas oriundas dos reinos do leste, aproveitando essa mais do que plurissecular divisão territorial e cultural opondo os lorosae aos loromonu. Vários dos relatos circunstanciados destas campanhas militares da guerra de Timor viriam a ser pormenorizadamente publicados por Pinto do Amaral no “Boletim da Província de Macau e Timor”, um orgão oficial em que, entre muitas decisões e nomeações oficiais, se aceitava difundir publicamente muitos relatórios e memórias importantes sobre a vida política e social de dois territórios na altura ainda com fortes ligações administrativas. Em quase uma dezena de relatórios, o nosso coronel-médico vai debuxando uma estranha guerra em que escasseavam os soldados europeus profissionais, sobrava em aventureirismo o que faltava em armamento moderno, disfunções graves a juntar a um imenso rol de problemas sanitários, falta de equipamentos e muito pouca disciplina castrense. A guerra haveria de se decidir pela confrontação quase estranha de timorenses do leste contra esses outros timorenses revoltados nas partes centrais e ocidentais de Timor Leste. Munido de uma máquina fotográfica, Pinto do Amaral registou igualmente espantosas e estranhas fotografias da guerra de Manufahi. O espólio perdeu-se quase completamente com a excepção de um punhado de eloquentes fotografias que chegariam para sobreviver ao Museu de Antropologia da Universidade do Porto em que começava a pontificar a actividade de antropologia colonial de Mendes Corrêa. Ainda hoje se conserva no museu que guarda o nome do antropólogo portuense uma pequena colecção de sete fotografias da “reportagem” de Pinto do Amaral esclarecendo uma guerra decidida nos exactos termos da cultura bélica tradicional timorense: exposições de cabeças cortadas, muitas e macabras, exibidas em Díli e noutros espaços ocidentais do Timor Oriental marcam o universo simbólico de uma guerra quase fratricida, mas apenas encerrada quando as cabeças dos revoltados se separavam do seu corpo para lhes retirar definitivamente, como acreditavam as culturas tradicionais de Timor, toda a sua força vital. Estes fragmentos tétricos de uma campanha também fotográfica devem cruzar-se com as críticas reportagens que Pinto do Amaral nos legou dessa guerra conseguindo definitivamente estabilizar a soberania portuguesa em Timor Leste graças a esses timorenses súbditos fiéis da nova República fundada em 1910, a somar também a um indispensável apoio de militares e funcionários, dinheiros e equipamentos dispensados por Macau. Bibliografia: INSO, Jaime do, Timor, 1912, (Lisboa, 1932); PÉLISSIER, René, Timor en Guerre. Let les Portugais (1847- 1913), (Orgeval, 1996) ; SOUSA, Ivo Carneiro de, “Para a História das Relações entre Macau e Timor (Séculos XVI-XX)”, in Revista de Cultura, n.° 18, (Macau, 2006), pp. 13-22.
