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1728

“Hoje 23 de Fevereiro de 1728 se passaram de S. Paulo os Padres da Vice-Província (da China) para esta nova casa de S. José por ordem do Reverendo Padre V. Provincial João de Sá”. Começa assim a descrição do Seminário Diocesano de São José de Macau. A primitiva Casa de S. José foi doada aos padres jesuítas por Jorge Miguel (Cordeiro?), comerciante, cristão arménio, que a construiu para si e para o seu irmão, no ano de 1622. O Colégio de S. Paulo ou S. Paulo, o Grande [Tai Sam-Pa (Dasanba 大三 巴)], como o povo costuma, ainda hoje, identificá-lo em chinês, encontrava-se demasiado absorvido, sobretudo com as missões do Japão. Tendo-se aberto as portas da China e sendo Macau a verdadeira porta da Cruz [Sap Chi Mun (Shizimen 十字門)] para a China, tornou-se necessário fundar um outro centro de formação para missionários, que se dedicassem à missionação da China. A primitiva casa ou a Residência de S. José ficava situada no Monte do Mato Mofino, e bem cedo passou a ser conhecida entre o povo por S. Paulo, o Pequeno [Sam-Pa Chai (Sanbazai 三巴仔)]. Começou então a construção do enorme edifício do Seminário, de início de dois andares. No dia 10 de Outubro de 1746, foi benzida a pedra dos fundamentos da Igreja do Seminário, dedicado a S. José, como se pode ler na placa de bronze descoberta nas obras de restauração da Igreja, além da lápide de mármore que D. João de Deus Ramalho, S.J. (1890-1958) mandou colocar na fachada: “D.O.M. / No dia dez de Outubro do ano da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1746 / dia dedicado a S. Francisco de Borja da Sociedade de Jesus / Bento XIV, reinante da Sede Romana / Sob os auspícios / do Potentíssimo Rei dos Lusitanos, o Senhor D. João V / Esta lápide / o primeiro fundamento estável de granito da Igreja dedicada a S. José / foi sagrada / pelo Exmo. e Revmo. D. Frei Hilário de S. Rosa, Bispo de Macau. / Iniciou a obra / o Padre Luís de Sequeyra, Vice-Provincial da Vice-Província / Chinesa da Sociedade de Jesus / Dirigiu / o Irmão Francisco Folleri da mesma Sociedade de Jesus / Reinava no Império Chinês / Kien Lum (Qianlong 乾隆), o quarto Imperador da Dinastia Tártara / Ocorria o vigésimo sexto dia / da oitava lua do décimo primeiro ano do seu império”. O conjunto dos edifícios foi inaugurado em 1758. Em 1803 foi decorado e remodelado, e restaurado em 1903, 1953, 1993 (edifício antigo) e 1999 (Igreja). No ano de 1730, já se escrevia que os alunos do Seminário de S. José, de recente fundação, vestiam à europeia para iludir a perseguição dos mandarins, devido à proibição dos ritos chineses, por ordem do Imperador Yongzheng 雍正 (1722-1735). Pouco nos legou a história dos seus primeiros trinta anos de vida, em que o Seminário esteve sob a direcção dos jesuítas. Há que destacar a figura de Padre Luís de Sequeira (1693-1763), a alma mãe da construção do Seminário, da sua organização educativa, homem sensível às necessidades do povo. Em 31 de Outubro de 1733, o Seminário, ainda em construção, acolheu o pedido do Senado em abrir um celeiro de arroz à sua custa e sob a sua administração, para socorrer as necessidades do povo. Em 2 de Abril de 1762, foi transmitido a Macau o Decreto Régio de 3 de Setembro de 1759, da expulsão dos jesuítas, e todos os seus bens em Macau passaram para a Diocese: o Colégio de S. Paulo, o Seminário de S. José, e a Igreja da Madre de Deus com o seu cemitério. Os jesuítas foram expulsos do Seminário, em 5 de Julho do mesmo ano. D. Frei Alexandre de Gouveia, bispo eleito de Pequim 北京, chegou a Macau em 28 de Julho de 1784, enviou um ofício a Martinho de Melo e Castro, então Secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos, onde, entre outros assuntos, solicita para que a Rainha D. Maria I providencie a criação de um Seminário. É atendido pelo ofício e põe em execução a carta régia de D. Maria I, de 13 de Abril do mesmo ano (1784), podendo optar pela sua localização para a criação de um Seminário ou no Colégio de S. José ou de S. Paulo. Em 9 de Setembro de 1784, estabelece-se o Seminário Régio e Episcopal de Pequim 北京, no Colégio de S. José. Frei Alexandre de Gouveia, depois de o consertar e equipar, elaborou o primeiro regulamento conhecido. O Seminário reabre com oito alunos e três professores, em 1 de Outubro de 1784, sendo reitor o Padre Manuel Correia Valente, proveniente do Seminário de Goa. Leccionava-se gramática, matemática, línguas latina e chinesa, retórica, filosofia, teologia dogmática e moral. Alí se formou um brilhante viveiro de missionários chineses e portugueses. Em 1811, escrevia o seu reitor, Padre Nicolau Rodrigues Pereira de Borja: “Bem se pode afirmar que desde a instituição deste Seminário, quase se não há ordenado sacerdote nesta cidade, que em tudo ou em parte não deva sua educação e ensino ao mesmo Seminário, fora outros que aqui se educaram, que não seguem o estado eclesiástico, sendo este o único lugar de educação nesta cidade”. Já em 1785, D. Frei Alexandre de Gouveia tinha sugerido ao Secretário de Estado de D. Maria I, que “dê à Congregação de S. Vicente de Paulo a Casa de S. José” na capital chinesa, e o Seminário da mesma invocação em Macau. Só em 1801 é que os padres lazaristas receberam as duas casas, com os ditos bens, até 1854. Em 1820, no declínio do absolutismo, Macau “possuía as seguinte casas de instrução: […] Um Seminário– Colégio (de S. José), com seis professores. Ensinavam- se aí, além de ler, escrever e contar, e ainda a música. Havia no colégio cadeiras de retórica, filosofia e dos estudos eclesiásticos, além da escola de matemática que regia o sr. (D. Joaquim) Saraiva, bispo de Peking”. Durante este período (1784-1845), e sob a direcção dos padres lazaristas formaram-se trinta sacerdotes, sobressaindo as seguintes figuras: 1. O mais abalizado sinólogo português, Padre Joaquim Afonso Gonçalves (1781–1841), autor de cerca de 10 monografias, entre gramática, vocabulário, dicionários e estabelecendo ligação latino-chinesa e luso-chinesa. Foi também um eminente músico. Os seus restos mortais estão depositados na parede direita da fachada do Seminário. 