Informações relevantes
Data de atualização: 2020/07/17
Surgimento e mudança da Ribeira Lin Kai de San Kio
Macau e a Rota da Seda: “Macau nos Mapas Antigos” Série de Conhecimentos (I)
Escravo Negro de Macau que Podia Viver no Fundo da Água
Que tipo de país é a China ? O que disseram os primeiros portugueses aqui chegados sobre a China, 1515
Data de atualização: 2020/07/17
José Inácio de Andrade nasceu no dia 2 de Novembro de 1780 em Santa Maria, Açores. Faleceu em Lisboa no primeiro dia do ano de 1863. Em Lisboa dedicou-se à vida política activa, tendo sido eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa em 1837. No biénio 1838-1839, Inácio de Andrade ocupou a Presidência da Câmara da capital portuguesa. Posteriormente veio a assumir o cargo de Director do Banco de Portugal. José Inácio de Andrade foi um homem do seu tempo, marcado cultural e ideologicamente por uma visão do mundo humanista e individualista, caracterizadora do pensamento liberal. Erudito e dedicado às letras, Inácio de Andrade escreveu em 1835 dois textos que foram publicados em Lisboa: Memória sobre a Destruição dos Piratas da China e o Desembarque dos Ingleses na Cidade de Macau e sua Retirada e Biografia de Rodrigo Ferreira da Costa. A sua ligação ao Oriente teve início nos primeiros anos de Oitocentos com um conjunto de viagens a Macau e à Índia como capitão de navios. Casou duas vezes e foi à sua primeira esposa, Maria Gertrudes de Andrade, que dirigiu as cartas que escreveu e que reuniu na obra Cartas Escriptas da India e da China, as quais constituem um conjunto de cem breves reflexões, publicadas pela primeira vez em dois volumes pela Imprensa Nacional, em 1843. Ao longo desta obra, o autor revela um conhecimento alargado sobre a China, adquirido através das suas viagens que o mantêm ligado ao Oriente durante vinte anos. Cem cartas recheadas de descrições e reflexões sobre o que ia observando e estudando, e que Inácio de Andrade dividiu em dois volumes. As cinquenta cartas que compõem o primeiro volume centram-se no início da sua viagem até à Índia, nalguns aspectos da civilização indiana, na viagem até Macau e à China e, finalmente, na milenar história chinesa. No segundo volume, composto pelas restantes cinquenta cartas, o autor lança um olhar sobre os diferentes aspectos que caracterizam a civilização chinesa, aproveitando para reflectir sobre outros temas. Estas reflexões ajudam-nos a compreender a sua linha de pensamento, com particular realce para as suas constantes comparações entre o Ocidente e as características do Império do Meio. As viagens realizadas por José Inácio de Andrade exerceram sobre o autor um natural fascínio, levando-o a enaltecer os aspectos mais positivos que foi encontrando no seu contacto com os povos e os lugares que visitou. Mantendo o quadro de valores civilizacionais e de referência do Ocidente visíveis na forma como aborda alguns temas, nas reflexões que elabora e nos autores que utiliza para criticar ou para servirem de suporte às suas análises (Adam Smith, Helvecio, Montesquieu, Voltaire, Abade Reynal, Hobbes, Fernão Mendes Pinto, Gaspar da Cruz, Jerónimo Osório, Tomé Pires, entre outros), Inácio de Andrade faz um esforço no sentido de valorizar o ‘outro’ face a si próprio. Não podendo deixar de sublinhar a erudição e a riqueza multidisciplinar que as Cartas Escriptas da India e da China ainda hoje nos revelam, importa destacar o modo como este autor coloca o seu racionalismo e os seus sentimentos ao serviço da civilização visitada, acabando por se render ao exotismo esmagador de um Oriente que, naquele tempo, ainda estava em grande parte por descobrir. Não obstante os limites que a obra revela, relativamente ao grau de profundidade e de precisão dos conhecimentos que nos transmite sobre as civilizações orientais, as Cartas constituem um objecto de estudo em si mesmas, pela riqueza do texto, pelos sentimentos que nos transmitem e pelas ideias que veiculam: o respeito e a admiração por outras civilizações, pelo diferente, base fundamental em que se alicerçou a secular presença portuguesa no Extremo Oriente. Bibliografia: DIAS, Alfredo Gomes, “As Cartas de José Ignacio de Andrade”, in Macau, n.° 1, (Macau, 2000), pp.78-88; ANDRADE, José Ignacio de, Cartas Escriptas da India e da China, (Macau, 1998).
