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1710

No dia 2 de Junho de 1710, na tarde deste dia reuniram-se todos os prelados e alguns homens bons, na residência do Governador, Diogo de Pinho Teixeira, a fim de o convencerem a desistir do seu propósito de forçar a entrega da corporação do Senado, que se tinha refugiado no Colégio de S. Paulo, e que fora por ele demitida, originando com isso graves desordens e inquietações que puseram em perigo a cidade. O Pe. Marco da Companhia de Jesus e o Vigário-Geral conseguiram com fortes razões levar o Governador a mandar retirar as sentinelas com que havia cercado o Colégio de S. Paulo. No dia 6 de Junho de 1710, não obstante Diogo de Pinho Teixeira ter mandado retirar as sentinelas que vigiavam o Colégio de S. Paulo, não terminou o conflito, que trazia a cidade dividida em partidos, pois funcionavam dois senados: um, o governamental, na casa da Câmara, e o outro, que fora dissolvido pelo Governador, no Colégio de S. Paulo dos padres da Companhia de Jesus. O Governador convocou neste dia os cidadãos para a eleição do juiz que faltava, sendo sucessivamente eleitos João Soares, Manuel Peres e António Pinheiro, que se recolheram ao Colégio de S. Paulo, à medida que iam sendo eleitos, continuando assim vago o cargo de juiz.

1819

A fragata D. Maria II foi um navio mercante inglês que Portugal adquiriu à Inglaterra em 1831. D. Maria II, a sua patrona e 29.o soberano de Portugal, nasceu no Rio de Janeiro a 4 de Abril de 1819 e morreu em Lisboa, a 15 de Novembro de 1853. Casou em primeiras núpcias com o príncipe Augusto Leuchtenberg, a 28 de Janeiro de 1835, e em segundas núpcias com o príncipe D. Fernando de Saxe-Coburgo Gota, a 9 de Abril de 1836. Personalidade forte, mulher de grande coragem, D. Maria II liderou a Coroa portuguesa num período de grandes convulsões políticas: Portugal lutava pela liberdade e a Constituição, que a Rainha defendeu e respeitou, era o garante dessa liberdade. Foram muitos e historicamente notáveis os movimentos e acções a que esta fragata esteve associada. A fragata D. Maria II esteve presente, em Março de 1832, na expedição liberal à ilha da Madeira, aquando da restituição do arquipélago a D. Pedro IV. Em 1832, integrou a expedição, também liberal, que desembarcou próximo da praia do Mindelo, quando D. Pedro IV, partindo da ilha Terceira, nos Açores, vinha ao Reino para restituir a Coroa a sua filha, D. Maria. Participou nos bloqueios do Tejo em Julho e Agosto de 1832, e regressou ao Porto com a esquadra. Em 21 de Junho de 1833 largou do Porto, inregrada na esquadra liberal, rumo ao Algarve, juntamente com as fragatas Rainha de Portugal e D. Pedro, a corveta Portuense e o brigue Vila Flor. Bateu-se então com a fragata miguelista Princesa Real que tomou, junto ao Cabo de S. Vicente. Em Julho de 1833 participou no bloqueio liberal a Lisboa. A cidade rendeu-se e, a partir deste momento, a causa absolutista – de D. Miguel- ficou sem futuro. Em Setembro de 1833 estava em Sines, para dar protecção a terra. Ainda em Setembro, o capitão-de-mar-e-guerra inglês Charles Napier, que em Junho de 1833 assumira as funções de major-general da armada e de comandante-em-chefe da esquadra liberal, com o posto de vice-almirante, mandou a fragata D. Maria II para Setúbal, sob o comando de Frederick Henry, dada a importância deste porto no desenvolvimento das lutas liberais. O Forte de S. Filipe foi então ocupado. Para além desta presença constante nas movimentações da esquadra liberal, a fragata D. Maria II fez percursos regulares para o Oriente. A 4 de Junho de 1838 largou para a Índia como nau de viagem. Quando regressou ao Tejo, em Setembro de 1839, transportava passageiros e carga de pimenta, rotim, café, cairo, e tamarindo, entre outros produtos. A 7 de Junho de 1842, largou novamente para a Índia como nau de viagem. Levava passageiros