2. Padre João Gabriel Perboyre (1802-1840), francês lazarista, que sofreu o martírio em 11 de Setembro de 1840 em Ou-Tchang, na China. Foi beatificado em 1889 pelo Papa Leão XIII e canonizado em 2 de Junho de 1996, pelo Papa João Paulo II. Aprendeu chinês com o Padre Joaquim Afonso Gonçalves. 3. Jerónimo José da Mata (1804-1865) que chegou a Macau em 24 de Outubro de 1826, concluiu os estudos no Seminário e foi ordenado sacerdote em 1830 e sagrado bispo em Macau em 1845. Foi o primeiro bispo (1845-1862) de Macau que completou os seus estudos no Seminário. 4. O Padre Joaquim José Leite (1762-1852), que chegou a Macau em 20 de Maio de 1801 e faleceu a 25 de Junho de 1852. A ele se deve não só a organização e actualização do antigo arquivo da Reitoria, mas também do Seminário. Foi autor também de um “Diário”, fonte fundamental para a história do Seminário deste período. A publicação do Decreto de 30 de Maio de 1834, de extinção das ordens religiosas masculinas em Portugal, e aplicado a Macau em 1836, afectou gravemente o Seminário. Bem tentaram os lazaristas socorrer-se de todos os meios para manter o Seminário, mas em vão. Em 1845, o Seminário foi suspenso e os alunos foram distribuídos pelos diferentes vicariatos da Congregação dos Lazaristas, na China. Pela Carta de Lei de 12 de Agosto de 1856, determinando a reorganização dos seminários no Ultramar, D. Jerónimo de Mata reabre o Seminário, a 20 de Dezembro do mesmo ano, nomeando para reitor o Deão Manuel Lourenço de Gouveia, com a regência das aulas de teologia dogmática, moral e filosofia racional, sendo coadjuvado pelo Padre António Bernardino Barroso na regência do latim, português e chinês. A inauguração deu-se em 27 de Abril de 1857. Em 27 de Junho de 1857, é anexa ao Seminário a Escola Pública, por ordem do Governador Isidoro Francisco Guimarães, sendo esta administrada pela Câmara Municipal. Neste mesmo ano, o Bispo de Macau, D. Jerónimo José da Mata, nomeia uma comissão presidida pelo reitor para a elaboração de um inventário dos bens do Seminário, bem como das Missões do Real Padroado e a sua respectiva organização. Devido ao comércio, sobretudo com o Japão, e sentindo necessidade de formar navegadores, foi criada, por Carta de Lei de 5 de Julho de 1862, a “Escola de Pilotagem”, no Seminário. Neste mesmo ano, é publicado um novo regulamento do Seminário, com um plano geral de instrução, que diz respeito aos alunos que não se destinam ao estado eclesiástico. A instâncias do reitor, o Bispo D. Jerónimo recruta os jesuítas Francisco Xavier Rôndina e José Joaquim de Fonseca Matos, como professores do recém-aberto Seminário. Com estes dois excelentes professores, juntamente com o Padre Faria, Padre José Martinho Marques, Padre Tomás Cahil, minorista António Lopes, em breve espaço de tempo o Seminário conheceu uma nova época de esplendor. O reitor notifica, a 25 de Setembro de 1862, o Ministro da Marinha e Ultramar: “O número dos alunos internos é por enquanto 41, sendo todos pensionistas, excepto sete jovens chineses de Cantão que foram recebidos por conta do Fundo das Missões. Os externos são para cima de 150, andando assim uns e outros por 200, distribuídos todos pelas aulas de 1as letras, português (1.ª e 2.ª classe), latim, francês, inglês, elementos de matemática, história e geografia, filosofia racional, moral e física, para não falar nas aulas acessórias como música, etc.” Em 1864, os pensionistas e externos ascendiam a 216, e em 1870 matricularam-se 377 alunos, entre os quais o futuro marechal Gomes da Costa, que aí completou a instrução primária. Nas suas memórias, marechal Gomes da Costa diz: “As recordações que tenho do Seminário são excelentes: os professores, quase todos padres, eram bons para nós e os recreios alegres numa vasta cerca com grandes árvores”. A 20 de Setembro do mesmo ano é criado, no Seminário, o Liceu “em que recebam instrução secundária os indivíduos que não se destinarem ao estado eclesiástico”. O Decreto de 20 de Setembro de 1870, assinado pelo Marquês Sá da Bandeira, empenhou-se em reorganizar e remodelar os estudos no Seminário, mas foi algo fatal para o mesmo, pois obrigou os professores estrangeiros, sacerdotes de inegável competência literária e intelectual, entre os quais o Padre Rondina, a abandonar o Seminário. Deste período, há que salientar a figura do Padre Francisco Xavier Rondina (1827-1897), homem de elevada eloquência, de cultura invulgar, escreveu para os alunos um tratado de filosofia racional, em português, sendo ele italiano, abriu o asilo dos órfãos no Seminário, introduziu em Macau os exercícios espirituais para os jovens e os seculares, promoveu romarias à sepultura de S. Francisco Xavier, e dotou o Seminário de bons professores, nomeadamente de arte, como o pintor Ferreira e o maestro Luigi Antinori. Em reconhecimento da sua obra de educação, a Câmara resolveu, em 1871, colocar- lhe um retrato na sala de entrada do Leal Senado. Em 18 de Agosto de 1871, chega o governador do Bispado, Dr. Padre António Luís de Carvalho, trazendo consigo uma equipa de nove novos professores para o Seminário, dentre eles havia um só sacerdote. Depressa o nível de ensino baixou. Diz o Padre Videira: “os alunos registados foram 360, mas o ensino fracassou, porque o estudo de línguas e de matemática era insuficiente, as férias aumentaram para 3 meses e omitiram-se geografia, história e escrituração comercial. Os alunos alcançavam diplomas que de nada lhes valiam, para obter colocação ou continuar os estudos.” O Bispo. D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, eleito