ANDRADE, JOSÉ INÁCIO DE (1780-1863)
CLEVELAND, LUCY HILLER (1780-1866). Viajante, poetisa, autora de livros infantis, desenhadora, diarista, artista têxtil (1830-1865) e reformista social oriunda de Salem, Massachusetts e filha mais nova do major Joseph Hiller (1748-1814), relojoeiro que luta na Guerra Civil, e de Margaret Cleveland Hiller (1748-1804). Em 1803, o major Hiller muda-se, com a família, para Lancaster (Massachusetts), onde Lucy casa com o capitão William Lambert of Roxbury em Julho de 1806, enviuvando um ano depois, quando o marido morre na Holanda, em Agosto de 1807. Lucy regressa a Lancaster para viver com as suas irmãs mais velhas, Dorcas (1773-1850) e Mary (1779-1815), que haviam casado, respectivamente, com os irmãos Richard Jeffrey Cleveland (1773-1860) e William Cleveland (1777-1842), mercadores de Salem e que são primos em primeiro grau das mulheres, sendo estes casamentos estimulados de forma a preservar a riqueza e a influência das famílias locais. O pai de Lucy morre em 1814, seguindo-se-lhe a irmã Mary, no ano seguinte, servindo a primeira, viúva e sem filhos, como acompanhante de senhoras na sua família. Em 1816, Lucy casa com o cunhado viúvo, o capitão William Cleveland, tornando-se madrasta dos seus sobrinhos, prática comum entre os unitarians, segundo Harriett Low. O casal muda-se para Salem em 1821, sem nunca ter filhos. William dedica-se e novo ao comércio marítimo, enquanto a sua mulher escreve cerca de doze livros infantis. Em 29 de Outubro de 1828, Lucy e o seu enteado James Cleveland deixam Salem e, em 18 de Novembro de 1828, partem a bordo do Zephyr, para acompanhar o marido até Timor, onde este se desloca com o intuito adquirir sândalo para comercializar na China. A viagem dura cerca de um ano, terminando em 27 de Setembro de 1829. A viajante redige um breve diário da viagem e ilustra um sketchbook com duas dezenas de desenhos coloridos de Timor (7) e de Macau (13), onde visita a jovem Harriett Low, em 1829, desenhando e pintando, tal como George Chinnery e W. W. Wood, várias cenas do quotidiano macaense oito-centista, entre os quais “Apew” (Apun); o boy do lar da família Low; uma chinesa de pés enfaixados; uma mulher portuguesa a caminho da igreja, coberta pelo véu e acompanhada por um empregado; cules a carregar cadeirinhas aos ombros; um barbeiro e (três) jogadores chineses sentados no chão. De acordo com o seu diário, a cansativa viagem entre Timor e o enclave dura trinta e dois dias, chegando a diarista cansada à Rada de Macau em 12 de Outubro de 1829. A autora deixa de escrever até 8 de Janeiro de 1830, dia em que abandona Macau, observando-se portanto uma elipse na narrativa. Em 12 de Outubro de 1829, Harriett Low descreve, no seu diário, o primeiro encontro com Mrs. Cleveland, sua conterrânea, e com o seu marido, passeando com a recém-chegada, sua hóspede, pelas ruas de Macau, ouvindo-a tocar guitarra, observando jogos que esta lhe ensina e fazendo-lhe companhia devido à sua prolongada doença, enquanto o marido se desloca a Cantão, em negócios. Em 8 de Janeiro de 1830, o casal Cleveland deixa Macau, trocando Lucy correspondência com a jovem Low. Bibliografia: “Lucy Cleveland Papers” e “William S. Cleveland Papers”, Peabody Essex Museum: Phillips Library (Salem); CLEVELAND, Lucy, “Sketchbook”, cota: M1347, The Peabody Essex Museum, Phillips Library; CLEVELAND, Lucy, “Voyage of the Zephyr, 1829”, cota: MS 656 1829Z, The Pe¬abody Essex Museum, Phillips Library; CLEVELAND, Richard J., A Narrative of Voyages and Commercial Enterprises, (Cambridge, 1842); MARVIN, Reverend Abijah P., History of the Town of Lancaster, Massachusetts, (Lancaster, 1879); CLEVELAND, Edmund Janes; CLEVELAND, Horace Gillette (eds.), The Genealogy of the Cleveland and Cleveland Families, (Hartford, 1899); CARRICK, Alice Van Leer, “Playthings of the Past”, in Antiques, (Janeiro de 1922), pp. 10-16; PAYSON, Huldah Smith, Museum Collections of the Essex Institute, (Salem, 1978); LAHIKAINEN, Dean, In the American Spirit: Folk Art from the Collections, (Salem, 1994); RICHTER, Paula Bradstrees, “Lucy Cleveland’s ‘Figures of Rags’: Textile Arts and Social Commentary in Early-Nineteenth-Century New England”, in BARNES, Peter (ed.), The Dublin Seminar for New England Folklife. Annual Proceedings 1997 Textiles in Early England: Design, Production, and Consumption, (Boston), pp. 48-63; RICHTER, Paula Bradstrees, “Lucy Cleveland, Folk Artist”, in Antiques: The Magazine, (Agosto de 2000), pp. 204- 213; LOW, Harriett, Lights and Shadows of a Macao Life: The Journal of Harriet Low, Travelling Spinster – Part One: 1829- 1832 e Part Two: 1832-1834, 2 volumes, (Woodinville, 2002); PUGA, Rogério Miguel, “Macau e Timor em 1829: O Diário e os Desenhos Inéditos de Lucy Cleveland”, Oriente (Lisboa, (2006).