para Moçambique e Índia, e ainda armamento e fardamento para o batalhão expedicionário. Chegou a Goa a 23 de Novembro de 1842 e regressou ao Tejo a 2 de Agosto de 1843. A 7 de Maio de 1844 saiu mais uma vez para a Índia e voltou ao Tejo a 25 de Maio de 1845. Trouxe passageiros para Moçambique e carga para Lisboa. A 13 de Junho de 1849, fez mais uma viagem para a Índia, com escala em Moçambique, transportando passageiros e degredados. Entretanto, no intervalo destas duas últimas viagens, mais precisamente em Outubro de 1846, a fragata D. Maria II chefiou o bloqueio à cidade do Porto, com o objectivo de impedir a saída dos navios da Junta Revolucionária. A 5 de Junho de 1847 estava novamente no Tejo. É no Oriente que a fragata D. Maria II termina a sua história, em circunstâncias dramáticas associadas à morte violenta de João Maria Ferreira do Amaral, governador de Macau. Ferreira do Amaral, que tomou posse a 21 de Abril de 1846, determinou imediatamente algumas medidas radicais, como foram a declaração de Macau como porto franco, o estabelecimento de um imposto predial e industrial, que também se aplicava aos chineses, e a determinação do registo dos barcos de transporte. Promoveu a abertura de vias no Território cujo traçado implicou a destruição do cemitério chinês. Desagradados com tais medidas, os chineses levaram a cabo uma revolta em Outubro de 1846, revolta dominada pelo governador, que, em 1847, ocupou militarmente a ilha da Taipae no mesmo ano, mandou edificar o Forte da Taipa. Algumas dificuldades rodearam a construção do forte, nomeadamente decorrentes da oposição manifestada pelos mandarins do Sul. O vice-rei de Cantão chegou mesmo a pedir a suspensão da obra, mas Ferreira doAmaral acabou por convencê-lo da oportunidade e necessidade do forte para a segurança das pessoas e da actividade comercial, quer de portugueses quer de chineses. A bandeira portuguesa foi hasteada pela primeira vez no Forte da Taipa em Setembro de 1847, como corolário da ocupação militar da ilha. A partir de então, o Forte da Taipa tornou-se 'um pequeno baluarte de protecção contra os ataques de piratas que ameaçavam constantemente a vida da população'. Outras determinações de Ferreira do Amaral, como o arrolamento de todos os chineses residentes em Macau, a extinção das alfândegas chinesas (hopu), e a proibição de os mandarins entrarem no território tocando bátega - o que significava a afirmação da soberania chinesa-, criaram ao governador um clima de hostilidade que havia de lhe ser fatal. A 22 de Agosto de 1849 é assassinado por um grupo de chineses, em cuja retaguarda estaria a organização secreta Sociedade dos Rios e dos Lagos. Esta organização representava o movimento chinês de oposição aos projectos de alargamento da soberania portuguesa. Em Setembro de 1849, o vice-rei de Cantão comunicou formalmente ao governo de Macau que o assassino de Ferreira do Amaral havia sido preso e executado. Simbolicamente, em Janeiro de 1850, eram enviadas a mão e a cabeça do governador assassinado. Mas o clima não estava definitivamente pacificado. A fragata D. Maria II, que se encontrava na Índia, entrou em Macau a 3 de Junho de 1850 e fundeou no ancoradouro da Taipa a 24 do mesmo mês. Quando, em Outubro, se preparava para largar, é surpreendida pela violenta explosão do paiol. Era o dia 29 de Outubro de 1850. De manhã embandeirou em arco, porque se celebrava o aniversário do rei D. Fernando. À tarde, a explosão. Ficava assim comprometida a expansão da influência portuguesa por via militar. Junto a um dos muros do Forte, foi erigido em 1851 um monumento evocador das vítimas da explosão da fragata D. Maria II. Perderam a vida 188 dos 224 tripulantes, e cerca de 40 chineses que estavam a bordo ou em embarcações próximas. [M.T.O.]Bibliografia: ESPARTEIRO, António Marques, Três Séculos no Mar (1640-1910), vol. 13, (Lisboa, 1974).