em 1873 e confirmado em 1874, nomeou governador do Bispado, o Deão Manuel Lourenço de Gouveia; este, por sua vez, nomeou para reitor o Padre António Joaquim de Medeiros, que substituiu, com cinco missionários vindos de Cernarche do Bonjardim, a equipa anterior. Muitos jovens macaenses internaram- se no Colégio, outros matricularam-se como externos. O Padre Medeiros, no seu discurso de 10 de Setembro de 1876, informa que havia 16 seminaristas, 2 teólogos, e entre eles contavam-se 5 timorenses e 4 chineses. Este novo alento pouco durou, devido à instalação, em 2 de Janeiro de 1877, no Seminário, do próprio Bispo Enes, de carácter pouco conciliador, e, com a nomeação do seu sobrinho como vice-reitor do Seminário, o Padre Francisco Teixeira Soares de Sousa Enes, os professores começaram a debandar. Por Decreto Régio de 22 de Dezembro de 1881, o Seminário de S. José foi reorganizado com o nome de “Seminário- Liceu de S. José de Macau” e a ele anexadas as aulas do ensino comercial. Já em 1872, foi acordado, entre a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e o Seminário, o funcionamento neste de um curso comercial, onde se leccionava aritmética, arte de guardalivros, operações bancárias, língua chinesa, cantonense e mandarim, falada e escrita. O bispo, D. António Joaquim de Medeiros (1884-1897), confiou novamente o Seminário aos jesuítas, em 17 de Março de 1890, mas a reitoria só lhes foi entregue, a seu pedido, em 18 de Abril de 1893, na pessoa do Padre João Gonçalves. O Seminário conheceu nova época de esplendor até à expulsão dos jesuítas, por Decreto de 8 de Outubro de 1910, com a implantação da República. Acerca deste período, o Padre Alves da Silva escreve, em 1907: “Os estudos, então, e toda a economia do Seminário começaram a ter uma nova orientação; estes padres pelo ascendente moral e virtude e amor ao estudo, como não tinha havido antes, resultando daqui muitos pedirem para seguir o estado eclesiástico, e achando-se outros inclinados a abraçar a carreira dos seus próprios preceptores; donde resultou um novo estado de coisas que fazia antever um futuro muito semelhante ao dos primeiros tempos deste estabelecimento”. Com a saída dos jesuítas, os padres seculares assumiram o Seminário. Durante este período, os padres seculares deram o seu melhor e não se notou uma descida a nível de ensino. Basta dizer que, em 1909-1910, os alunos matriculados foram 285 e, em 1924-1925, subiram para 533, sendo 105 internos e 428 externos e os seminaristas 62. Funcionaram, ao longo dos 20 anos seguintes, diversos cursos: curso teológico, curso filosófico, curso comercial em inglês, curso preparatório em por tuguês e em chinês e instrução primária. Deste período, destaca-se a grande figura do hábil maestro italiano Ferdinando Maberini (1886-1956), o percursor da música religiosa chinesa da era contemporânea, o Professor António da Silva Rego, incansável investigador da história missionária portuguesa do Ultramar, Monsenhor Manuel Teixeira, exímio compilador da história de Macau, além de muitos outros. Em Agosto de 1930, tomou posse de reitor o Padre António Maria Alves S.J., a convite do Bispo D. José da Costa Nunes (1920-1940), sendo a direcção do Seminário entregue novamente aos jesuítas. Em 1931, o Padre António Roliz, S.J., zeloso missionário e educador, vendo a necessidade urgente de educar os jovens chineses externos, obteve autorização superior para fundar o Colégio de São José, dependente do Seminário. Foi seu primeiro director o reitor do Seminário. Em 1936, D. José da Costa Nunes acabou com o curso comercial e, a 18 de Maio de 1938, fechou as portas aos externos, reservando o Seminário aos candidatos à vida eclesiástica, conforme as normas emanadas pela Santa Sé. Normas estas que deram autonomia ao Colégio de São José para se constituir como Colégio independente do Seminário. Em 1999, estavam matriculados neste Colégio perto de oito mil alunos, nos seus seis estabelecimentos. A 29 de Dezembro de 1939, foi nomeado reitor o padre secular Abílio José Fernandes. A 3 de Janeiro de 1940, os jesuítas deixaram definitivamente o Seminário, por falta de pessoal, continuando apenas a auxiliar no ensino e na direcção espiritual. A pedido de muitos pais, que sentiram a falta de qualidade de ensino na área das humanidades, o Cónego Dr. Fernando Herberto Leal Maciel, reitor (1944- 1952), reabriu o externato para os portugueses. Constava dos cursos de instrução primária e secundária e funcionava no edifício n.° 1 da Rua da Prata. Nestes dois últimos períodos, a vida do Seminário desenvolveu- se regularmente. Em 1952, o Seminário contava com 250 alunos, nos seus cinco cursos. Em 1966, viviam no Seminário 70 seminaristas e 16 padres-professores. Funcionava no Seminário um curso de teologia de quatro anos, filosofia de três anos, ambos dados em latim, um curso de humanidades em português e outro em chinês, além de um curso superior de literatura chinesa. Com a Revolução Cultural Chinesa e os acontecimentos de 3 de Dezembro de 1966, o Bispo D. Paulo José Tavares, em 1967, dispersou os seminaristas dos cursos de teologia e filosofia por Hong Kong, Roma e Portugal. O Seminário fechou as suas portas em 1972. Ainda hoje sofremos as consequências desta decisão. Desde 1872 até 1985, além dos colegiais, externos e órfãos, o Seminário acolheu 1.045 seminaristas, dos quais 212 completaram aqui os estudos eclesiásticos e receberam a ordenação sacerdotal, sendo 73 naturais de Portugal, 52 de Macau, 42 da China, 17 de Timor, 16 de Hong Kong, e o restante de diversos países. Nos últimos sessenta anos, o Seminário deu à Igreja seis (6) bispos. [L.L.D.] Bibliografia: TEIXEIRA, Padre Manuel, Macau e a sua Diocese, 16 vols., (Macau, 1940-1979); SILVA da, Beatriz Bastos, Cronologia da História de Macau, 5 vols., (Macau, 1992-1998).