CLEVELAND, LUCY HILLER (1780-1866).
BRAGA, MARIA ONDINA SOARES FERNANDES (1932-2003). Maria Ondina Soares Fernandes Braga nasceu em Braga em 1932 e estudou na Alliance Française em Paris, licenciando-se em língua inglesa pela Royal Asiatic Society of Arts de Londres. Foi professsora de Inglês e de Português em Angola, Goa e Macau, residindo em Lisboa desde 1965. Macau e a China estão bem patentes na obra da escritora, que viveu em ambos os locais: entre 1961 e 1965 em Macau, onde foi professora no Colégio Santa Rosa de Lima, e em 1982, em Pequim, tendo leccionado na Secção de Português do Instituto de Línguas Estrangeiras. Em 1965 publicou o seu primeiro livro, Eu Vim para Ver a Terra, no qual reune crónicas de Angola, Goa e Macau. Três anos depois é a vez de dar à estampa alguns contos de inspiração chinesa, escritos em Macau, na obra A China Fica ao Lado, com diversas edições, e traduzida para chinês em 1991. Nesse mesmo ano publicou Nocturno em Macau, obra galardoada com o Prémio Eça de Queirós, da Câmara Municipal de Lisboa. A notória ligação de Ondina Braga à China passa ainda pelo facto de, mesmo a sua autobiografia romanceada, que mais tarde viria a constituir o livro Estátua de Sal, ter sido escrita em Macau (1963), sem, naturalmente, deixar de referir a sua Angústia em Pequim, publicada em 1984. Ciclo este da vida da escritora de alguma forma fechado com Passagem do Cabo (1994), em que, tal como no seu primeiro livro, reune crónicas de Angola, Goa e Macau, sendo, no entanto, patente uma postura de despedida dessas terras que viu. Em Março de 1990, Ondina Braga voltou a Macau, o que se repetiria no ano seguinte, por ocasião do lançamento da versão bilingue de A China Fica ao Lado. As impressões que então colheu da terra que lhe fora tão familiar estão registadas em diversos artigos, crónicas e entrevistas publicados na imprensa local e nacional, de que também foi colaboradora assídua. No Território, Ondina Braga tem publicação dispersa, ao nível literário e ensaístico, nomeadamente na Revista de Cultura e na Macau. Sendo uma das contistas portuguesas mais prestigiadas e galardoadas da actualidade, Maria Ondina Braga, desenvolveu, com igual êxito, a novela, a crónica, a narrativa, a biografia, o ensaio e a tradução. A sua colectânea de contos, A Filha do Juramento, composta por três livros, sendo o segundo deles dedicado à China, publicada em 1995 na cidade de Braga, assinalou a passagem do 30.° aniversário da carreira literária da autora que, entretanto, retomou a vertente autobiográfica e memorialista ficcionada em Vidas Vencidas. – Principais Obras. Romances: Nocturno em Macau, 1991 (2.ª ed., 1993); A Personagem, 1978. Contos: A China Fica ao Lado, 1968 (4.ª ed., 1991); Amor e Morte, 1970; A Revolta das Palavras, 1975; A Filha do Juramento, 1995. Crónicas: Eu Vim para Ver a Terra, 1965; Passagem do Cabo, 1995. Novelas: Os Rostos de Jano, 1973; A Casa Suspensa, 1982; Lua de Sangue, 1986. Narrativa: Angústia em Pequim, 1984 (2.ª ed., 1988). Autobiografias e memórias romanceadas: Estátua de Sal, 1969 (3.ª ed., 1983); Vidas Vencidas, 1999. Publicação de conjunto: A Rosa-de-Jericó (contos escolhidos), 1992. Bibliografia: SENA, Tereza; BASTO, Jorge, Macau nas Palavras, (Macau, 1998).