1838

A primeira referência da existência de um museu em Macau é de Andrew Ljungstedt (1836), que diz ter sido fundada uma instituição, em 1829, por amadores de História Natural ingleses que reuniram diferentes produtos da natureza. Mas este museu não se manteve muito tempo, devido à dissolução da feitoria inglesa em Cantão, que levou ao abandono de Macau dos seus fundadores. A 16 de Julho de 1838, por ordem régia, de D. Maria II, institui-se a formação “de um museu que houvesse de comprehender os mais raros productos orientaes”. No ano seguinte, a rainha convida os “habitantes para contribuírem com livros e mapas chineses e japoneses, para se estabelecer uma livraria e museu no Colégio de S. José”, ideias que não vingam devido a dificuldades de instalação. Em 1871, o governo de Macau revelava a intenção de construir um museu e jardim botânico, também sem efeitos práticos. Só em 1883 surgiu um Museu Municipal, que resultou do pedido de Portugal de produtos e objectos para o Museu da Universidade de Coimbra e Museu Colonial, por parte do Dr. Júlio Augusto Henrique, Director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (que em 1878 escrevera uma carta solicitando o material). Pedido que foi satisfeito em 1880 e, que antes de seguir para o reino foi exibido nas salas do Leal Senado. Aquando da inauguração do primeiro evento deste género em Macau, a 2 de Maio, o advogado António Joaquim Basto propôs a criação de um Museu Municipal. Em 1882, segue outra remessa, maioritariamente com produtos de Timor. Na inauguração desta segunda exposição o Dr. José Alberto Homem da Cunha Corte Real, Secretário Geral do Governador de Macau e Timor, proferiu um discurso no qual salientava que “a comissão desde o principio de seus trabalhos pensou na utilidade de organizar um museu local em Macau”, e com permissão do Governador, “deixou um exemplar de todos os produtos (…), constituindo assim um nucleo para servir de principio a este util estabelecimento”. O museu existiu, mas não deve ter cativado muitos adeptos, pois o jornal O Independente (1883) comenta a existência em Macau “sobre um humido e escuro quarto o letreiro – Museu Municipal- le! treiro que pode satisfazer as aspirações do presidente da camara, mas que não satisfaz certamente a dos filhos de Macau”. O museu não tinha sucesso, pois o estímulo e empenho das personalidades locais estavam concentrados para satisfazer os pedidos de aquisições de produtos e objectos para os museus da Metrópole, e na organização das primeiras participações de Macau nas grandes exposições internacionais, como a Exposição em Londres (1862), Porto (1865), Paris (1867), Filadélfia (1877), Exposição de Arte Ornamental Hespanhola e Portuguesa em Lisboa (1881), Exposição Colonial do Palácio de Cristal do Porto (1894) e a Exposição Universal de Paris (1900). O não cumprimento da Portaria Provincial, de 16 de Julho de 1906, votou ao fracasso mais uma pretensão de se constituir um museu, com os objectos do “núcleo de museu” instalado no Hospital Militar de S. Januário, juntamente com outras peças que existissem em Macau. O Governador Eduardo Marques, em Junho de 1910, revela ao Governador de Timor, Alfredo Cardoso Soveral Martins, a “melhor vontade de organizar um museu de exemplares e produtos de Timor, de modo a facultar o conhecimento dos recursos e condições da província […]às pessoas que visitarem esta cidade, e satisfazer a avidez de informações com que comerciantes, capitalistas e aventureiros por vezes acorrem a Macau”. Vontade que se concretizou através da portaria n°231, de 4 de Novembro, que criou um Museu e, cujos objectivos eram: reunir, preservar, estudar e mostrar “todos os elementos de valor histórico, relativos ao estabelecimento dos portugueses em Macau e a sua acção no Extremo-Oriente” e, criar um mostruário de produtos de Timor. Determina-se assim, a formação de “um museu histórico, ethnographico, physiographico, commercial e industrial, sob a designação “Museu Luiz de Camões”, com a “incumbência de velar pela guarda e conservação dos monumentos” e, qu! e ficaria instalado no edifício do