AMARAL, JAIME ARTUR PINTO DO (1878- 1932)
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?). Soldado, capitão e comerciante português que viveu no século XVII. Pouco se sabe dele. No entanto, deixou um manuscrito sobre o relato das suas viagens pelo Oriente, encontrando-se uma das cópias na Biblioteca da Ajuda, com o título Advertência de muita Importância há Magestosa Coroa del Rey N. Sor D. João V e Apresentadas ao Conselho de Estado da Índia na Mão do V Rey D. Filipe por Jorge Pereira(?) de Azevedo, Morador na China em 1646 (cód. 54-XI-21-9). No referido documento fornece uma visão geral do império português do Oriente, por onde passou, realizando em simultâneo uma análise crítica sobre a decadência do mesmo, sugerindo diversas maneiras de ultrapassar a crise utilizando os recursos existentes. Refere que o Estado da Índia se encontrava completamente miserável e era pouco evangelizado, indicando que a Coroa portuguesa corria sérios riscos de o perder. Na sua opinião, havia uma má gestão do mesmo. Começa o texto destacando que teve uma experiência de vinte e quatro anos na Índia, servindo como militar, mas ao mesmo tempo como comerciante, referindo ser prática na época. Fundamenta as advertências que faz ao rei D. João V através da experiência adquirida nas zonas em análise, como militar, mas essencialmente como comerciante. O relato das suas viagens começa em Moçambique, onde afirma ter conhecido a zona dos rios Cuama, e as cidades de Mombaça e Melinde. Ao longo do texto vai indicando nomes de capitães, como o de Nuno Álvares Botelho, capitão do navio onde viajou, atravessando o estreito de Mascate e aportando a Diu. Percorreu também a área de Samatra, dizendo que foi através dos holandeses que visitou Jacarta. No entanto, diz concretamente que até à data da redacção do documento não tinha estado no Bornéu, Macassar, Solor e Timor. Indica que a época mais próspera para a gente lusa no Oriente foi quando se deslocavam por ano nove naus com cerca de quinhentos a mil homens. Relativamente a Macau, a que dedicou uma parte do manuscrito, visitou-a por volta de 1643, referindo haver um número muito elevado de mulheres cristianizadas. Considera que a viagem do trato ao Japão já não era suficiente, devido ao crescimento excessivo da cidade. No texto vai tomando em consideração várias hipóteses de como Macau se recuperar devido à perda do comércio com o Japão e a tomada de Malaca pelos holandeses, sugestões baseadas em rotas comerciais alternativas dentro da zona. Todo o texto está escrito de forma fluente e, aparentemente, com conhecimento directo dos lugares indicados. Bibliografia: MATOS, Artur Teodoro de (ed.), “‘Advertências’ e ‘Queixumes’ de Jorge Pinto de Azevedo a D. João IV, em 1646”, in Povos e Culturas, n.° 5, (Lisboa, 1996), pp.431-545.
AZEVEDO, JORGE PEREIRA DE (?-?)
Joaquim Morais Alves foi, pela sua intervenção cívica, uma das personalidades mais marcantes de Macau na segunda metade do século XX. Quando faleceu, em 27 de Março de 2003, diversos organismos públicos e privados prestaram-lhe justas homenagens, tendo as sessões mais participadas sido as promovidas pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pela Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM). Para a primeira, foi escolhido o dia 24 de Junho, antigo Dia da Cidade de Macau que, para ele como para a comunidade macaense, tinha especial significado. Lembre-se que Joaquim Morais Alves foi presidente do Leal Senado da Câmara de Macau, cargo que desempenhou com particular distinção e que assumiu num momento muito difícil, imediatamente após os graves incidentes do chamado “Um, dois, três”, prolongamento local da “Revolução Cultural” que ainda incendiava os espíritos e os corações da juventude chinesa. Além disso, havia sido proclamado Cidadão Emérito de Macau, pois amava esta cidade como se fosse verdadeiramente a sua terra natal, apesar de não ter nascido na mesma. A sessão na APIM foi organizada na sequência da reunião da sua Assembleia Geral, na qual, por decisão unânime, foi atribuída a categoria de sócio honorário a duas personalidades marcantes da comunidade macaense: o Dr. Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção e o Comendador Joaquim Morais Alves. Foi marcada para 29 de Novembro, para que os presidentes das Casas de Macau, presentes na região, preparassem, com a respectiva comissão organizadora, o grande “Encontro das Comunidades Macaenses – Macau 2004”, e participassem na evocação sentida daqueles ilustres macaenses. Paralelamente, na mesma altura, que foi também relembrada a acção de Morais Alves como presidente dos primeiros encontros das comunidades. Nesse dia 24 de Junho foram lançados no auditório do IIM três livros sobre a sua vida e obra, os quais continham parte significativa do seu rico testemunho e reflectiam bem as preocupações e as realizações de um homem simples, que soube também ser um homem grande, um grande Português, um macaense autêntico, um “Macaense de Trás-os-Montes”, como ele sempre quis que o apelidassem. Este foi igualmente o título escolhido para um desses livros, cuja preparação se deveu à dedicada coordenação do escritor João Correia dos Reis. No número 10 da revista Oriente/Ocidente, editada pelo IIM, que saiu a seguir ao seu falecimento, foi-lhe dedicada uma evocação, contendo uma feliz síntese do seu percurso cívico e profissional. Vem a propósito transcrevê-la parcialmente: “Joaquim Morais Alves foi uma das mais destacadas figuras de referência da comunidade portuguesa de Macau, personalidade emblemática para as velhas e novas gerações de portugueses aqui viventes. / O seu passamento foi profundamente sentido pela comunidade, sobretudo pelos mais antigos portugueses nascidos ou residentes em Macau. / Figura de referência cívico-moral entre a comunidade portuguesa de Macau, cidadão exemplar, pautou a sua vida por ordenação a elevados valores, professando sempre o portuguesismo nos seus actos públicos, mesmo em circunstâncias adversas. / Natural de Vila Real, Morais Alves chegou a Macau com 16 anos, tendo levado uma vida marcada pela actividade cívica, reconhecida em numerosas condecorações, incluindo a comenda e a medalha de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. / Joaquim Morais Alves, que era Secretário Geral da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), foi também presidente do Leal Senado de Macau, fundador e administrador da Companhia de Electricidade de Macau, director dos Serviços de Planeamento, presidente do Conselho de Educação Física, presidente da Comissão de Imple¬mentação da Língua Chinesa na Administração de Macau, membro do Conselho Judiciário de Macau, membro do Conselho da Universidade de Macau e curador da Fundação Macau. / Presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, presidente da delegação de Macau da Cruz Vermelha Portuguesa e presidente do Comité Olímpico de Macau foram outros cargos que Morais Alves desempenhou no âmbito da sua actividade cívica, onde se destacou também a sua função de deputado à Assembleia Legislativa de Macau. / O Comendador Joaquim Morais Alves era também presidente da Assembleia Geral do Instituto Internacional de Macau e a sua ligação ao IIM vinha desde os inícios da sua constituição, sendo a sua colaboração, muito mais do que nominal, solidária, participativa e entusiástica. / Joaquim Morais Alves foi também agraciado com o título de Cidadão Emérito de Macau. / Recordá-lo-emos como se nos apresentava sempre em vida: personalidade cordial, elegante e dedicada. / Tomados de um profundo sentimento de pesar pelo seu passamento e pela sua ausência, é também em cultivo e assunção positiva do nosso espírito institucional que nos comprometemos a fazer o que pudermos para conservar e valorizar a sua memória em Macau.” Foi neste espírito e cumprindo este solene compromisso que o IIM atribuiu à sua biblioteca o nome do Comendador Joaquim Morais Alves e que esta organização não-governamental promoveu em Lisboa, conjuntamente com a Casa de Macau em Portugal, mais uma homenagem a este seu sócio honorário, cuja fotografia figura há muitos anos na galeria de honra daquela Casa. A introdução ao livro Joaquim Morais Alves – Um Macaense de Trás-os-Montes insere uma frase do velho filósofo Lao Zi 老子, a um tempo simples e profunda: “não se expondo a si próprio, resplandece, não se gabando dos seus méritos, é por isso honrado, não se ufanando do que fez, tem por isso carácter, não se vangloriando a si mesmo, é por isso respeitado”. Foi assim em vida Joaquim Morais Alves. Assim será lembrado até à eternidade. Bibliografia: Oriente/Ocidente, n.° 10, (Macau, 2003); RANGEL, Jorge A.H., Falar de Nós, (Macau, 2004); REIS, João, Joaquim Morais Alves – Um Macaense de Trás-os-Monte, (Macau, 2003).