BRAGA, MARIA ONDINA SOARES FERNANDES (1932-2003)
AUDEN, W. H. (1907-1973). Durante a sua viagem pela China (1937-1938) aquando da guerra sinojaponesa o poeta inglês W. H. Auden (Wystan Hugh Auden) recolhe, na companhia de Christopher Isherwood, impressões para redigir Journey to a War (1939), acabando por visitar Hong Kong, em Fevereiro de 1938, bem como Macau, entrepostos comerciais que descreve comparativamente em dois sonetos em verso branco redigidos em Bruxelas durante o mês de Dezembro de 1938. O poema “Macao” apresenta uma imagem dupla do território, sendo o exotismo e o prazer sem peso do pecado uma das suas principais características, esterótipos facilmente associados ao Oriente pelo turista ou viajante ocidental. Enquanto a comercial Hong Kong não agrada nem a Auden nem ao sujeito poético, Macau, “a weed from Catholic Europe”, ganhou raízes entre as montanhas e o mar. O texto lírico, predominantemente descritivo, apresenta um policromático ‘retrato’ do enclave através das suas casas alegres, um “exótico fruto” que simboliza a singularidade das vivências portuguesa e chinesa da cidade. O olhar protestante do “eu lírico” demora-se nas imagens e estátuas de santos de estilo rococó que prometem salvação aos jogadores, enquanto igrejas se acomodam, lado a lado, com casas de prazer, materialização espacial do “comportamento natural” do ser humano que a fé pode perdoar, imagem esta continuada nos tercetos. Erotismo rima, portanto, com exotismo, através do campo semântico constituído pelos adjectivos utilizados, por entre vielas e edifícios da urbe, recordando os relógios e sinos das altaneiras torres católicas que o inferno poderá esperar os mais temerosos que se entregam aos mistérios do Oriente, rodeados por uma vivência também ocidental. Macau é, como revela o símile botânico utilizado no texto, caracterizado como um “enxerto cultural” ou erva daninha luso-sínica, advindo daí a sua singularidade e o facto de o território representar metaforicamente as fraquezas ‘da carne’ e as virtudes da natureza humana. A dimensão exotica assume no poema uma sugestiva proeminência que se repete no imaginário ‘inglês’ relativamente a Macau e que recompensa o viajante que se depara com a familiaridade da “infantil”, porque inocente, porta de entrada do Ocidente na China. Bibliografia: AUDEN, W. H., Collected Poems, introdução e notas de Edward Mendelson, (Londres, 1991 [1976]); BAKER, Donald C.; BAKER, Elizabeth D., “A Great English Poet on China, Hong Kong and Macao: W. H. Auden and a “Weed from Catholic Europe””, in Review of Culture, 2.ª série, n.º 25, edição inglesa, (Macau, 1995), pp. 241-248; CARPENTER, Humphrey, W. H. Auden: A Biography, (Londres, 1981); DAVENPORT-HINES, Richard, Auden, (Londres, 1995); PUGA, Rogério Miguel, ““Macao” e “Hong Kong” de W. H. Auden: Uma Abordagem Comparativista”, in Administração: Revista de Administração Pública de Macau, vol. 15, n.º 55:1, (Macau, 2002), pp. 325-338.