Jardim da Gruta de Camões. Nomeou-se uma comissão directora, com duas categorias de vogais: natos (6 representantes de instituições de Macau) e os nomeados (Camilo d’Almeida Pessanha, Dr. Lourenço Pereira Marques, Capitão Eduardo Cirilo Lourenço, Carlos da Rocha Assunção). Mas, como era impossível reunirem-se todos gorou-se o museu. Daí que, a 12 de Outubro de 1911, o governador interino Álvaro de Melo Machado, exonera a comissão substituindo-a por uma composta apenas por três vogais: Capitão Ribas da Silva, José Vicente Jorge, Manuel Ignácio Resende (todos colec-cionadores de arte chinesa). Mas nada se sabe desta comissão, apenas que elegeram entre si para Presidente Manuel Ignacio de Rezende. Em 1914, o jornal O Progresso publica um artigo intitulado “Um Museu em Macau”, enumerando as dificuldades da instituição: localização complicada para um estrangeiro que não conheça a cidade, dizendo ser apenas um salão de estruturas velhas com trapos, bocados de madeira e produtos de Timor. E, que o governo devia reunir pinturas e gravuras antigas de Macau para exibir no Museu, e não tão pobre mostruário só de peças não artísticas de Timor. Sem desenvolvimento e apoios, a comissão do Museu opta pela sua extinção a 2 de Junho de 1919 e, ceder os seus artigos para o futuro museu marítimo. Em 1920, surge a associação “Instituto de Macau”, que queria promover a conservação do património de Macau e criar um museu. Mas também as suas boas intenções se goraram, fizeram algumas conferências, mas depois cessaram as actividades. Só em 1926, sob o impulso da organização da Exposição Industrial e Feira da Macau, se consegue reunir material suficiente e pessoas motivadas para a criação de um museu. A 5 de Novembro de 1926, é publicada a portaria n°221 pelo Governador Hugo Carvalho de Lacerda Castelo Branco, em que considera indispensável um mostruário para fins comerciais de produtos de Portugal e suas colónias, nomeadamente de Timor, sendo a exposição industrial uma ampliação deste mostruário. Recomenda que o Museu agregue uma colecção de exemplares da fauna e flora da região, que a Comissão de Pescarias estava a organizar. Com o Palacete da Flora devoluto resolvia-se a dificuldade das instalações, e agora, sob o nome de Museu Comercial e Etnográfico “Luiz de Camões”, o espólio iria constituir-se com os artigos da Exposição Industrial, os dispensados pelas repartições e, completando-se à medida das possibilidades com artigos doados e emprestados. Dependente da entidade administrativa do Porto, tinha essencialmente um carácter comercial e industrial, devendo ser administrado por um funcionário da administração do Porto. E mais, determinava-se que o Jardim da Flora se tornaria num jardim botânico da colónia. O Governador nomeia para a Direcção do Museu como Director principal o engenheiro João Carlos Alves, para Director da secção do mostruário o missionário Manuel José Pita e, para Director da secção do museu o professor do Liceu Central, Dr. Telo de Azevedo Gomes. Esta direcção de três pessoas foi de facto mais diligente, escreveram cartas a várias entidades, empresas de Macau, das colónias e Portugal pedindo colaboração no envio de mostruários e, apresentando as vantagens promocionais e comerciais ao facultarem os seus produtos para serem expostos no Museu. Em 1927, enviaram uma colecção de produtos para o Japão, organizam um “Concurso Fotográfico e Expo-sição de Arte”. Entre 1927-1930 conseguiram reunir muitos objectos e produtos, sobretudo comerciais. Iniciaram também o Projecto da Biblioteca a instalar em algumas salas do andar nobre do edifício do Leal Senado. Redigiram ainda o “Regulamento dos Serviços do Museu Comercial e Etnográfico “Luís de Camões” (1927), que definia como objectivos: estudar a acção e influência portuguesa no Oriente; organizar mostruários de arte, comércio, indústria, história, biologia marítima; organizar uma biblioteca pública; fomentar a defesa da indústria e comércio de Macau; proporcionar o estudo da arte, história, comércio e suas relações com as regiões limítrofes e colónias do Oriente. O museu desenvolveria as seguintes