ALVES, JOAQUIM MORAIS (?-2003)
Jorge Álvares não chegou a assistir à instalação dos portugueses em Macau. Contudo, o seu nome está indelevelmente ligado à história das relações luso-chinesas, pois, tanto quanto se consegue apurar, foi ele o primeiro português que aportou ao litoral da China, em 1513. Logo depois da conquista de Malaca, dois anos antes, Afonso de Albuquerque, então governador do nascente Estado Português da Índia, diligenciou no sentido de estabelecer contactos amigáveis com muitas das regiões que anteriormente mantinham relações comerciais com o porto malaio. Logo em 1511 e no ano seguinte, foram despachadas diversas expedições com destino ao Sião, ao Pegu, a Banda e às Molucas. Tratava-se, por um lado, de tentar manter a enorme importância de Malaca no contexto mercantil do Sudeste Asiático, desviando, em benefício dos portugueses, uma importante parte do tráfico que por ela passava. E, por outro lado, procurava-se atingir os principais centros produtores e distribuidores das mais valiosas mercadorias asiáticas e também de produtos de primeira necessidade. Juncos oriundos da China frequentavam regularmente Malaca desde as primeiras décadas do século XV. E em Malaca, tanto em 1509 como em 1511, os portugueses puderam manter contactos com mercadores chineses, apercebendo-se desde logo da extraordinária importância da China, enquanto grande potência, nos mares da Ásia Oriental. Assim, o estabelecimento de relações directas entre Malaca e os portos do Celeste Império seria, agora, apenas uma questão de oportunidade. Documentos vários comprovam que em 1512 os portugueses adquiriram, no porto de Martabão, um junco especialmente destinado à viagem à China. E o feitor encarregado desta compra não foi outro senão Jorge Álvares, homem de armas português que estava então naquelas partes. De regresso a Malaca, a expedição à China foi organizada pelas autoridades portugesas da praça, em colaboração com Nina Chatu, poderoso mercador quelim ali sedeado, tendo a embarcação sido carregada de pimenta, o produto que melhor se vendia nos mercados chineses. Este procedimento, do ponto de vista português, visava minorar os eventuais riscos de uma viagem a regiões ainda imperfeitamente conhecidas. O junco malaio-português, veio efectivamente a aportar ao litoral meridional da China, nas proximaidades de Cantão, em Julho ou Agosto de 1513. A bordo seguiam três portugueses: o feitor Jorge Álvares; o seu filho, que viria a falecer pouco tempo após a chegada à China; e um terceiro português ainda não identificado. Por ocasião desta primeira jornada, os portugueses ancoraram em Tamão, que tem sido identificada com Lin-Tin (Lingding 伶仃), ilha então semi-deserta do estuário do rio das Pérolas, situada a cerca de três léguas da costa chinesa. Ali se efectuavam normalmente as transacções entre mercadores malaios e os chineses do continente fronteiro, que acorriam a Tamão uma vez por ano, na altura da monção apropriada. Durante cerca de seis meses, Álvares e o seu companheiro permaneceram no litoral chinês, fazendo os seus negócios e, simultaneamamente, recolhendo informações detalhadas sobre a China e os chineses. Tiveram mesmo oportunidade de levantar, na ilha de Tamão, um padrão de pedra com as armas de el-Rei D.Manuel (r.1495-1521), que, curiosamente, não seria de imediato destruído pelas autoridades chinesas. O junco de Jorge Álvares regressou a Malaca em Março ou Abril de 1514, após uma jornada que variados documentos confirmam ter sido excepcional, do ponto de vista mercantil, uma vez que as trocas realizadas proporcionaram enormes dividendos. De entre as muitas mercadorias trazidas da China, especial destaque mereciam as porcelanas e as sedas. A viagem pioneira de Jorge Álvares abriu aos portugueses as portas da China, que em anos imediatos se viria a revelar um destino privilegiado para as embarcações de Malaca, esboçando-se mesmo um projecto, logo abandonado, de construção de uma fortaleza em território chinês. Ao mesmo tempo, permitiu a recolha das primeiras informações vivenciais sobre o Celeste Império. Sabe-se que Jorge Álvares, após o regresso a