1846

No dia 3 de Outubro de 1836, o Procurador Manuel Pereira propôs ao Governador João Maria Ferreira do Amaral: Os “faitiões” (embarcações chinesas de passagem e carga) deveriam ser registados e pagar 1 pataca/mês à Fazenda Pública. O Governador, em sessão do Senado, aprovou. Os faitiões que se recusassem seriam retidos. Os chinas dos faitiões começaram reuniões no Pagode Novo (zona reconquistada ao mar em frente da Ilha Verde, que se vê em mapas chineses). Aliam-se aos principais do Bazar (uma espécie de gente do mar mais a gente de terra daquela zona) contando com o apoio dos Mandarins; assim se criou o espírito de revolta. Os chinas vingavam-se do serviço das alfândegas. A tropa armou-se. De 7 para 8 de Outubro havia 36 faitiões “abicados” para Macau. De manhã desembarcaram muitos “lanchões” armados e com 3 peças de artilharia. A eles se juntaram os chinas de terra. Resultado: Confronto de mais de 1500 chinas com os portugueses que apareciam à frente. As nossas forças organizaram-se com ajuda de uma peça da alfândega e outra da Fortaleza do Monte, soldados e cidadãos, e os invasores recuaram, abandonando as peças e muito armamento. Quando os lanchões embarcaram, os faitiões foram atacados no mar por embarcações nossas: uns foram tomados, outros foram a pique, 8 ficaram encalhados. Briosas provas de união por parte dos macaenses. Os chinas fecharam todas as lojas do bazar, em conluio, única arma que lhes restou, e poderosa, para romper a nossa resistência, como era habitual. Mas desta vez Amaral avisou por Edital que arrasaria o Bazar com a artilharia do Monte se não abrissem dentro de 24 horas e todas as lojas estavam abertas na manhã de 9! A 10 estavam, com a comitiva, 2 Mandarins à porta da cidade. O Governador mandou-os dispensar a comitiva armada. A 11 apareceram de novo, sem comitiva: era só para “certificarem ao Governador os seus sentimentos de amizade”! A 9 tínhamos também fundeada na Rada a fragata a vapor Vulture, comandada pelo capitão de Mar-e-Guerra Dousal, posta à disposição do Governador pelo seu congénere de Hong Kong. A fragata regressou, sem ter necessidade de intervir, a 12. V. Leonel Barros, Jornal Tribuna de Macau de 30 de Janeiro de 1993, sobre o mesmo assunto.

1851

No dia 8 de Outubro de 1851, desembarcaram, pelas 16.00 horas, o novo Ministro da República Francesa na China, Mr. Bourboulon e sua esposa, sendo recebidos com as honras devidas à sua dignidade.