secções: Biblioteca, Etnografia-Histórica, Biologia Marítima e Comercial e, as que as circunstâncias recomendem. A Direcção era composta por três directores nomeados pelo Governador, que elegiam entre si o presidente, competindo-lhes: gerir os fundos e o desenvolvimento da instituição, promover a organização de mostruários permanentes nas principais cidades do Extremo- Oriente, Portugal e Colónias Portuguesas e, reunir uma vez por mês. Em Dezembro de 1928, o Cónego António Maria de Morais Sarmento foi nomeado Director do Museu, cargo que manteve até aos anos 50. Entretanto o Palacete da Flora teve de ser desocupado, e a Secção Comercial foi transferida para o rés-do-chão da Santa Casa da Misericórdia, e a secção de Arte Sacra, Etnográfica e Artística para o primeiro andar do Leal Senado, reabrindo ao público em Junho de 1929. O Inspector dos Serviços Económicos, Pedro José Lobo, apresenta em 1931, uma Proposta de Organização dos Serviços de Turismo com um projecto para um Diploma Legislativo: criando uma Agência de Turismo que entre outras coisas iria “Organizar um Museu- Biblioteca, aproveitando os livros e artigos existentes no actual Museu, que ficaria anexado aos serviços de turismo”. Mas após os protestos da Direcção do Museu, que não foi consultada, o Governador decide a 16 de Julho de 1931, através da portaria n°691, que o Museu e Biblioteca passariam para a tutela da Inspecção de Instrução Pública. Em 1932 é anunciada a venda da valiosa colecção de Manuel da Silva Mendes, e logo se vislumbra uma oportunidade única para enriquecer o Museu com uma valiosa e rara variedade de peças de arte chinesa: pintura, bronzes, cerâmica, porcelana chinesa, destacando-se as cerâmicas de Shec Wan (Shiwan 石灣), e pintura do século XIX designada por China Trade. A Direcção do Museu pede ao Governador para que seja nomeada uma comissão, para estudar a possibilidade de compra das peças de arte e alguns livros sobre arte chinesa que muito conviria à Biblioteca. Mas não havia dinheiro, então a comissão dirigiu-se ao Inspector dos Serviços Económicos, e insistiu para que se fizesse uma subscrição entre os capitalistas chineses, que juntamente com alguma verba dos Serviços Económicos e do Museu foi suficiente para comprar a colecção. Mas, em Julho de 1933, surge uma nova contrariedade, a Santa Casa da Misericórdia pede que seja removida a Secção Comercial do seu edifício, pois necessita do espaço. Pensa-se então em transferir os mostruários para a Inspecção dos Serviços Económicos, mas o edifício não tem condições, e decide-se encaixotar e arrecadar provisoriamente todo o material na Fábrica do Ópio. Só que esta medida de provisória passou a definitiva e o material acabou por estragar-se, e assim a Secção Comercial desapareceu. Este encerramento dos mostruá-rios dos produtos naturais e industriais, na mesma altura em que se fizera a aquisição da colecção de peças de arte da colecção Silva Mendes contribuiu para a alteração do conteúdo museológico, agora mais etnográfico e artístico, e com um elevado número de peças em exibição. Dá-se uma alteração dos objectos expostos e consequentemente de objectivos, em relação ao que fora definido sete anos antes, aquando da fundação do museu em 1926. Nos anos seguintes instala-se uma crise económica que não permitiu o desenvolvimento do Museu, e o projecto de um edifício próprio ou alternativo foi sendo adiado. Em 1936, já sem rumo, o museu volta a ser transferido para outro serviço. Em virtude da Carta Orgânica do Império Colonial Português, o Ministério das Colónias decreta, a 18 de Abril, que o Museu e a Biblioteca Pública (apresentados como entidades separadas) ficam sob a tutela da Repartição Central dos Serviços da Administração Civil. E neste mesmo ano, o edifício do Leal Senado necessita de obras urgentes, tendo a Secção Etnográfica e Artística do Museu de ser removida mais uma vez. Opta-se pelo edifício de Santa Sancha, onde ficam amontoadas em condições precárias as cerca de 1.400 peças, inaugurando-se estas novas instalações a 12 de Dezembro. Em Abril de 1937, várias peças estavam já muito