Malaca, preparou um extenso relatório, cujo paradeiro hoje se desconhece. Mas muitas das notícias nele incluídas seriam logo de seguida incorporadas na Suma Oriental, extenso tratado de geografia asiática preparado por Tomé Pires. Jorge Álvares, nos anos que se seguiram ao início das relações directas dos portugueses com a China, permaneceu em Malaca, efectuando ainda várias viagens ao litoral chinês. Em meados de 1518, estava novamente em Tamão, em viagem de negócios e, ao mesmo tempo, em comissão de serviço, levando mensagens do capitão de Malaca para Fernão Peres de Andrade, capitão português então ancorado junto à cidade de Cantão. É provável que nesta ocasião Álvares tenha visitado a grande metrópole do sul da China. Em 1520, estava outra vez na Baía de Cantão, em nova expedição mercantil. Mas esta viria a ser a sua última visita a terras sínicas, pois seria atacado de grave doença durante vários meses, da qual veio a falecer a 8 de Julho de 1521, no ancoradouro da Veniaga, outro nome atribuído a Tamão. João de Barros, o grande cronista português do século XVI, evocando o feito deste português em terras do Oriente, relembra, nas suas Décadas da Ásia, o padrão de pedra que ele ali colocara em 1513, ao lado do qual foi enterrado, e dedica-lhe simultaneamente um comovido epitáfio: “E ainda que aquela região de idolatria coma o seu corpo, pois por honra de sua pátria em os fins da terra pôs aquele padrão de seus descobrimentos, não comerá a memória de sua sepultura, enquanto esta nossa escritura durar”. Bibliografia: BRAGA, José Maria, China Landfall, 1513 – Jorge Álvares’ Voyage to China, (Macau, 1955); KEIL, Luís, Jorge Álvares, o Primeiro Português que Foi à China (1513), (Macau, 1990); SMITH, Ronald Bishop, Jorge Álvares, the First Portuguese to Sail to China, (Bethesda, Maryland, 1973).
ÁLVARES, JORGE (?-1521)
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819). Nascido em Macau e baptizado na Sé, em 1746, Manuel Joaquim Barradas de Azevedo era neto de um “reinol” que, de seu nome Gaspar Barradas de Azevedo, conseguiu prosperar no início do século XVIII investindo nos tratos mercantis da cidade e, como sempre acontecia, chegando à vereação camarária e à mesa da Santa Casa da Misericórdia. A fortuna deste primeiro Barradas de Azevedo passaria para o seu filho varão Sebastião, mas seria consolidada e ampliada pelo seu activo neto Manuel Joaquim. À imagem do avô, cerzindo estreitamente poder económico e representação política, encontrámos Manuel de Azevedo a ocupar sucessivamente os cargos de almotacé camarário, em 1778, depois de alferes-mor, em 1792, chegando no ano seguinte à prestigiada posição de juiz ordinário do, nesta altura, ainda poderoso, Leal Senado. Em 1777, um estratégico casamento com Francisca Antónia Correia de Liger permite concretizar uma aliança fundamental com uma das mais poderosas dinastias políticas e comerciais da parte cristã do enclave. Ao lado do todo poderoso António Correia de Liger, muitas vezes vereador, procurador do Senado e provedor da Santa Casa, e do seu filho Filipe Correia de Liger, Manuel Barradas de Azevedo investe regularmente vários milhares de taéis de prata, sobretudo a partir de 1779, nos barcos e principais destinos comerciais animados por Macau: da Cochinchina a Surate, de Timor a Batávia. Acabaria por falecer na Sé, em 1819, mas deixando descendência que continuou a sua lucrativa actividade mercantil, mas já conveniente e estrategicamente baptizada com o poderoso apelido de Correia de Liger. Bibliografia: SOUSA, Ivo Carneiro de, A Outra Metade do Céu de Macau. Escravatura e Orfandade Femininas, Mercado Matrimonial e Elites Mercantis (Séculos XVI-XVIII), (Macau, 2006).
AZEVEDO, MANUEL JOAQUIM BARRADAS DE (1746-1819)
| Fonte: | Arquivo de Macau, documento n.ºMNL.09.05.F |
| Entidade de coleção: | Arquivo de Macau |
| Fornecedor da digitalização: | Arquivo de Macau |
| Tipo: | Imagem |
| Fotografia | |
| Fotografia de grupo | |
| Preto e branco | |
| Formato das informações digitais: | TIF, 2000x1387, 2.65MB |
| Identificador: | p0004345 |
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