1852

CASTRO, D. JOÃO PAULINO DE AZEVEDO E (1852-1918). Filho de Amaro Adrião de Azevedo e Castro e de Maria Albina Carlota da Silveira, D. João Paulino de Azevedo e Castro nasceu nos Açores (Lajes do Pico), no dia 4 de Fevereiro de 1852. Depois de frequentar os estudos primários e secundários nos Açores, ingressou no Seminário de Coimbra e matriculou-se no curso de Teologia da Universidade de Coimbra, que concluiu em Julho de 1879. Neste mesmo ano, a 31 de Agosto, foi ordenado sacerdote na Capela do Paço Episcopal de Angra do Heroísmo. Mantendo-se ligado à Sé desta cidade açoriana, D. João Paulino de Azevedo e Castro, em 1890, foi promovido a tesoureiro-mor, chegando a ocupar o lugar de vice-reitor do Seminário. A par da sua carreira eclesiástica, D. João Paulino de Azevedo e Castro dedicou-se à actividade docente no seminário diocesano, tendo leccionado Teologia, Filosofia, História Eclesiástica e Direito Canónico. Apesar de ter sido nomeado Arcediago, acabou por não tomar posse em virtude de ter sido eleito Bispo de Macau pelo papa Leão XIII, o que foi confirmado em 9 de Junho de 1902. D. João Paulino de Azevedo e Castro pertenceu a um grupo de prelados com origem nos Açores que desempenharam um relevante papel religioso e político no Território. Lembremos a figura de D. José da Costa Nunes, Vigário-Geral de D. João Paulino a partir de 14 de Julho de 1906, que o substituiu à frente do bispado de Macau em finais de 1910. Uma vez em Macau, onde chegou no dia 4 de Julho de 1903, D. João Paulino de Azevedo e Castro deparou-se com alguns problemas de grande complexidade político-religiosa a que teve de dar resposta. O primeiro dizia respeito à redefinição dos limites da diocese de Macau e da prefeitura apostólica de Cantão, determinada pela Sagrada Congregação de Propaganda: a ilha de Hainão passava para a jurisdição da prefeitura e o distrito de Zhaoqing 肇慶 ficava sob a alçada da diocese de Macau. O governo francês e o prefeito apostólico tentaram opor-se à aplicação desta determinação, o que obrigou D. João Paulino de Azevedo e Castro a protestar energicamente junto do governo de Lisboa, reclamações que foram encaminhadas para Roma. Em Macau, D. João Paulino dirigiu os destinos do bispado no período crítico da implantação do regime republicano. O decreto de 8 de Outubro de 1910 ordenou a expulsão dos Jesuítas, determinação que foi executada em Macau no dia 19 de Novembro. As repercussões do regime republicano na vida dos religiosos de Macau estendeu-se a outras ordens, quando, em 29 de Novembro, se determinou a sua saída do Território. Depois de entregar o bispado a D. José da Costa Nunes, D. João Paulino de Azevedo e Castro saiu de Macau com destino à China no dia 4 de Dezembro. Depois de uma breve passagem por Hong Kong, dirigiu-se a Cantão em visita pastoral às Missões da China. Em Janeiro de 1911 passou por Singapura e por Malaca, regressando a Macau no dia 7 de Abril. Os momentos políticos difíceis que passou em Macau, no seguimento da proclamação da República, estimularam D. João Paulino de Azevedo e Castro a reflectir sobre as relações entre o Estado e a Igreja e sobre o papel que esta desempenhava no Extremo Oriente. A testemunhar esta sua preocupação, encontramos os muitos escritos que nos legou, devendo ser dado especial destaque a iO Padroado Português no Extremo Oriente e a Lei de Separação do Estado das Igrejas. Neste texto, dividido em três capítulos, D. João Paulino de Azevedo e Castro defende a ideia de que a evangelização tinha sido uma trave-mestra do processo de expansão da civilização nas nações “idólatras” e “selvagens”, sublinhando o seu alcance moral, utilitário e político. Enaltece o papel de Macau enquanto centro donde irradiava a acção missionária no Extremo Oriente, tentando provar a utilidade política da acção missionária portuguesa na China e em todo o Extremo Oriente. Um exemplo é avançado: o direito de Portugal reclamar a soberania sobre a ilha da Lapa e a ilha Verde devia-se à acção missionária desenvolvida naqueles locais desde o século XVII. A pertinência deste argumento assumiu um significado político muito particular, atendendo a que a questão da definição dos limites de Macau permaneceu em aberto no diálogo luso-chinês durante todo o primeiro quartel de Novecentos. Em 1915, iniciou a publicação de Os Bens das Missões Portuguesas na China. Os seus textos revelam um homem profundamente conhecedor da acção da Igreja, particularmente no Extremo Oriente, tema que norteou a sua investigação e a sua intervenção política e religiosa, através da palavra escrita e oral. Da sua acção em Macau ressaltaram a criação do Colégio de Perseverança, entregue ao cuidado das religiosas canossianas, vocacionado a acolher raparigas sem família; a criação de um orfanotrófio para o ensino de artes e ofícios a jovens chineses, entregue aos salesianos de D. Bosco; a promoção de escolas e asilos nos subúrbios da cidade de Macau; a criação do Boletim da governo da diocese de Macau. D. João Paulino de Azevedo e Castro permaneceu em Macau, onde faleceu no dia 17 de Fevereiro de 1918. Bibliografia: CASTRO, João Paulino de Azevedo e, Os Bens das Missões Portuguesas na China, (Macau, 1995); TEIXEIRA, Padre Manuel, Arquivos da Diocese de Macau, (Macau, 1970).

1853

No dia 8 de Outubro de 1853, foram representadas as comédias “O Avarento” e “O Enredador”, no teatro da antiga Sociedade Filarmónica, pela oficialidade inferior do Batalhão de Artilharia e força auxiliar unida a ele, em benefício do Hospital de S. Lázaro.

1859

Depois da I Guerra do Ópio (1839-1842), as relações entre as potências ocidentais e os reinos do Sueste Asiático e da Ásia Oriental alteram-se quantitativa e qualitativamente. A presença de países como a Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e Estados Unidos da América assumiu um novo protagonismo, sedimentado na celebração de tratados com a China, o Japão e outros reinos como, por exemplo, o Sião. As relações de Portugal com o Reino do Sião iniciaram- se no século XVI, sendo reactivadas no século XIX, com a deslocação de uma embaixada organizada em 1819 pelo governo de Goa e Macau. No ano seguinte, a 11 de Abril de 1820, chegou a Banguecoque o primeiro cônsul português, Carlos Manuel da Silveira, a quem foi concedido um terreno para fixar o consulado de Portugal. No entanto, os contactos políticos nunca tiveram expressão comercial, como era desejo das próprias autoridades siamesas. Por isso, em 1843 Macau recebeu a visita de um embaixador siamês que se encontrava em viagem com destino a Pequim e que questionou as autoridades portuguesas sobre o facto de o comércio não ter sido, até então, reactivado. Por seu lado, outras potências ocidentais – como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América – começaram também a estabelecer relações diplomáticas com o Sião, como o testemunham os tratados assinados em 1826 e 1833, respectivamente. Contudo, é após 1850, quando estas duas nações reanimam a sua presença diplomática e comercial com o Sião, no que são seguidas pela França e pela Dinamarca, que Portugal decidiu também avançar. Através do governador de Macau, devidamente investido dos poderes necessários, Portugal desenvolveu um esforço significativo de modo a afirmar a sua presença no Sueste Asiático e na Ásia Oriental. Coube a Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863) a tarefa de realizar esta política diplomática ao longo dos seus doze anos de governo. Trabalho feito por vezes em condições difíceis e adversas, mas que acabou por dar os seus frutos, o primeiro dos quais foi a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os Reinos de Portugal e Sião, no dia 10 de Fevereiro de 1859. A delegação diplomática do Sião foi chefiada pelo príncipe Krom Hluang Wongsa Thirat Sanith. No dia 8 de Janeiro de 1859, Isidoro Francisco Guimarães, na sua qualidade de ministro plenipotenciário às cortes do Sião, China e Japão, embarcou no brigue Mondego com destino a Banguecoque. Foi acompanhado por José Maria da Fonseca (secretário) e pelo alferes Francisco de Melo Barracho (adido). A missão diplomática chegou a Banguecoque no dia 20 e no dia 27 foi recebida pela corte siamesa. As negociações iniciaram-se no último dia de Janeiro, e dez dias depois era assinado o tratado luso-siamês. Num ofício datado de 16 de Fevereiro, Isidoro Francisco Guimarães anunciava ao governo de Lisboa que havia concluído o tratado de uma forma muito positiva. Neste tratado, Portugal alcançava todas as vantagens obtidas pela outras potências ocidentais, sem, contudo, seguir rigidamente o modelo de qualquer outro tratado já assinado pelo Sião. Estavam reunidas as condições políticas necessárias para que as relações económicas se pudessem desenvolver. Agora, tudo dependeria dos interesses dos comerciantes de Macau e das vantagens que aquele mercado pudesse oferecer no quadro das rotas comerciais que dominavam, em meados de Oitocentos, o Sudeste Asiático. Do ponto de vista político e diplomático os contactos continuaram ao longo de todo o século XIX, com o envio de diversas missões diplomáticas a Banguecoque, todas elas lideradas por governadores de Macau na sua qualidade de ministros plenipotenciários: José Maria da Ponte e Horta (1868), Januário Correia de Almeida (1873), José Maria Lobo de Ávila (1874), Carlos Eugénio Correia da Silva (1878), Tomás de Sousa Rosa (1885), Firmino José da Costa (1888), Custódio Miguel de Borja (1893) e José Maria de Horta e Costa (1896). [A.G.D.] Bibliografia: DIAS, Alfredo Gomes, Sob o Signo da Transição, (Macau, 1998); SEABRA, Isabel Leonor da Silva Diaz de, Relações entre Macau e o Sião (Séculos XVIII e XIX), (Macau, 1999); TEIXEIRA, Padre Manuel, Portugal na Tailândia, (Macau, 1983).