AUDEN, W. H. (1907-1973)
COATES, AUSTIN (1922-1997). Administrador colonial, diplomata, escritor, Austin Coates viveu os seus últimos anos em Portugal, onde morreu no dia 17 de Março de 1997, semanas antes de completar 75 anos de idade. A escolha da Rua das Horas da Paz, em Colares, Sintra, para última morada não foi um acaso na vida aventurosa deste aristocrata inglês, cidadão do mundo, que conheceu Portugal a Oriente e dedicou a essa dimensão da gesta parte da sua obra literária. Austin Francis Harrisson Coates nasceu em Londres a 16 de Abril de 1922; estudou na Stowe School, e em Paris. Filho do compositor Eric Coates, Austin desde novo acalentou a ideia de se tornar escritor, mas os seus planos seriam abruptamente interrompidos pelo eclodir da II Guerra Mundial. Mobilizado pela Royal Air Force Intelligence, começa por prestar serviço em Londres, partindo em 1942 para a Índia, onde privou com Mahatma Ghandi (durante cerca de um mês, em gozo de licença militar, acompanhou o profeta da paz nas suas deambulações por um continente em plena ebulição). Ainda nos Serviços de Informação da RAF, cumpre comissões na Birmânia (Myanmar), Singapura e Indonésia, até 1947. Dois anos depois, ingressa na administração colonial britânica, tendo sido indigitado Secretário Colonial Adjunto e colocado em Hong Kong. É nesta colónia britânica que passa a dedicar-se à escrita, e surgem as primeiras obras: Invitation to an Eastern Feast e Personal and Oriental. A sua obra mais famosa, Myself a Mandarim (1967), seria também inspirada pelas vivências no último posto britânico do Oriente, concretamente do período em que desempenhou os cargos de administrador civil e magistrado nos Novos Territórios, entre 1953 e 1955. Segue-se o período malaio: de 1957 a 1962, exerce funções de magistrado, diplomata e administrador colonial em Sarawak, Penang e Kuala Lumpur. Em 1962, abandona a administração britânica e, de regresso à sua Londres natal, dedica-se a tempo inteiro à escrita, produzindo obra em diversos géneros, da novela à ficção histórica; das memórias à biografia, de que se destaca, neste último género, o seu livro de maior fôlego, Rizal: Philippine Nationalist and Martyr (1968). Macau, que conhecera numa tarde cálida do início dos anos 1950, ocupa parte relevante do seu labor literário. Era a Macau de Gonzaga Gomes e Jack Braga, com quem priva na célebre tertúlia do Hotel Riviera: nessa altura, havia 27 carros e o ‘dia europeu’ não começava antes das 11 da manhã. Do convívio com a intelectualidade e as famílias tradicionais macaenses, parte para a investigação ao passado do enclave português, e dessa viagem resultam obras incontornáveis como A Macao Narrative (1978) e City of Broken Promises (1967) – em que mistura, com mestria literária, a realidade e a ficção (embora tais devaneios lhe mereçam críticas dos puristas da verdade histórica). Em 1966, depois de quatro frios invernos na Velha Albion, volta a Hong Kong, fixando ali residência para os 27 anos seguintes – durante os quais se desloca amiúde a Macau, hospedando-se, invariavelmente, no Hotel Bela Vista – onde produziu boa parte da sua obra literária. Entretanto, em 1974, faz uma viagem exploratória a Portugal, à procura de uma alternativa mais amena aos verões sufocantes de Hong Kong. Mas, 10 dias depois de ter deixado Lisboa, dá-se o 25 de Abril, e o Grande Oficial Cavaleiro de Sua Majestade, que presenciara o declínio do império colonial britânico na Índia, Malásia e Singapura, decide não trocar a sua casa na Upper MacDonald Road, sobranceira a Central, pela perspectiva de viver novas convulsões revolucionárias, e volta ao Extremo Oriente. Só duas décadas depois, a partir de 1993, se cumpre o sonho de acabar os seus dias na serra de Sintra, no país que tem o povo mais profundamente cosmopolita do mundo, como disse um dia Austin Coates, inveterado apreciador de vinhos do Dão e charutos havanos.
COATES, AUSTIN (1922-1997)
Em 1745, Fr. José de Jesus Maria, que terá concluído neste ano a sua Azia Sinica e Japonica, dá-nos as seguintes informações: “De 1735 a 1745, Macau perdeu em naufrágios mais de 11 navios. Em 1745 a população de Macau é de 5 212 cristãos e 5 000 chinas gentios. Compare-se este numero com as 44000 almas que aqui viviam um século antes.Os portugueses do reino são apenas 90; os homens e crianças 1 911 e as mulheres 3 301, parecendo uma cidade de mulheres”. (Cfr. António Martins do Vale, Os Portugueses em Macau (1750-1800). Degredados, ignorantes e ambiciosos ou fiéis vassalos d’El – Rei?, Macau, IPOR, 1997, pp. 220,221,230 e 231).