danificadas, pelo que no mês seguinte o Governador determinou a remoção imediata dos objectos para três compartimentos do edifício da Imprensa Nacional (Casa junto ao Jardim Camões, também chamada Casa Garden, onde ficou instalado o primeiro museu entre 1910-1919), e onde ficou o museu até ao seu encerramento definitivo. A partir daí, foi apenas uma “arrecadação”, com um director, o Cónego António Morais Sarmento, e um guarda, situação que permaneceu até finais dos anos 50. Todas as atenções e fundos estavam voltadas para a Biblioteca, esqueceram-se do Museu! O jornal União, em Maio de 1944, dá-nos conta de que “encafuado numas lôbregas salas do velho casarão da Imprensa Nacional há também um museu público ou coisa que o quer ser. O lugar é impróprio e a disposição é má. Está tudo ao trouxe mouxe”. Só em 1952, surge um novo interesse na sua reabertura, por parte do Governador Joaquim Marques Esparteiro, que pede aos Serviços da Fazenda e Contabilidade uma resenha da legislação que regula o “Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões”. E em 1954, perante a desocupação total do edifício onde ficava a Imprensa Nacional, decide tomar providências para aí instalar o Arquivo Geral da Província, assim como todo o recheio do Museu. Nomeia uma comissão que deverá apresentar com urgência a indicação dos trabalhos a realizar e custos. Destacou o Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, o Intendente Administrativo José Peile da Costa Pereira, o Chefe da Repartição das Obras Públicas Engenheiro José dos Santos Baptista, e o Professor do Liceu Nacional Luís Gonzaga Gomes para tratar da restauração do edifício e arrumar os objectos do museu. As obras de madeiras foram custeadas pela Comissão do Centenário do Estabelecimento de Macau, que incluiria no seu programa de festejos a sua reabertura, o que não chegou a acontecer. Luís Gonzaga Gomes elabora um relatório com a lista de objectos existentes no Museu para o estudo da adaptação das salas, sendo três delas, as do fundo, “onde actualmente se encontra alojado o recheio do Museu, para o Arquivo”, e as outras seis salas para as exposições. Planeava-se para Janeiro de 1956 a reabertura das remodeladas instalações, sob a nova designação de “Museu Luís de Camões”, mas com o regresso do governador a Portugal o projecto voltou a desvanecer. A 4 de Outubro de 1958, um Diploma Legislativo define que o museu e seu recheio são transferidos, a partir de 1 Janeiro de 1959, para o Leal Senado, assim como as suas despesas. Foi sob esta nova tutela que em 1960 voltou a abrir o museu. O Presidente do Leal Senado, Pedro José Lobo, (conhecido amante das artes, que já em 1945 tinha doado ao Museu sessenta aguarelas de Macau de George Smirnoff ) solicita obras urgentes para reparar o edifício, a inaugurar a 25 de Setembro de 1960, para as Comemorações Henriquinas. Nomeou-se para conservador Luís Gonzaga Gomes, que realizou nova selecção, classificação, distribuição e arrumação. O Anuário de Macau de 1965, menciona a existência de sete salas, uma Secção Sacra e uma Secção de Pintura, onde se exibiam as peças da colecção Silva Mendes e alguns quadros e imagens das Igrejas e Conventos de Macau. O museu permaneceu estático, sem reformulações até ao falecimento do conservador macaense em 1976, e com continuidade até 1978, os dois anos em que o Museu foi dirigido por Lino Silveira Amaral, conservador-adjunto. Foi com António Conceição Júnior, nomeado conservador em 1978, que o museu iniciou uma nova “vida”, através da fomentação de intercâmbios com outras instituições, que permitiram trazer até Macau várias exposições do exterior. Na mesma altura, o Leal Senado começa a valorizar e promover a Arte e História de Macau, com aquisições de pintura do período China Trade de cenários de Macau, sobretudo de George Chinnery e Auguste Borget para enriquecer o espólio do museu. Outro factor importante foi a visita de José Azeredo Perdigão, presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), a convite do Governo de Macau e Leal Senado, para estabelecer um intercâmbio cultural com o Museu e preparar