1863

No dia 8 de Outubro de 1863, principiou a publicar-se o semanário Ta-Ssi-Yang-Kuo, que produziu 134 números e terminou em 22 de Abril de 1866, sendo seu fundador José Gabriel Fernandes, natural de Goa, e director António Feliciano Marques Pereira. Inspirado no mesmo título, veja-se 1899, nesta Cronologia. Deste periódico eram redactores, entre outros, António Marques Pereira, José Gabriel Fernandes, Pereira Rodrigues, Castro Sampaio, Osório Cabral de Albuquerque, José da Silva e Meireles de Távora.

1863

O Ta-Ssi-Yang-Kuo (Daxiyangguo 大西洋國) [Grande Reino do Mar do Ocidente] publicou-se semanalmente em Macau, entre 8 de Outubro de 1863 e 26 de Abril de 1866. Foi fundado por José Gabriel Fernandes e contou com a colaboração de nomes importantes da cidade, como Alexandre Meireles de Távora, Gregório José Ribeiro, Manuel de Castro Sampaio, Jerónimo Osório Cabral de Albuquerque, José da Silva e António Feliciano Marques Pereira. Este periódico assumiu-se como um jornal local, sem deixar de informar e reflectir sobre assuntos que diziam respeito aos interesses de Portugal no Extremo Oriente, característica que era revelada logo no seu subtítulo “Semanário Macaense de Interesses Públicos Locais, Literário e Noticioso”. Assim, para além dos artigos de fundo que pretendiam informar e reflectir sobre os principais acontecimentos que influenciavam os destinos da Cidade, o jornal também deu cobertura às pequenas notícias que constituíam o quotidiano do Território: o “Movimento do Porto”, os “Actos Oficiais”, as “Notícias do Reino”, as “Notícias do Estrangeiro”, as “Correspondências” e os simples “Anúncios”. Mais tarde, João Feliciano Marques Pereira vai protagonizar a recuperação do título Ta- Ssi-Yang-Kuo (Daxiyangguo 大西洋國), agora sob a forma de uma revista. Publicada entre 1899 e 1903, pretendia ser “uma espécie de repositório de documentos antigos, inéditos ou não, relativos à expansão portuguesa nessa parte do mundo, e bem assim de estudos, monografias, apontamentos, sobre a história, civilização, etnografia, filologia, linguística, folclore, usos e costumes de todos esses povos que estiveram ou estão em contacto com os portugueses”. Teve o patrocínio de duas figuras: Dias da Costa, ministro da Marinha e Ultramar, e José Bastos, herdeiro da editora Bertrand. Quanto ao primeiro, facilitou a consulta dos arquivos e comprometeu- se a adquirir um certo número de exemplares. A José Bastos ficou a gratidão pelas facilidades concedidas que viabilizaram a publicação da nova revista. A Ta-Ssi-Yang-Kuo (Daxiyangguo 大西洋國), pela pena de João Feliciano Marques Pereira, surgiu como a voz de uma determinada corrente de pensamento sobre o Estabelecimento de Macau, que tinha por principal símbolo o governador João Maria Ferreira do Amaral. Pensamos, aliás, não ser por acaso que o primeiro artigo de fundo publicado na revista tenha sido exactamente sobre o assassinato daquele governador e o ataque ao forte Passaleão, liderado pelo macaense Vicente Nicolau de Mesquita, em 1849. Assim, a revista dirigida por João Feliciano Marques Pereira assumiu-se como uma publicação comprometida com uma determinada linha política. Não estamos perante neutralidades e objectividades jornalísticas. Pensamos que a Ta-Ssi-Yang-Kuo (Daxiyangguo 大西洋國), de 1899 a 1903, sem cair num panfletismo político fácil, não deixou de apresentar críticas e propostas à orientação político-diplomática seguida por Portugal na China. [A.G.D.] Bibliografia: DIAS, Alfredo Gomes, “Ta-Ssi-Yang-Kuo”, in MacaU, (Macau, Outubro de 1997 a Dezembro de 1999); NEVES, João Alves, A Imprensa de Macau e as Imprensas de Língua Portuguesa no Oriente, (Macau, 1999); Ta-Ssi-Yang-Kuo 1899-1900, fac-símile, (Macau, 1995).