Azia Sinica e Japonica
ABEEL, DAVID (1804-1846). De nome chinês Ya Bili 雅裨理, é, juntamente com Elijah Bridgman (1801-1861) e Samuel Wells Williams, um dos primeiros missionários norte-americanos a estabelecer-se na China. Oriundo de New Brunswick (Nova Jersey), Abeel estuda no Rutgers College e no Seminário Teológico dessa cidade, desenvolvendo o seu primeiro trabalho pastoral em Athens (Nova Iorque) durante dois anos. O jovem viaja, enquanto missionário da Dutch Reformed Church, para a China, em 1829, como capelão da Seaman’s Friend Society (em Whampoa), tendo o mercador norte-americano D. W. C. Olyphant pago a sua passagem e a de Elijah, por iniciativa do Dr. Morrison. Um anos depois da sua chegada ao Sul da China, Abeel é empregado pela American Board of Commissioners for Foreign Missioners. Por motivos de saúde, o missionário abandona Cantão, em 1833, rumo a Java, ao Sião e a Singapura, visitando ainda a Europa, a caminho dos Estados Unidos, onde encorajaria a realização de futuras missões na China, encontrando-se com Harriett Low, em Inglaterra a 22 de Julho de 1834, onde ajuda a formar a Society for Promoting Female Education in the East. Abeel publica The Claims of the World of the Gospel (1838); The Missionary Conversion of Jerusalem e descreve as suas viagens no Journal of a Residence in China, and the Neighboring Countries; from 1829 to 1833, bem como a sua estada em Macau. A surpresa reina na descrição do enclave cuja aparência europeia (Praia Grande) contrasta com a esterilidade dos territórios e das ilhas ciurcundantes. O autor refere a superfície irregular da urbe, rodeada de campos cultivados, montes, aldeias dispersas, cenários aquáticos, e cuja aparência muda de acordo com a perspectiva ou o local de onde é vista, surpreendendo o visitante. Quanto aos edifícios, a variedade e o tamanho são as suas características mais importantes, encontrando-se a maior parte do território ocupado por chineses. Relativamente à população, e de acordo com uma estatística recente de que o autor tem conhecimento, habitam na cidade cinquenta mil pessoas, das quais quarenta e cinco mil chineses, embora alguns informantes afirmem que a população não excede os trinta ou os trinta e cinco mil habitantes. Macau é ainda a residência das mulheres e famílias dos comerciantes estrangeiros que se deslocam anualmente para Cantão, existindo aí cerca de onze famílias inglesas e uma norte-americana. O viajante resume a história do estabelecimento dos portugueses em Macau desde as lutas destes contra os piratas do mar da China, sendo os primeiros acusados pelos chineses de terem “usurpado” o local. Quanto aos “locais de interesse”, o texto descreve os jardins e a Gruta de Camões, refere a evangelização dos Jesuítas e a construção de igrejas e de um seminário, de onde abrem “contactos com vários pontos do interior” da China, criticando o mau caminho que a propagação da fé tomara na China. No seminário de São José, outrora posse dos Jesuítas, educam-se jovens chineses, às custas do governo português, para serem ordenados e enviados para a China profunda. Como muitos outros visitantes protestantes Abeel estranha o elevado número de igrejas (12) e padres (40) existentes face ao reduzido número de habitantes católicos. O olhar do autor, nem português nem católico, leva-o a descrever alguns factos, a que chama de “superstições”, relatados por habitantes da cidade, nomeadamente a crença em torno do auxílio de Santo António à cidade aquando da invasão holandesa, pois o mesmo aparecera nos ares e derrotara os invasores, milagre que pode ter sido também obra de São João Baptista, uma vez que a batalha teve lugar no dia deste último santo. O governo do território oferece a Santo António uma festa anual que dura treze dias, criticando Abeel os excessos praticados durante a mesma. Também o jornalista norte-americano W. W. Wood refere a “superstição” relacionada com Santo António. O missionário continua a sua reflexão ‘protestante’ e critica a vivência católica ao descrever a procissão de Santo António. O texto refere ainda a existência de templos chineses e descreve o Templo de Á-Má, “uma forma grotesca de superstição pagã”, referindo os serviços religiosos do missionário Robert Morrison na casa deste último, em prol dos sobrecargas da Companhia das Índias inglesa. Abeel aborda assim um dos factores que afastam, em Macau, a comunidade portuguesa das comunidades de língua inglesa, a religião. Em 1842, o missionário visita, de novo, Malaca e outras localidades asiáticas e funda a Missão de Amoy, regressando, doente, aos Estados Unidos, em 1844, vindo a falecer, vítima de tuberculose, dois anos depois. [R.M.P.] Bibliografia: ABEEL, David, Journal of a Residence in China, and the Neighboring Countries; with A Preliminary Essay, on the Commencement and Progress of Missions in the World, (Nova Iorque, 1836 [1834]); ABEEL, David, The Missionary Convention at Jerusalem. Or, an Exhibition of the Claims of the World to the Gospel, (Nova Iorque, 1838); ABEEL, David et alii, “Early Missionaries in Bangkok”, in FARRINGTON, Anthony (ed.), The Journals of Tomlin, Gutzlaff and Abeel, 1828-1832, (Bangkok, 2001); KITTS, Charles R., The United States Odyssey in China, 1784-1990, (Lanham, 1991); LOW, Harriett, “Lights and Shadows of a Macao Life: The Journal of Harriet Low”, in HODGES, Nan P.; HUMMEL, Arthur W. (eds.), Travelling Spinster-Part Two: 1832-1834, (Woodinville, 2002).