a Quinzena de Macau (que foi celebrada com uma exposição da colecção do museu na Fundação). Sob este impulso, e algum apoio financeiro da Fundação, iniciam-se, em Fevereiro de 1979, as obras no edifício do museu. A reabertura, a 19 de Novembro de 1980, dá-se com novos moldes museológicos e, com uma equipa de funcionários para o planeamento e organização das muitas exposições. Passados oito anos, já o edifício pedia novamente obras de restauro, e o Governador Carlos Montez Melancia decide então vender o imóvel à Fundação Oriente. Em alternativa, cria em 1988 um “Gabinete para o Complexo Cultural de Macau com o objectivo de projectar e construir um novo museu [para recuperação do “Museu Luís de Camões”] a que será associado um centro de artes visuais”, sendo o seu presidente o conservador do museu. A reabertura era aguardada para cerca de três anos num local diferente. Entretanto o espólio foi armazenado, e os funcionários foram transferidos para o edifício Nam Kwong (Nanguang 南光), onde continuaram a planear as exposições, utilizando a Galeria de Exposições Temporárias do Leal Senado. O projecto inicial do Complexo Cultural elaborado pela comissão previa um aterro a construir-se em frente ao Hotel Presidente, e incluía um Museu de Arte Chinesa, duas galerias de exposições, um Centro de Arte, um espaço para actuações e um hotel de cinco estrelas especializado em turismo cultural e convenções. Em Maio de 1989, o relatório da Comissão estava concluído. Mas, o projecto arrastou-se e acabou por não ter seguimento com o Governador Vasco Rocha Vieira, que optou pela elaboração de um outro projecto: O Centro Cultural de Macau, englobando dois edifícios, um destinado aos espectáculos, e outro para o Museu de Arte de Macau. Este novo Museu, também sob a tutela do Leal Senado, herdou todo o espólio do Museu Luís de Camões (encaixotado desde 1988). E, assim, se fez a transição do antigo museu para o moderno edifício, ganhando uma nova dinâmica e projecção, mas ainda assim constituindo cerca de 70% do espólio do Museu de Arte de Macau. [M.I.V.] Bibliografia: Arquivo Histórico de Macau; Boletim da Província de Macau e Timor 1871-1886; Boletim Oficial do Governo da Província de Macau e Timor 1887-1927; Boletim Oficial da Colónia de Macau 1928-1950; Boletim Oficial de Macau 1951-1988; GOMES, Luís Gonzaga, Museu Luís de Camões, (Macau, 1973); NUNES, Isabel, “Museu Luís de Camões. A sua Criação”, in Revista de Cultura, n.° 16, (Macau, Outubro- Dezembro de 1991), pp. 187-195; SILVA, Beatriz Basto da, Cronologia da História de Macau, vols. 3-5, (Macau, 1995- 1998); Periódicos de Macau, 1880-1999: O Independente, O Macaense, O Progresso, A Pátria, A Verdade, União, A Voz de Macau, Notícias de Macau, O Clarim, Jornal de Macau, Gazeta Macaense, Diário de Macau, Macao Travel Talk, Tribuna de Macau, Macau Hoje, Hoje Macau.

1881

No dia 2 de Junho de 1881, pela Portaria Provincial n.º 50 é aprovado o Regulamento do Cemitério Chinês, publicado no Boletim de 4 de Junho. Segundo o Regulamento, a administração do cemitério fica no cargo da comissão directora do Hospital Keng-hu. A área do cemitério será dividida em três partes, com de 1.ª, 2.ª e 3.ª classe. A primeira classe, com o preço de $30 por cada uma, será destinada para sepulturas perpétuas, a 2.ª, para sepulturas temporárias, com o preço de $2 por cada uma por 5 anos, $1 para menor de 7 anos, e a 3.ª também para sepulturas temporárias mas gratuitas, a sepultura perpétua de 1.ª classe para uma família é de $100.

1881

No dia 2 de Junho de 1881, foram agraciados como cavaleiros da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, os negociantes chineses de Macau Tch’an-Lok e Ho-Kuai, “em atenção às suas circunstâncias e como testemunho da real munificência”.

1940

No dia 2 de Junho de 1940, é inaugurado o edifício do Leal Senado, devidamente restaurado, e reaberta e benzida a capela dedicada a Santa Catarina de Sena que, noutros tempos, era destinada ao serviço religioso, antes de cada sessão. O restauro deve-se ao Eng. Valente de Carvalho.

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