1863

NUMERAÇÃO: A. 1, no 1 (8 out. 1863) - a. 3, no 30 (26 abr. 1866) PERIODICIDADE: Semanal

1864

No dia 30 de Setembro de 1864, notícia do pedido do chinês Chiang-Chau e do cristão António Nogueira para fazer o aterro entre os pagodes Thin-hau e Sampó, para aí edificarem lojas. O pedido foi satisfeito a 8 de Outubro do mesmo ano e o aterro concluído a 12 de Maio de 1867.

1878

A Escola Comercial Pedro Nolasco iniciou a sua actividade em 8 de Janeiro de 1878, tendo-se mantido em funcionamento até 1 de Setembro de 1998. Nesta data, os seus alunos, professores e instalações transitaram para a Escola Portuguesa de Macau,entretanto criada. A criação da Escola Comercial correspondeu a uma velha aspiração dos macaenses que não viam satisfeitos os seus desejos de dar aos filhos qualquer tipo de escolarização e muito menos uma educação que os preparasse para a vida. Correspondeu à realização do sonho de verem na sua terra uma escola que desse aos jovens uma preparação profissional para poderem seguir a única carreira possível nestas paragens, na época: trabalhar nos escritórios comerciais nacionais e estrangeiros, não só de Macau, mas também de Hong Kong e Xangai, do Japão, de Singapura, do Sião, da Austrália, etc.. Em 1871 foi criada a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), por um grupo de cidadãos de Macau e Hong Kong, com o principal objectivo de fundar e manter um Collégio Commercial (“uma casa de educação e de instrução que satisfaça as aspirações dos macaenses”) que oferecesse garantias de estabilidade. Estipulava-se nos seus estatutos, aprovados pela Portaria Provincial de 29 de Setembro de 1871, no Artigo 13.º e seguintes que, depois de 5 anos a contar adquela data, se não fosse possível conseguir o fim para o qual se destinava aassociação, a mesma seria dissolvida caso a mesa da assembleia geral dos accionistas assim o entendesse. Durante os primeiros anos, a APIM fez várias tentativas no campo do ensino. Subsidiou escolas do Território, entre elas o Colégio da Imaculada Conceição. No final de 1877, este Colégio acabou por fechar as suas portas, deixando mais de uma centena de crianças sem escola. Em Agosto de 1877, a APIM decidiu avançar com a criação do Collegio Commercial, apesar das muitas dificuldades quer de natureza económica quer relacionadas com a falta de docentes. A escola abre numa casa particular, em 8 de Janeiro de 1878, com seis pofessores recrutados localmente, quatro deles em regime de voluntariado, a que se vieram juntar, passado pouco tempo, mais dois, respectivamente de Inglaterra e de Calcutá. Estes dois professores estiveram ao serviço da escola durante cerca de seis anos, a leccionar especialmente a disciplina de Inglês, deixando aos seus alunos compêndios de apoio à aprendizagem da referida língua. Também a língua chinesa mere- ceu a atenção da APIM que mandou vir de Pequim um professor, o qual ensinou a “língua mandarina a muitos jovens e a todos os interpretes sinologos que se encontravam ao serviço do governo portuguez”. Seis anos passados, a escassez de recursos e a falta de professores levou ao estabelecimento de um convénio com o Prelado da Diocese, no sentido de que a Escola Comercial funcionasse, em salas designadas para o efeito, no Seminário de S. José, sendo para aí transferidos os professores. Apesar de esta escola ter dado bons frutos durante dezasseis anos, a Associação não se sentia completamente satisfeita. A oferta por parte da escola mantinha-se reduzida, não ultrapassando a parte elementar do curso comercial, o que desgostava os dirigentes que viam partir quem podia para completar a sua formação em Hong Kong e Xangai, onde, em 1911, estudaria mais de meio milhar de alunos oriundos de Macau. Pedro Nolasco da Silva, o grande impulsionador do sonho da APIM, idealiza, em1899, a criação de um Instituto Comercial. Como não consegue que o Seminário lhe forneça professores, decide agregá-lo ao Liceu de Macau, fundado havia pouco tempo, ficando a APIM com a responsabilidade da orientação das disciplinas técnicas. Passados três anos, o Instituto estava anexado ao Liceu, deixando a APIM de ter influência na sua existência. Durante as duas primeiras décadas do século XX a Escola manteve uma actividade com pouca visibilidade, nem por isso menos meritória e mais fácil. Finalmente, em 1919, dá-se um decisivo impulso com a cedência pelo Governo de um edifício próprio, construído para o efeito na Calçada do Gamboa e com a aprovação oficial do “programa do curso de língua Sínica para as Escolas Central e Comercial”. Seguiram-se três décadas em que a Escola viveu tempos conturbados, tal como o foi, neste período, a vida económica e social do Território, em especial devido à segunda guerra mundial. Em 28 de Junho de 1952, um diploma ministerial concede validade oficial ao curso geral de comércio da Escola Comercial, mediante a realização de um exame final e autoriza que seja ministrada a secção preparatória para os institutos comerciais, o que muito contribuiu para o prestígio da Escola. Depois da oficialização, a população escolar cresceu consideravelmente. A Escola, que contava em 1952 com 109 alunos, era frequentada em 1967/1968 por 525. No dia 28 de Maio de 1966 foi inaugurado um novo edifício, construído sob orientação do arquitecto português Chorão Ramalho,em terreno de arrendamento vitalício e gratuíto, concedido à APIM pelo Governo, entre as Avenidas Infante D. Henrique e D. João IV. Na década de sessenta, Macau viveu tempos conturbados politicamente. Muitos macaenses receosos pelos reflexos no Território, da Revolução Culturalda República Popularda China, abandonaram Macau. A Escola Comercial ressentiu-se e as suas turmas começaram a diminuir. Em 1970 a frequência era de 325 alunos e em 1973/1974 reduziu ainda para 212. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal, com a extensão a Macau da reforma educativa que criou o ensino unificado, perspectivava-se a descaracterização da Escola Comercial, o que provocou grande controvérsia a nível local. Finalmente, foi encontrado o consenso e, a partir do ano lectivo de 1980/81, a Escola Comercial pôs em funcionamento o curso unificado, equivalente ao Curso Geral do Comércio, mantendo no 7.º, 8.ºe 9.º ano as opções vocacionais de Dactilografia e Administração e Comércio e leccionando também a Área C (estudos económico-sociais) no ensino secundário unificado. A partir desta data as condições de funcionamento da Escola alteraram-se profundamente. O Governo do Território nome ou alguns professores do ensino oficial, assim como um director em dedicação exclusiva para prestar serviço na Escola. Esta situação fez esbater as diferenças entre o ensino oficial e o ensino particular, embora se mantivesse a autonomia e a independência da APIM. A partir de 1989/1990 passaram a ser ministrados no ensino secundário cursos profissionais e técnico-profissionais ligados à Administração, Comércio e Informática. Estes cursos funcionaram não só em regime diurno mas também em regime pós-laboral. No ano lectivo de 1992/1993 entrou em funcionamento o 1.º ano do 1.º ciclo e os cursos tecnológicos de Administração e Informática do novo ensino secundário. Em 1997/1998, quando cessou a sua actividade, a Escola Comercial contava com uma população escolar de 435 alunos, distribuídos do 1.º ao 12.º ano de escolaridade. Durante mais de 120 anos, a Escola Comercial Pedro Nolasco funcionou ininterruptamente como escola particular sem fins lucrativos, dando a sucessivas gerações de jovens macaenses uma formação de matriz portuguesa, sem deixar de responder às necessidades e desafios da realidade local. Em 21 de Dezembro de 1977, por ocasião do centésimo aniversário da sua fundação, a Escola Comercial Pedro Nolasco foi agraciada pelo Presidente da República Portuguesa com o título de Membro Honorário da Ordem do Infante Dom Henrique. Em sessão da Comissão Directora da APIM, de 9 de Dezembro de 1919, foi deliberado dar à Escola Comercial o nome de Pedro Nolasco. [M.F.S.] Bibliografia: CANHOTA, António Augusto da, Bodas de Diamante da Escola Comercial “Pedro Nolasco”, (Soi Sang, 1953); BARATA, Aureliano, O Ensino em Macau, 1572-1979, (Macau); Brochura da APIM, (Macau, 1986); GUEDES, João; MACHADO, José Silveira, Duas Instituições Macaenses–Associação Promotorada Instrução dos Macaenses ; Escola Comercial “ Pedro Nolasco”, (Macau, 1998); TEIXEIRA, Padre Manuel, Pedro Nolasco da Silva – Macau, (Macau, 1942); TEIXEIRA, Padre Manuel, I Centenário da Associação Promotorada Instrução dos Macaenses – Macau 1871/1971; “125 Anos da APIM – Formare Instruir a Juventude Macaense”, in Revista Macau, II série, n.° 48, (Macau, Abril 1996).