Abeel, DAVID
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?). O diplomata e poeta Martinho Teixeira Homem de Brederode nasceu em Lisboa no dia 15 de Abril de 1866. Depois de concluir o Curso Superior de Letras, iniciou a carreira diplomática em 1889, ocupando o lugar de adido na Legação de Portugal em Bruxelas. Após a sua passagem pela Direcção Geral dos Negócios Políticos e Diplomáticos, foi colocado na Legação portuguesa de Tânger, como 2.º Secretário, onde chegou em Janeiro de 1906. Acabou por exercer interinamente as funções de Encarregado de Negócios. A sua promoção a 1.º Secretário conduziu-o a Pequim, nomeado por decreto de 14 de Março de 1907. As suas obrigações em Tânger adiaram a sua ida para a capital chinesa, onde chegou no dia 2 de Dezembro desse ano, assumindo a gerência da Legação na qualidade de Encarregado de Negócios. Em Pequim, onde permaneceu até 1912, Homem de Brederode foi uma testemunha atenta ao desenrolar da vida política chinesa, num período marcado pelos acontecimentos que acompanharam o fim da dinastia Qing 清 e a proclamação da república em 1911- 1912. A complexidade da situação política chinesa e as suas implicações em Macau, colocaram-no em contacto permanente com o Governador do Território. A sua capacidade de análise e de interpretação sobre o período de crise política, económica e social que atravessou a China, pode ser testemunhada nos inúmeros ofícios e telegramas que remeteu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Os lugares que ocupou e as missões que lhe foram confiadas foram sempre desempenhados com brio e empenho, tendo sido louvado, por portaria de 15 de Outubro de 1912, pela coadjuvação que prestou ao chefe da missão portuguesa no centenário da constituição de Cádiz. Homem de Brederode encontrava-se em Bucareste quando se aposentou em 1939. Foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, da Ordem da Coroa da Roménia, da Ordem de S. Sava da Jugoslávia e da Ordem do Duplo Dragão Imperial Chinês. Homem de Brederode foi Comendador das Ordens de Santiago da Espada e de S. Maurício e S. Lázaro de Itália. Para além de oficial da Legião de Honra (em França), Homem de Brederode foi ainda nomeado Cavaleiro da Ordem de Carlos III. Martinho Homem de Brederode, para além da sua actividade diplomática foi ainda um homem de letras tendo deixado escritas três obras poéticas Charneca (1981), Pó da Estrada (1898) e Sul (1905) e, ainda, um romance, A Noite de Amor (1894), este último sob o pseudónimo de “Marco Sponti”. Bibliografia: Annuario Diplomático e Consular Português Relativo aos Annos de 1910 a 1913, (Lisboa, 1913); Anuário Diplomático e Consular Português de 1925, (Lisboa, 1926); Anuário Diplomático e Consular Português de 1928-1929, (Lisboa, s.d.).
BREDERODE, MARTINHO TEIXEIRA HOMEM DE (1866-?)