1881

No Boletim da Província, desta data (8 de Outubro de 1881), se informa que o Código do Processo Civil Português, aprovado pela Carta de Lei de 8 de Novembro de 1876, é declarado em vigor nas províncias ultramarinas a partir de 1 de Janeiro de 1882, independentemente da publicação nos respectivos Boletins Oficiais.

1909

No dia 8 de Outubro de 1909, Correios – Colocação de marcos postais em várias ruas desta cidade. Acordo provisório com o Correio de Hong Kong e sucursais para permuta de vales de correio.V. Desdobrável Informativo do Museu dos Correios, Macau, 1996.

1918

A Direcção das Obras Públicas de Macau avisa no dia 8 de Outubro de 1918 que são intimados os proprietários dos prédios abaixo designados a pintar as portas, janelas, caixilhos, grades, varandas e quaiquer outras obras de madeira ou de ferro nas suas faces exteriores, dentro do prazo de 60 dias: Rua de Nossa Senhora do Amparo, Rua da Tercena, Rua dos Faitiões, Rua 5 de Outubro, Rua do Guimarães, Rua do Tarrafeiro, Rua da Caldeira, Rua do Pagode, Rua da Madeira, Rua das Lorchas, Rua de Miguel Aires, Rua do Visconde Paço de Arcos, Rua da Alfândega, Rua dos Culis, Rua da Cadeia, Rua do Gamboa, Rua Nova do Comércio, Rua das Estalagens, Rua Oeste do Mercado de S. Domingos, Rua Norte de S. Domingos, Travessa da Porta, Travessa dos Becos, Travessa dos Alfaiates, Travessa dos Mercadores e outros.

1922

No dia 8 de Outubro de 1922, chegou o General Gomes da Costa, acompanhado do seu filho Carlos Nunes Gomes da Costa, como Secretário, e o Tenente Salgueiro Rego, seu ajudante de campo, para inspeccionar os serviços militares de Macau.

1928

No dia 8 de Outubro de 1928, ocorreu pavoroso incêndio que vitimou a população chinesa que ocupava a aldeia junto à Porta do Cerco, sendo necessário dar alojamento a mais de 2.000 pessoas. (Arquivo Histórico de Macau – F.A.C., P. n.° 92 – S-C).

1929

Pelo Anúncio de 9 de Setembro de 1929, a Direcção dos Serviços de Fazenda e Contabilidade faz público que no dia 8 do próximo mês de Outubro, pelas 10h30, se procederá a arrematação do exclusivo dos direitos de cobrança das taxas do imposto sobre o pescado pelo período a decorrer desde 1 de Dezembro de 1929 até 30 de Novembro de 1932, sendo a base para a licitação em $52.100,00. As cartas serão entregues à Comissão no acto da abertura da praça, acompanhadas de documento comprovativo de ter sido efectuado na Filial do Banco Nacional Ultramarino o depósito de $5.210,00 como garantia da oferta.

1940

A Estátua de João Maria Ferreira do Amaral foi inaugurada a 24 de Junho de 1940, demolida a 8 de Outubro de 1992, e transportada a Portugal.

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