CALDEIRA, CARLOS JOSÉ (1811-1882). Nasceu em Lisboa no dia 23 de Janeiro de 1811, filho natural do desembargador José Vicente Caldeira de Casal Ribeiro e meio-irmão do conde de Casal Ribeiro, José Maria Casal Ribeiro (ministro da Fazenda em 1859 e dos Negócios Estrangeiros em 1860). Casou com Gertrudes da Conceição Caldeira e depois com Maria Maximiana da Madre de Deus Silva. Carlos José Caldeira frequentou a Academia Real de Marinha e desempenhou os cargos de Chefe da Repartição de Estatística do Ministério das Obras Públicas e de Inspector das Alfândegas. Homem dedicado às letras, distinguiu-se como escritor e jornalista, tendo colaborado no Diário de Notícias, Jornal do Comércio, Arquivo Pitoresco, Correio da Europa, Arquivo Universal, Ilustração Luso-Brasileira, Ocidente e Revista Peninsular. Das obras que nos deixou, contam-se, entre outras, Considerações Sobre o Estado das Missões e da Religião na China (1851) e Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China, e da China a Lisboa (1852- 1853). Esta última obra, dividida em dois volumes, resultou da viagem que realizou à China, quando contava cerca de 40 anos de idade. Partiu em Julho de 1850 com destino a Macau, numa viagem que durou 50 dias, e permaneceu no Oriente até finais de 1851. Os seus Apontamentos são, ainda hoje, uma obra de consulta obrigatória para todos aqueles que se dedicam ao estudo de Macau oitocentista, traçando um interessante retrato sobre aquela cidade e apresentando vivas descrições e profundas reflexões sobre outros espaços onde se fazia sentir a presença portuguesa, quer no Oriente quer em África. Permaneceu no Oriente durante dezasseis meses. Para além de ter conhecido Macau e os seus arredores, visitou também Cantão e vários portos do sul da China, até Xangai. Durante a sua permanência em Macau, Carlos José Caldeira colaborou na redacção do Boletim Oficial do Governo de Macau, acompanhando de perto a actividade governativa de Francisco António Gonçalves Cardoso, por quem manifestou profunda simpatia pessoal e admiração política. O nome de Carlos José Caldeira encontra-se ainda associado ao debate iniciado, em grande medida, por D. Sinibaldo de Mas, em torno do iberismo, o qual teve os seus adeptos em Portugal: Latino Coelho, Albano Coutinho e, também, Carlos José Caldeira. Existem referências de que Carlos José Caldeira, o seu primo Jerónimo José da Mata, bispo de Macau, D. Sinibaldo de Mas, embaixador de Espanha na China, Frei João Ferrando, procurador das missões espanholas, e Frei José Foixó, se encontraram várias vezes em Macau, aproveitando para debater a questão da União Ibérica. Acabaram por ir mais longe, projectando criar uma associação de propaganda ibérica na Península, logo que regressassem à Europa. Para José Caldeira este regresso concretizou-se em meados de 1852, cerca de dois anos depois de ter partido. Carlos José Caldeira faleceu em Chelas no dia 30 de Novembro de 1882. Bibliografia: CALDEIRA, Carlos José, Macau em 1850, (Lisboa, 1997); Alfredo Gomes, “A Diplomacia ou a Guerra”, in MacaU (Macau), n.° 37, (Macau, 1995), pp.22-26; DIAS, Alfredo Gomes, “Conquistadores Aposentados…”, in Macau, n.° 74 (Macau, 1998), 1998, pp.116-118; ROCHA, Ilídio, “Um Português na Pista das Sociedades Secretas”, in História, n.° 119, (Lisboa, 1989), pp.21-28.
CALDEIRA, CARLOS JOSÉ (1811-1882)
| Personagem: | Conceição, Deolinda do Carmo Salvado da, 1913-1957 |
| Tempo: | Época da República entre 1911 e 1949 |
| Após o estabelecimento da RPC em 1949 até 1999$ |
| Fonte: | Dicionário Temático de Macau, Volume I, Universidade de Macau, 2010, p. 394. ISBN: 979-99937-1-009-6 |
Caros membros do website "Memória de Macau", olá!
Agradecemos o vosso apoio e confiança ao longo do tempo ao website de Cultura e História "Memória de Macau". A fim de otimizar a qualidade dos serviços a prestar aos membros e proteger os seus direitos e interesses, será implementada, oficialmente, uma nova versão dos "Termos e Serviços" que entrou em vigor a 28 de Abril de 2025. Por favor, leiam o texto completo da versão actualizada. O conteúdo pode ser consultado aqui:
👉 Clique aqui para tomar conhecimento da versão actualizada dos "Termos e Serviços"
Li, concordo e aceito o conteúdo actualizado dos "Termos e Serviços".
Caso tenha alguma dúvida sobre a versão atualizada, não hesite em contactar-nos.
Agradecemos o vosso contínuo apoio e confiança. O website de Cultura e História "Memória de Macau" continuará a prestar serviços aos seus membros de forma segura e conveniente.
Com os melhores cumprimentos,
Website de Cultura e História "Memória de Macau"
Data de actualização: 28 de Abril de 2025
Instruções de uso
Já tem a conta da "Memória de Macau"? Login
Comentários
Comentários (0 participação(ões), 0 comentário(s)): agradecemos que partilhasse os seus materiais e histórias (dentro de 150 palavras).